Camarada Vicente Gonçalves, presente!

Homem do povo com toda sua valentia, um dos mais ilustres filhos da classe trabalhadora era também boêmio e, reza a lenda, cantava serenatas junto a Juscelino Kubitschek, para quem sua mãe trabalhava desde sua infância. Grande contador de histórias, era também uma enciclopédia viva sobre a cultura e as mais ilustres figuras de Belo Horizonte desde a década de 1940.

O camarada Vicente Gonçalves faleceu no dia 3 de agosto de 2016, um dia depois de cumprir 85 anos. Comunista de referência em Minas Gerais, foi um lutador incansável pelos direitos da classe trabalhadora brasileira. Sua trajetória de vida se confunde com a história de lutas do povo belo-horizontino e brasileiro.

Nascido no interior do estado em 1931 e trazido para a capital ainda criança, foi na favela da Barroca onde aprendeu sobre as injustiças do capitalismo e começou a se organizar contra elas ainda na adolescência. É reconhecido como liderança incontestável de massas, desde a constituição das Unidades de Defesa Coletiva da favela em sua juventude; pela fundação da Federação dos Trabalhadores Favelados, primeira organização autônoma a representar vilas e favelas no Brasil; até a redação da lei que deu origem ao Programa Municipal de Regularização de Favelas (PROFAVELA), enquanto estava adiante da UTP, União de Trabalhadores da Periferia – política que se estendeu por todo o país. Como advogado e defensor da proposta, foi Vicentão quem colocou a questão da titulação do lote e da casa em nome da mulher, sabia muito bem o que era ser filho de mãe solteira e trabalhadora.

Durante a ditadura militar foi foragido, preso e perseguido sem nunca renunciar. Cooptado para o Partido Comunista por Dimas Perrin, outra referência comunista de moral impecável, Vicente acompanhava Luis Carlos Prestes e era responsável pela segurança do Cavaleiro da Esperança quando vinha ao estado. Treinou operários e universitários na arte da luta e enfrentava de cabeça erguida a burguesia e a repressão, acompanhado de um verdadeiro exército proletário.

O morro descia quando Vicente chamava e ninguém segurava a força da classe trabalhadora organizada, como demonstrou com sua liderança na luta pela moradia e inúmeras outras batalhas, como a greve da construção civil na década de 1970. Da Assembleia Legislativa de Minas Gerais deu o primeiro grito de “Abaixo a Ditadura!” e, caminhando pela capital sob nuvem de gás lacrimogêneo, esteve na vanguarda do movimento pela anistia e pelo fim da ditadura no estado, ao lado de figuras como Dona Helena Greco.

Homem do povo com toda sua valentia, um dos mais ilustres filhos da classe trabalhadora era também boêmio e, reza a lenda, cantava serenatas junto a Juscelino Kubitschek, para quem sua mãe trabalhava desde sua infância. Grande contador de histórias, era também uma enciclopédia viva sobre a cultura e as mais ilustres figuras de Belo Horizonte desde a década de 1940. Sempre se nutriu de todo conhecimento possível, sendo também técnico eletricista, faixa-preta em jiu-jitsu, mestre em acupuntura, além de advogado popular e um grande professor para inumeráveis companheiros na ciência do marxismo. Dizia que a ignorância e o descaso com a educação eram parte da corrente que até hoje amarra o proletário à exploração.

Observava com preocupação o extermínio da juventude e a situação da classe trabalhadora hoje, cuja organização foi massacrada pela ditadura: “é necessário reconstruir”, afirmava.

Alertou nossa geração sobre o perigo do fascismo e até seus últimos dias esteve comprometido com a liberação da classe trabalhadora, acompanhando o PCML como revolucionário na denúncia e na luta contra esse golpe fascista, que tenta lançar o Brasil de volta à sua época mais obscura. Fundador e presidente da Associação de Perseguidos Políticos do Brasil, ele sempre dizia: organização antes de tudo. Sem organização não tem nem estratégia nem conquista. Seu legado está nas vilas e favelas de todo o Brasil e sua vida nos ensina que, para a classe trabalhadora, a alternativa é lutar ou morrer.

É de extrema importância que essa e as futuras gerações conheçam a história e vida desse guerreiro excepcional e que possam encontrar na convicção política e humana de Vicente a força para continuar na luta por um mundo sem explorados nem exploradores; a luta por uma sociedade infinitamente superior onde a riqueza e o conhecimento não sejam ferramenta de domínio contra os pobres, mas que sejam colocados a favor do desenvolvimento pleno do ser humano, independente de sua origem; a luta pela sociedade comunista.

Contra as injustiças do capital, seguiremos até a vitória, sempre!

Camarada Vicente Gonçalves, presente!