Arde Bahrein!

O Bahrein é uma monarquia absolutista insular que tornou-se uma peça-chave para os Estados Unidos contra o Irã: trata-se da sede da V Frota de sua Marinha de Guerra. A submissão exigida é praticamente incondicional. A monarquia apóia um ataque dos Estados Unidos ao Irã com o mesmo empenho de Israel.

Desde o final de 2010, as massas populares dos países árabes no Oriente Médio e no norte da África levantaram-se contra as ditaduras imperialistas existentes nesta região do mundo. O que começara como reivindicações, na Argélia e na Tunísia, por melhores condições sociais em regimes que seguiam à risca os ditames do Consenso de Washington logo abarcaria mais Estados, como Egito, Iêmen e Bahrein, levando às ruas diversos setores da população. Este último caso, o do Bahrein, não teve uma cobertura tão expressiva quanto outros, sendo interessante ressaltá-lo no quadro geral das revoltas.

Um dos motivos pelos quais a imprensa capitalista não dispensou tanta atenção às manifestações no país foi sua coincidência temporal com as revoltas na Líbia. Mais interessados em promover a imagem da oposição neoliberal que levanta a bandeira da monarquia pró-imperialista do rei Idris, derrubada em 1969 por Gaddafi, os grandes meios de comunicação ignoram deliberadamente as contestações ao pequeno reino rico em petróleo estrategicamente localizado no Golfo Pérsico.

Mapa.jpgO Bahrein é uma monarquia absolutista insular na qual, apesar de a maioria da população ser xiita, a família reinante, Al Khalifa, é sunita. A discriminação imposta contra a religião não-oficial alcança diversas esferas: os xiitas não podem ingressar a postos públicos, nem ao Exército, e a eles são relegadas as piores habitações do país. O governo, para compensar a composição demográfica, prefere atrair estrangeiros, oferecendo moradia e emprego, e conceder-lhes a cidadania bareinita. O desrespeito aos direitos humanos é cotidiano: além de os protestos estarem sendo duramente reprimidos – com execuções sumárias e prisões arbitrárias –, existem, pelo menos, 400 presos de consciência nos cárceres locais, onde a tortura é uma prática rotineira.

As contradições são abismais. Contrastando com as muitas famílias em situação de extrema pobreza nos subúrbios e em pequenos vilarejos, vêem-se enormes shopping centers e imponentes centros financeiros para os investidores árabes, estadunidenses e europeus. Os recursos do petróleo e gás natural são destinados a setores como desenvolvimento imobiliário e especulação financeira, com elevados custos sociais e ecológicos. Para a construção de obras monumentais, como o World Trade Center e o Porto Financeiro, o país tem, cada vez mais, aterrado o mar. Chega-se a dizer que o Bahrein é uma ilha sem praias, uma vez que o processo tem devastado o ecossistema marítimo e surte um efeito devastador sobre as comunidades locais que dependem da pesca para a sobrevivência.

O rei Hamad é um tirano corrupto que estabelece, desde 1999, um governo completamente submisso ao imperialismo estadunidense. Chegou ao poder como emir anunciando reformas políticas e sociais e, três anos depois, “auto-proclamou”-se rei. O objetivo de tais reformas era aproximar-se politicamente dos líderes religiosos e das principais oligarquias do país. Para tal, promoveu uma constituição e estabeleceu um parlamento com poucos poderes. A proposta, entretanto, tinha claras limitações: a Câmara Alta seria designada a dedo pela dinastia reinante e a Câmara Baixa seria eleita por voto popular. E, mesmo assim, as eleições de 2006 foram fraudadas: apesar de constituírem 70% da população, os xiitas só conseguiram eleger 18 representantes nas 40 cadeiras parlamentares.

