Quem Faz o Movimento?

Nesta edição, entrevista realizada pela Juventude 5 de Julho (J5J) em São Paulo, com o camarada José Fernandes, o Zé Fernandes, comunista histórico de São Bernardo do Campo, diretor da Associação dos Metalúrgicos Aposentados do ABC (AMA-SP)

INV - Você poderia citar algumas diferenças entre as lutas atuais dos trabalhadores contra as medidas tomadas pelo governo golpista e a luta contra a ditadura civil-militar das décadas de 60 e 70 no Brasil?

JF - É que naquela época a luta era para derrubar a ditadura militar que foi implantada naquele período, em que os trabalhadores viviam um momento difícil nas fábricas, sem aumento e uma série de perseguições. Agora, os movimentos atuais não podem chamar assim – um movimento contra a ditadura - porque não é uma ditadura direta, é uma ditadura por vias indiretas. Uma ditadura que estão aplicando contra os trabalhadores e que, na realidade, os aposentados de hoje podem sofrer várias consequências desse projeto, e a juventude que está trabalhando agora vai sofrer mais ainda. A terceirização é ruim demais para os jovens porque quando vocês entram numa firma, entram por um terceiro, tornando mais complicada e difícil a defesa de seus direitos como trabalhadores. A gente chama isso de ditadura porque o povo não está conseguindo brecar o que os golpistas estão fazendo, a juventude vai pra rua, o povo vai pra rua, mas eles estão empurrando esses projetos pra cima do povo.

INV – O que você teria a dizer ao povo brasileiro e sua juventude?

ZF – O que eu posso dizer é que essa luta precisa continuar! Para isso é fundamental passar para os trabalhadores o ensinamento ideológico, porque não adianta nada todo ano fazer a greve por aumento de salário, melhores condições de trabalho e outras reivindicações simples, se o trabalhador não entender que o futuro dele é assumir o poder, é tomar o poder. Porque se não for assim, ele ficará 2 milhões de anos lutando por aumento de salário, por melhores condições de vida e não vai acabar seu sofrimento. O trabalhador precisa entender essa questão, e para saber isso tem que conhecer e participar da luta ideológica. Quer dizer, a luta reivindicatória nós sabemos, a luta política, o cara sai da fábrica e vem para o sindicato e vira um diretor, de diretor ele vira vereador, de vereador ele vira deputado, e esquece da fábrica, esquece da máquina, então, a formação ideológica é a que eu tenho. Eu poderia hoje estar filiado a um partido eleitoreiro, mas devido à minha consciência, à minha formação ideológica, achei que não adiantava eu me filiar a nenhum destes. Pra quê? Porque eu vou ter que ser eleito e governar, fazer parte do governo de um Estado burguês, e dentro dele as feras que estão em volta são muito mais do que as que podem me ajudar. É o caso de hoje. Eu gostaria que o partido revolucionário tivesse condições de tomar o poder.

INV – Na luta revolucionária, como sua história se uniu ao INVERTA e ao PCML?

ZF - Bom, minha história com o jornal Inverta é meio comprida, mas vou tentar encurtar. Quando eu retornei ao Brasil vindo da URSS, nós ainda tínhamos um partido, o PCB, e o comandante ainda era o Luiz Carlos Prestes. Até certo tempo tivemos o Prestes, o Marighella e o pessoal nosso. Mais tarde, houve a realização de um congresso em que o Roberto Freire e outros colocaram uma linha política que nós discordamos, que é justamente essa onde o Freire está hoje, e o que eles queriam era participar do governo. Então nós, incluindo o Aluisio Bevilaqua e outros companheiros do Rio de Janeiro, de São Paulo e do Ceará não concordamos e rachamos ali, e fomos para um colégio chamado São Joaquim. Lá no São Joaquim ainda saíram alguns no meio, e desse meio sobrou eu, sobrou o camarada Waldemiro Pereira, falecido. Eu sei que dessa metade que rachou com o Roberto Freire e com mais alguns que vocês já sabem os nomes e que estão aí no poder, ainda sobrou uns quadros de Santos que não concordaram com a gente, porque queríamos ir para o Marxismo-Leninismo, né! Porque o poder tem que ser para a classe operária, para o proletariado e não pra mim. A partir daí, com o agrupamento Organização Popular Pra Lutar (OPPL), no Rio de Janeiro, nós continuamos trabalhando juntos pela refundação do Partido Comunista, tivemos alguns encontros, reuniões lá nos morros do Rio e na Baixada Fluminense. Esse movimento cresceu e fundou o jornal INVERTA e depois o PCML e eu não saí de dentro dele.

J5J - SP