Etiópia, onde tudo começou

Sob um grosso cristal, na inquebrantável quietude do subsolo do Museu Nacional da Etiópia, localizado na capital Addis Abeba, descansa o que para muitos especialistas constitui um dos maiores tesouros da humanidade: o esqueleto da pequena Lucy.

Sob um grosso cristal, na inquebrantável quietude do subsolo do Museu Nacional da Etiópia, localizado na capital Addis Abeba, descansa o que para muitos especialistas constitui um dos maiores tesouros da humanidade: o esqueleto da pequena Lucy.

Segundo a entidade, os restos não são tão visitados como deveriam, se for levado em conta que este antepassado, um espécimen de Australopithecus afarensis, viveu há 3,2 milhões de anos e, segundo a generalidade dos estudos elaborados ao respeito, constitui a mais antiga versão encontrada do que agora somos os seres humanos. ‘Lucy’ é considerada uma espécie de vínculo entre o andar em duas pernas e o viver em árvores.

Não obstante, a descoberta de um fóssil diferente coloca outro ramo à árvore da evolução humana em uma nova evidência de que a famosa espécie coabitou com outro hominídeo no que hoje é Etiópia. O pesquisador Tefere Mehistu, da Universidade de Addis Abeba, indicou que ainda que as análises nesse sentido ainda estejam em curso, tudo parece apontar que este é um segundo ancestral humano, que viveu mais ou menos na mesma região e tempo que Lucy.

Uma mandíbula inferior, além de fragmentos de dentes, dentre 3,3 e 3,5 milhões de anos de idade, foram encontrados há sete anos na região de Afar, no norte da Etiópia, mas as conclusões sobre o que realmente é e o que significa esta descoberta não estão prontas, apontou, por sua vez, Ngema Yibra, outro especialista no tema.

São grandes os desafios para determinar com precisão sobre essas descobertas, na opinião dos especialistas, pois são escassos os registros fósseis entre o período de tempo (há dois milhões de anos) quando Lucy e seus parentes estavam vivos e o aparecimento do Homo erectus (com seu cérebro relativamente grande e proporções corporais similares às dos humanos.

Até agora, a verdade é que os dentes molares traseiros são menores que os de outros hominídeos que viviam na área e são uma das características que distinguem os humanos de antepassados mais primitivos, destacou o professor William Kimbel, diretor do Instituto de Origens Humanas da Universidade Estatal do Arizona: “De modo que esta nova descoberta empurra a linha humana para atrás 400 mil anos mais ou menos, bem perto de seu possível antecessor (pré-humano). Sua mistura de características primitivas e avançadas faz da mandíbula uma boa forma de transição entre Lucy e humanos posteriores”, destacou Kimbel.

De acordo com as investigações mais atualizadas, a datação da mandíbula poderia ajudar a responder uma das perguntas essenciais na evolução humana: o que fez com que alguns ancestrais primitivos descessem das árvores e construíssem seus lares no solo.

Um estudo publicado na revista Science sugere que uma mudança no clima pode ter sido um fator; uma análise da vida animal e vegetal fossilizada na área indica que o que uma vez tinha sido um frondoso bosque havia se convertido em pastagens secas.

À medida que as árvores deram lugar a extensas planícies, os antigos primatas parecidos com os humanos encontraram uma forma de explorar o novo nicho ambiental, desenvolver cérebros maiores e tornarem-se menos dependentes de grandes mandíbulas e dentes mediante o uso de ferramentas.

No entanto, o professor Chris Stringer do Museu de História Natural de Londres, aponta que o aparecimento de características humanas não é exclusivo da Etiópia: “As características similares às humanas mostradas por Australopithecus sediba na África do Sul  há aproximadamente 1,95 milhões de anos provavelmente desenvolveram-se de maneira independente dos processos que produziram (humanos) na África oriental, mostrando que as origens paralelas são uma possibilidade diferente”, explicou Stringer.

Não obstante, o Leste da África é onde a maioria dos cientistas localizam as origens de nossa espécie: dois dos fósseis mais antigos de Homo sapiens conhecidos: crâneos de 196 mil e 160 mil anos provêm da Etiópia, e os estudos de DNA das populações atuais em todo mundo apontam a uma origem africana há cerca de 200 mil anos.

Prensa Latina