Flip 2017 homenageia Lima Barreto e dá destaque a autores negros

A 15ª edição da Flip – Feira Literária Internacional de Paraty, que aconteceu de 26 a 30 de julho, homenageou o sátiro romancista Lima Barreto e teve como cicerone o ator, e agora escritor, Lázaro Ramos. Ter a capacidade de capitar o espírito de seu tempo e fazer com que experiência seja reverenciada através do caráter humano, é onde se insere o grande autor homenageado.

A 15ª edição da Flip – Feira Literária Internacional de Paraty, que aconteceu de 26 a 30 de julho, homenageou o sátiro romancista Lima Barreto e teve como cicerone o ator, e agora escritor, Lázaro Ramos.

 

Ter a capacidade de capitar o espírito de seu tempo e fazer com que a experiência seja reverenciada através do caráter humano, é onde se insere o grande autor homenageado.

 

Afonso Henrique de Lima Barreto nasceu na cidade do Rio de Janeiro no ano de 1881, filho de Amália Augusto e de Henrique de Lima Barreto; tinha descendência africana, devido aos seus avós terem sido escravizados. Seu pai era topógrafo e sua mãe, que veio a falecer quando o escritor tinha apena seis anos de idade, era professora primária. Após o falecimento de sua mãe, Lima Barreto e seus outros três irmãos ficaram sob os cuidados de seu pai e do sr. Visconde de Ouro Preto, que era padrinho do autor.

 

Matriculado na Escola Politécnica, no ano de 1896, Lima Barreto não apresentou bom desempenho educacional, sendo reprovado em várias matérias continuamente, uma vez que foi neste período que o escritor passou a viver uma das piores fases de sua vida, com as frequentes internações de seu pai, vítima de loucura.

 

Lima Barreto trabalhou no setor burocrático da Secretaria de Guerra, onde mais tarde deu sua primeira colaboração para a imprensa do Rio de Janeiro, publicando artigos e crônicas no Correio da Manhã e no Jornal do Comércio, onde, a partir dos anos seguintes passou a integrar o grupo de escritores e ilustradores que colaboravam com a revista Fon Fon. Mais tarde, fundou e dirigiu a revista Floreal, que teve apenas quatro edições. Foi nessa revista que o autor redigiu o folhetim

 

Recordações do Escrivão Isaias Caminha”, publicado no ano de 1909. O autor era simpático ao anarquismo e militou na imprensa socialista da época.

 

Uma das grandes obras de Lima Barreto, “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, foi escrita num período em que o autor estava passando por sérios problemas pessoais e mergulhado em crises de alcoolismo e depressão aguda, assim como seu pai. Num primeiro momento, a história do patriota ímpar – Policarpo Quaresma, que causa estranheza nas pessoas, foi escrita nas páginas do Jornal do Comércio e somente no ano de 1915 que o livro foi publicado, com o mesmo título, com o custo do próprio autor.

 

O escritor se aposentou no ano de 1918, por invalidez, do cargo que exercia na Secretaria de Guerra, e faleceu no dia 1 de novembro de 1922 aos 41 anos de idade.

 

A cidade do Rio de Janeiro foi reinventada, a partir da leitura de território, pelo autor; desde seus subúrbios e suas múltiplas faces e linguagem utopistas, representadas por Policarpo Quaresma, malandros, trabalhadores e músicos, do centro da cidade, para onde Isaias Caminha se deslocava, rotineiramente e tragicamente, para concretizar seus anseios e inteligência.

 

Autor negro, abolicionista, Lima Barreto escreveu contos, romances, crônicas e críticas; sátiras, memórias e diários através de uma linguagem vanguardista e moderna, fora do padrão da época, devido ao seu estilo despojado e coloquial fluente.

 

Sua obra passou a ocupar o cenário da literatura brasileira, 35 anos após sua morte, através de sua biografia escrita pelo jornalista Francisco de Assis Barbosa, consolidando assim, toda a sua obra, em grande parte inédita, no ano de 1956.

 

A Flip 2017 celebrou a inteligência, o espírito crítico, a extrema lucidez e o humor sarcástico de Lima Barreto, a despeito de duas temporadas internado em um hospital psiquiátrico; atributos que lhe fizeram ver e antever o país, onde diferentes autores se apoderaram dessa visão para exercerem esse ofício praticado, de todas as formas, pelo autor homenageado.

 

Muitas foram as mesas que abordaram as questões literárias e sociais que atravessam as obras do autor, como os limites da ficção e da não ficção, o papel do escritor, a etnografia da cidade do Rio de Janeiro, e principalmente a questão racial e social imposta pela diferenciação entre cor e classe.

 

As obras de Lima Barreto transcendem o realismo e o modernismo, e as principais são:

 

Recordação do Escrivão Isaias Caminha (1909)

Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915)

Numa e Ninfa (1915)

Os Bruzundangas (1923)

Clara dos Anjos (1948)

Diário íntimo

 

Entre outras, como: O Homem que sabia javanês, Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá, Cemitério dos Vivos, O Subterrâneo do Morro do Castelo; e os contos: A Nova Califórnia e Outros Contos, Quase ela deu o Sim e A Barganha, A Biblioteca...

 

A visibilidade de autores negros na Flip – 2017

 

A diversidade foi o ponto forte da Flip 2017 em Paraty, que deu visibilidade a autores negros brasileiros e estrangeiros, dando destaque à escritora mineira Conceição Evaristo, de 70 anos, que descobriu o gosto pela leitura após ler a obra, da também autora negra, mineira, Carolina Maria de Jesus, “O Quarto de Despejo”.

