Tupac Amaru II: Filho e Pai da América independente

Nascido em 19 de março de 1743 como José Gabriel Condorcanqui em território que é hoje estado de Cusco, no Peru, era proprietário de terras e desenvolveu seu patrimônio principalmente no negócio de transporte de carga, o que lhe permitiu realizar constantes viagens desde Cusco até o Alto Peru, hoje Bolívia. À parte das crueldades vistas em suas andanças, Tupac Amaru II teve contato com a obra do Inca Garsilaso de la Vega na Escola para Caciques de Cusco, um dos centros das tendências nacionalista-indigenistas e de retorno ao tempo dos Incas. Além de dominar o latim e as artes do comércio, historiadores especulam que também aí conheceu algumas obras iluministas, na época censuradas.


Nesse momento, o regime colonial espanhol estava sentado sobre a exploração da massa indígena. Os pequenos produtores indígenas camponeses eram obrigados a pagar altíssimos impostos; deviam servir ao regime de mita, que obrigava todos os homens entre 18 e 50 anos a trabalhar nas minas, principalmente nas de Potosí como “utilidade pública”; tinham que se submeter aos repartos, onde produtos inúteis lhes eram forçosamente vendidos a preços superfaturados; e também eram reféns dos obrerajes, núcleos de produção têxtil manufatureira, indício do insipiente capitalismo que caracterizou as relações sociais em nosso continente – internamente feudais, mas vinculadas ao capitalismo internacional. Os camponeses mestiços pobres e o trabalho escravo compunham o resto da força de trabalho da qual vivia o rei da Espanha Carlos III, que também era acionista direto de 25% do comércio de escravos nessas colônias.


Todas as classes de exploradores -latifundiárias, comerciantes e clero- disputavam constantemente a riqueza produzida por essa massa. Com maior recrudescimento da exploração a partir das “reformas bourbônicas” - medidas desesperadas de um decadente império espanhol para resgatar o lucro de outrora - as contradições internas entre exploradores começaram a pesar, alimentando a insatisfação dos mestiços abastados e dos “europeus americanos”, brancos nascidos no Novo Continente que compunham uma insipiente classe de comerciantes insatisfeita com o peso, cada vez maior, dos impostos da coroa.


A insatisfação da população americana explorada pelos espanhóis já vinha se acumulando desde muito antes, como demonstra a ascensão do número de levantamentos indígenas e camponeses nas décadas anteriores a “La Gran Rebelión”: 11 levantamentos entre 1750-59, 20 entre 1760-69 e 66 entre 1770-79. Segundo estimativas da coroa espanhola, a população da América Latina chegava a 16 milhões de pessoas, concentradas majoritariamente entre o sul da Venezuela e o norte da Argentina – não por coincidência, território do antigo Império Inca.


Tupac Amaru II foi um dos poucos a compreender e sentir os problemas de sua época. Ainda que inicialmente pretendesse conseguir melhoras para um povo que vivia em condições sub-humanas, sua luta foi se radicalizando à medida que percebia que dentro daquele sistema não havia espaço para liberdade, e que a revolução era a única saída. Assumiu o nome Tupac Amaru II como revindicação de seu passado Inca, que ainda reinava no imaginário de milhares de seus conterrâneos, e de sua radical decisão de luta contra o domínio colonial, personificado nos funcionários tributários, nobreza e clero. Sapa Inca Tupac Amaru (1545-1572), ou Tupac Amaru I, do qual Tupac Amaru II era descendente por parte de mãe, foi o último Inca na era moderna a resistir contra o Império Espanhol.


Depois de muito conspirar, em novembro de 1780, se acendeu o rastro de pólvora por toda América Espanhola, o grito de liberdade que ecoaria em rebeliões indígenas da Nova Granada (atual Colômbia), onde foi proclamado “Rei da América” até o norte da atual Argentina, cujos aliados Aimaras continuaram as revoltas sob liderança de Tupac Catari.


Esse grito de liberdade constituía um dos elementos mais avançados mundialmente para a época, já que sob essa bandeira de liberdade americana se reuniam mestiços, brancos, indígenas e negros. Segundo documento assinado por Tupac Amaru II em novembro de 1780, todos os “naturais ficarão livres da servidão e escravidão na quais estavam”, aspiração que aponta o cacique quechua também como o primeiro antiescravista, anterior a personagens históricos como Toussaint Loverture, Bolívar, San Martín, Castilha e Lincoln. O episódio que convocava nosso povo à liberdade começou com o assassinato de um corregedor da coroa, e assaltos a alguns obrerajes, depois dos quais as riquezas produzidas por aqueles trabalhadores foram distribuídas entre os mesmos.


