A Inflação e os Trabalhadores

A inflação representa um fenômeno da economia. Resulta da atividade do organismo social que requer produzir mercadorias e serviços para existir. A sobrevivência do homem é material. E a produção material de sua existência exige preços estampados em tudo o que se produz. Se estes valores generalizadamente entram num processo de elevação, aparece a malquista inflação. O problema é a velocidade com que estes preços possam subir, atingindo magnitude que os salários não mais consigam acompanhar. Esse é o ponto em que a inflação se torna perigosa. Vai se abrindo um fosso entre os preços das mercadorias e o preço da força de trabalho. A subsistência dos trabalhadores se empobrece, sem adquirir o que antes percebia. O consumo cai e arrasta a produção consigo para baixo. Isso já ocorreu na economia brasileira. Foram pelo menos 20 anos de aflição no capitalismo brasileiro até o advento do Plano Real. Sobreviver no capitalismo periférico brasileiro já é de per si difícil proeza, com inflação sem controle então é martírio completo.

A preocupação com a inflação é, por conseguinte, pertinente a todos os governos. Menos importa se estes são afinados com a burguesia ou com a classe trabalhadora. O detalhe é que o capital transfere o aumento dos preços aos trabalhadores assalariados. Se a defasagem não conseguir ser recuperada, o sistema reprodutivo do capital se degenera. A inflação figura como perigo a vista e de atenção diuturna dos mandatários.

A majoração dos preços pode ser instigada tanto pelo custo de produção quanto pela demanda. Às vezes se salienta mais o primeiro, às vezes mais o segundo. O normal é os dois interagirem nesse processo. Traduz bem um cabo de guerra, ora com mais tensão de um lado, ora de outro. No quadro brasileiro recente, as rajadas inflacionárias, período em que a altas assumem intensidade inquietante, um dos responsáveis principais tem enveredado pela demanda. O preço dos serviços prestados avocam os maiores aumentos. A economia brasileira tornou a crescer, pelo menos moderadamente. Não se sabe ao certo qual a duração deste ciclo. Porém, enquanto suceder há falta de mão-de-obra qualificada em quase todos os ramos de produção. Com notoriedade, o setor de serviços exerce maior pressão, empregador mor do país. É a empregada doméstica que quer ganhar mais. É o profissional da construção civil que quer ganhar mais. É o caixa de supermercado que quer ganhar mais. É o balconista que quer ganhar mais. O momento se mostra favorável. De vacas gordas. De modo geral, esses pleitos alcançaram êxito. O trabalhador assalariado há de viver melhor. Complexo responder é a duração dessa situação.

A segunda fonte de inflação, igualmente do lado da demanda, indicia a concessão de crédito. Mesmo com a diversidade das transferências de renda praticadas pelo Governo Federal a fim de complementar a renda dos trabalhadores mais pobres e assim exercerem superior poder de consumo, a renda média do trabalho prossegue muito baixa. Trata-se de um resquício da formação histórica do capitalismo brasileiro. Não se modifica com um governo, apesar do traço reformista burguês, como pontificaram a gestão Lula e sua sequaz, o Governo Dilma. Modificaram apenas tenuemente a proporção de distribuição do rendimento via imposto. Portanto, não há como escapar do crédito facilitado para estimular o consumo e a produção. O Banco Central tem reduzido sistematicamente a taxa de juros básica da economia com a qual operam os bancos comerciais para repassar em empréstimos do outro lado aos clientes. E os bancos públicos - Caixa Econômica e Banco do Brasil – são a propósito utilizados para os bancos comerciais reduzirem suas margens brutas de ganho. Com maior disponibilidade de crédito, mesmo com o risco de inadimplência aos mais deslumbrados ou afoitos, a demanda recebe um influxo. Há uma quantidade maior de dinheiro de crédito à disposição tanto de trabalhadores quanto capitalistas. Os trabalhadores podem dispender mais mediante o dinheiro ocioso em oferta abundante. Abre-se uma brecha para a ascensão de preços do lado da oferta. O fato mais ilustre se deu com a construção civil. O preço do imóvel disparou, acima do que a demanda auferiu em ganhos. Como perduram muitos imóveis em encalhe em busca de compradores já deve estar em curso um processo de acomodação de preços. Nesse interim, os trabalhadores tiveram de se contentar com moradias cada vez menores e caras.

A terceira fonte de inflação e, na ótica deste escriba, a mais terrível, é a que emana do custo de produção. A produção encarece por algum motivo. Na indústria, estas altas são mais controláveis. Dentro da fábrica, as variáveis responsáveis pelo preço de produção podem ser monitoradas de perto. E quando surge um problema, pode ser dirimido com rapidez. A dificuldade reside na agricultura. O preço dos alimentos tem sido vitimado por alta súbita e intermitente. A causa incide sobre o desequilíbrio climático reincidente e em vias de se potencializar em intervalo de tempo encurtado. A destruição vertiginosa da natureza, como se o homem dela não dependesse, o mais que provável aquecimento global como vetor resultante da intervenção humana pós Revolução Industrial, estão ocasionando estragos avassaladores sobre a produção de alimentos. Os gêneros alimentícios mais suscetíveis são os hortifrutigranjeiros. São mais delicados e ao mesmo tempo de recuperação mais facilitada. Por sua vez, a produção de cereais pode ser afetada em profundidade impactando sobre as cadeias produtivas. A título de exemplo, o milho se desdobra em mais de mil produtos. É um artigo primário de comercialização internacional (commodity). Seu preço é determinado pela Bolsa de Chicago. O preço da ração a base de milho para alimentar animais é em grande medida estabelecido internacionalmente. Quer dizer que o preço do frango, uma das comidas mais baratas e ao alcance dos trabalhadores, pode ser altamente influenciado pelo fenômeno climático. E aqui não se menciona o trigo, presente no pão e toda a cadeia de farináceos. O Brasil também vem sendo acossado por desequilíbrios constantes no clima que, mais amiúde, tem afetado os hortifrutigranjeiros. Os hortifrutigranjeiros são os mais baratos, de importância alimentar inegável para o equilíbrio da saúde do ser humano.

São as altas nos alimentos que mais originam preocupação. A natureza não possui cercas para isolar sinistros. O planeta sempre foi integrado do ponto de vista ambiental. As temperaturas se homogeinizam pela atmosfera. Ademais, como se não bastasse, os estoques reguladores se encontram em níveis críticos como jamais sucedeu na história econômica. Eles existem para socorrer a humanidade por ocasião de desastres, mantendo os preços agrícolas mais estáveis a fim de que a fome não alastre com perigosas consequências. A economia faz tempo é mundial, com muitos preços agrícolas que não se definem aqui dentro (trigo, milho, café, algodão, açúcar, soja). E o cuidado com a natureza não pode ser mais deixado ao largo, como algo desprezível. Pois como dizia Chico Buarque: “E qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d’água. Pode ser a gota d’água!”.

 

 

José da Silveira Filho