 

Conceição Evaristo nasceu em 1946 na favela Pendura Saia, em Belo Horizonte – Minas Gerais. A autora, segunda de nove irmãos, era filha de lavadeira e cresceu numa família onde as mulheres eram faxineiras, cozinheiras e babás, e descobriu a leitura de uma mulher que, assim como ela, era pobre, negra e exprimia através da leitura seu próprio sentimento e reflexão sobre aquela existência em que estaria inserida, que fora Carolina de Jesus.

 

A escritora tomou o gosto pelo contar história ainda criança, dentro de sua própria família, através da tradição oral africana.

 

Na época em que frequentava o curso normal para se tornar professora primária, a escritora precisou conciliar o curso normal com o trabalho de doméstica, entre outras ocupações, para ajudar no sustento de casa.

 

Mudou-se para o Rio de Janeiro, prestou concurso. e se formou em Letras pela UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro; época em que manteve o contato com a literatura de outros autores negros, conhecendo assim o grupo Quilombohoje, em cuja série literária “Cadernos Negros” publicou seus primeiros poemas, e onde viria a completar o mestrado em Literatura Brasileira pela PUC–Rio e o doutorado pela UFF – Universidade Federal Fluminense.

 

Palestra da Escritora Conceição Evaristo tendo como mediadora Ana Maria Gonçalves

 

Suas obras foram relançadas na Flip 2017, onde Poncias Vivencio (2003) e Becos da Memória (2006) estão sendo reeditadas pela editora Pallas. Poemas de Recordação e outros movimentos (2008) e Insubmissas Lágrimas de Mulheres (Conto – 2011) terão novas edições pela editora Maiê, que também lançou Histórias de leves enganos e parecenças (2016).

Sua obra Olhos D’Água” foi uma das mais procuradas nos standes montados na feira.

 

Obra de Conceição Evaristo – Olhos D’Água

 

Em conversa com Ana Maria Gonçalves, Conceição Evaristo reverenciou outras vozes feministas africanas e da diáspora negra, como o ícone do feminismo internacional negro Angela Davis, Audre Lorde, Carolina de Jesus, Josefina Herrera, Nina Simone, Noemia de Souza, Odete Semedo, Paulina Chiziane e Toni Marrison.

 

Muitos foram os autores negros que puderam mostrar suas obras para um público eclético, como Lázaro Ramos, ator consagrado, negro da Companhia de Teatro do Olodum, de Salvador, que lançou na Flip sua obra “Na Minha Pele”, pela editora Objetiva, que retrata suas memórias em torno do racismo. Edmilson de Almeida Pereira, mineiro de Juiz de Fora, que também é poeta e ensaísta profícuo, concentrado no entendimento das atribuições africanas na literatura brasileira, sua obra poética está reunida em quatro volumes, toda pela editora Mazza; entre eles “Zeosórios Blues” (2002) e Casa da Palavra”.

 

Lázaro Ramos – Ator - Escritor

 

A escritora Scholastique Mukasonga, 61 anos, escritora de Ruanda, e uma das grandes vozes africanas, relatou, na mesa do dia 27/07, a violência e os conflitos étnico-políticos que marcaram a história de seu país e de sua família, como o fato de sua mãe e dezenas de parentes terem sido assassinados em 1994; fato esse que a impulsou a escrever e publicar em 2006 As memórias Inyenzi ou les Cafards (Gallimardi), influenciada pela literatura do holocausto, além de Memórias públicas, romances e contos. Suas premiadas obras “A mulher dos Pés Nus” e “Nossa Senhora do Nilo foram, pela primeira vez, traduzidas no Brasil.

 

As grandes mesas de debate da Flip 2017 aconteceram no auditório da Igreja Matriz, que foi toda reformulada para receber o festival, obtendo transmissão ao vivo para o Auditório da Praça que se encontrava em frente à igreja; auditório esse que na palestra de Lázaro Ramos e Joana Gorjão Henrique, no dia 28/07, elevou a aposentada Diva Guimarães, de 77 anos, ao cenário nacional, quando pediu a fala e relatou o racismo que sofreu aos seis anos de idade, depois do sermão de uma freira do colégio interno em que estudava, onde a religiosa fez um comentário racista desnecessário, dizendo que Deus havia criado um rio para que todos se abençoassem, onde laboriosos e espertos chegariam primeiro e ao se banharem ficariam brancos; outros, preguiçosos, chegariam mais tarde e encontrariam o rio já atolado em lama escura; estes puderam apenas lavar as palmas das mãos e as plantas dos pés, ficando com todo o resto do corpo preto.

 

Na verdade, o que a religiosa quis dizer, segundo Diva, é que a cor da pele negra é um verdadeiro estigma para o sentido de moleza, preguiça, falta de moral, e essa religiosa não tinha ideia de que o racismo machuca e fere, pois ele vai além da alma. Completou Diva.

 

A escritora Conceição Evaristo e Diva Guimarães em Paraty Flipinha – 2017

 

A Flip contou ainda com a “Flipinha”, que ocupou o entorno da Praça da Matriz com ações educativas, voltadas para o público infanto-juvenil. Espaço integrado para pais e filhos, moradores, visitantes e expositores por meio de mediações, conversas e leituras, não se esquecendo do cortejo literário pelo centro histórico e conversas sobre o território, através da escrita e das experiências cotidianas dos autores locais.

 

Marluce Lopes