Foram surpreendidos devido a uma traição, em um posto de retaguarda em abril de 1781, e submetidos todos seus principais aliados e familiares a duras torturas. Entre o momento de sua prisão e de seu assassinato, Tupac Amaru II continuava escrevendo até com o braço quebrado e com próprio sangue, pois lhe proibiram material para escrita, algumas linhas para direcionar a luta que continuava com Diego Tupac Amaru e Tupac Catari.


No dia 17 de maio, foi obrigado a assistir na principal praça de Cusco, capital do antigo Império Inca, primeiro ao assassinato de seu filho Hipólito, presenciado também por Micaela – sua companheira e capitã de seu exército, organizadora da retaguarda e do abastecimento das tropas – cuja língua já havia sido cortada para calá-la perante tamanha tortura. Depois teve que aguentar ver o corpo de sua companheira afetiva e de armas sendo rasgado por cavalos amarrados às suas pernas e pescoço. Sobre a execução do líder revolucionário, relata um cronista da época: “Puseram-no no meio da praça, aí foi cortada sua língua e, retirados grilhões e algemas, o colocaram no chão. Amarraram suas mãos e pés com cordas que, atadas a celas de quatro cavalos, puxavam quatro mestiços a quatro lados diferentes. […] Não sei se porque os cavalos não eram muito fortes, ou porque o índio era realmente de ferro; mas não puderam dividi-lo depois de um bom tempo puxando de tal maneira que estava suspenso no ar.” Finalmente o decapitaram e seu corpo, como de seus familiares, foi exposto por toda a província de Cusco, como exemplo àqueles que pretendiam sublevar-se contra o domínio espanhol.


No dia 18 de maio de 1781, foi brutalmente assassinado Tupac Amaru II, revolucionário que liderou a primeira grande rebelião contra os espanhóis, reunindo indígenas, mestiços e negros sob as bandeiras mais radicais da luta anticolonial.


O medo do povo e do caráter radical da rebelião tupamarista, fez com que os brancos americanos e mestiços comerciantes se alinhassem com os espanhóis depois desse episódio, no período conhecido pelo “Grande Temor”. A coroa jurou em nome de Jesus Cristo acabar com toda a descendência inca; proibindo qualquer vestígio da cultura quechua ou aimara em todo território andino. Ainda que seu primo Diego Cristóbal Tupac Amaru e Julian Apaza Tupac Catari tivessem continuado a rebelião anticolonial, já em 1783 foram presos e também brutalmente assassinados – o primeiro arrastado vivo por um cavalo e o segundo teve sua pele e músculos arrancados por pinças quentes em praça pública. Essas e outras brutalidades levadas a cabo contra a população indígena durante o “Grande Temor” foram a tentativa dos colonizadores de evitar que as cinzas dessa guerra se convertessem em brasa revolucionária.


Duzentos anos depois, o nome, legado e força de Tupac Amaru ainda motivam os revolucionários em todo continente sul-americano. O Movimento de Liberação Nacional - Tupamaru do Uruguai constituiu a principal guerrilha urbana de resistência à ditadura desse país nas décadas de 1960 e 70. O Movimento Tupamaru Venezuelano, organizou ações armadas na década de 1990 contra o narcotráfico em bairros populares e contra o regime de miséria contra o qual o povo já tinha se levantado no Caracaço de 1989. No norte da Argentina, em Jujuy, começou a Associação Tupac Amaru durante a crise de 2001, movimento indigenista político e social que marca presença hoje em 15 províncias deste país. O Movimento Revolucionário Tupac Amaru (MRTA) do Peru, foi principal força de resistência à ditadura fujimorista durante a década de 1990 até 2000, marcando história com o episódio dos reféns da embaixada japonesa em 1996-1997. Nem mesmo nos EUA, a sede do maior império na história humana, pode se safar desse legado. Um de seus principais artistas durante a década de 1990, Tupac Amaru Shakur, premiado e reconhecido com milhões de discos vendidos, levava o nome desse destacado herói.


Tornaram-se realidade as palavras de Tupac Catari a seus verdugos na hora de sua morte:


“Hoje me matam... mas amanhã voltarei, e serei milhões!”


Por mais que os impérios tentem ontem e hoje, das maneiras mais bárbaras e cruéis, submeter um povo à escravidão, servidão e exploração sem limites; por mais que nos calem, torturem, e assassinem; a justiça e a verdade histórica são nossas companheiras de luta; nosso futuro é a revolução.


Julia Pereira