Os Estados Unidos, por sua vez, acompanham de perto a política do pequeno reinado. A própria secretária de Estado, Hillary Clinton, declarou que o Bahrein é, há muito tempo, um amigo e aliado. Isso porque, além do petróleo, encontra-se a poucas milhas de outros parceiros estratégicos, a Arábia Saudita e o Kuwait. E, aqui, o xiismo deve ser destacado como um elemento relevante: professado pela maioria do país, conta com muitos adeptos nos dois outros mencionados (em torno de 20% na Arábia Saudita, que vivem justamente na região rica em petróleo, e 30% no Kuwait). É, do mesmo modo, a religião oficial da Revolução Islâmica do Irã e, por isso, os xiitas no Bahrein, que mesclam habitualmente suas reivindicações políticas com a questão religiosa – embora, nestas revoltas, isso não tenha sido tão recorrente –, são tidos como uma “quinta coluna” iraniana.

O Bahrein tornou-se uma peça-chave para os Estados Unidos contra o Irã: trata-se da sede da V Frota de sua Marinha de Guerra. A submissão exigida é praticamente incondicional, tendo sido o primeiro Estado árabe a enviar um embaixador para o Iraque após a invasão estadunidense e o único na região a manter um tratado de livre comércio com a potência. A monarquia apóia um ataque dos Estados Unidos ao Irã com o mesmo empenho de Israel, embora não tão publicamente; e, numa reunião com o general David Petraeus, o rei Hamad revelou a disposição em fortalecer a coordenação do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC) e estreitar suas relações com organizações internacionais, mais especificamente a OTAN, confirmando ainda que aceitaria a solicitação da Base Aérea Isa para missões do Sistema Aéreo de Alerta e Controle (AWACS), segundo o site Wikileaks.

As revoltas que têm mobilizado os habitantes para a Praça da Pérola na capital, Manama, são motivadas pelas mais distintas razões, dada a variada composição de classe dos protestos. Entre as demandas, estão a destituição do tio de Hamad, o xeique Khalifa Bin Salman Al-Khalifa, do cargo de primeiro-ministro (grande proprietário de terras, Khalifa simboliza todos os privilégios da família real); uma constituição, redigida por um corpo de delegados eleitos, que ponha fim à questionável “lei antiterrorista”, a qual se vale de um conceito extenso e vago de “terrorismo” para justificar a repressão extrema no país; a libertação de todos os presos políticos, entre os quais se destaca o Grupo dos 23, o último a ser encarcerado pelo regime, entre agosto e setembro do ano passado, composto somente por xiitas; e uma distribuição mais justa da riqueza social, uma vez que mais de 50 mil famílias estão na lista de espera por moradias, algumas há mais de vinte anos em habitações com péssimas condições sanitárias.

A administração Obama tem adotado uma mesma tática para todas as revoltas que envolvem seus parceiros: apoiá-las formalmente, solicitando “moderação”, de modo que, na eventualidade de sua radicalização pelas classes exploradas, a grande potência possa mover poucas figuras do poder para manter as oligarquias de seu interesse. Para os chefes de Estado locais, promete apoio até quando possível e, no caso de serem destituídos, uma vida impune no estrangeiro. O problema, neste caso, é a ausência de quadros políticos alternativos a serem projetados num país governado, desde 1783, pela monarquia familiar dos Al-Khalifa. A Arábia Saudita, por sua vez, também se encontra numa difícil situação neste caso específico: embora seja diretamente afetada, açular a repressão ou invadir o país – há uma ponte que liga os dois Estados, com uma clara função militar, que começou a ser construída dois anos depois da Revolução Islâmica – implicaria despertar a fúria dos xiitas internamente. Junto com os Emirados Árabes Unidos, o país é acusado de ter auxiliado na repressão contra os manifestantes, fato que não admitiu formalmente e que preocupa os revolucionários por representar a possibilidade de uma força agressora não-declarada. Até o momento, depois de um mês de protestos, a monarquia bareinita intensificou a repressão e chegou a decretar estado de emergência nacional por três meses. Ao mesmo tempo em que “fecham os olhos” para o massacre, Estados Unidos e Arábia Saudita incentivam o rei Hamad a fazer concessões modestas, ainda que insuficientes para os xiitas, com o objetivo de dividir os manifestantes. Estes têm radicalizado cada vez mais suas posições e põem em xeque um dos principais aliados do imperialismo no Golfo Pérsico.

Diante deste cenário, o silêncio da grande imprensa é bem compreensível.

Vinicius C.