PALESTINA

Nesta edição e nas próximas, o Jornal Inverta fará um histórico do século XIX até o momento da Nakba em 1948. Leia.

Al Nakba, 62

 

Em 15 de maio, a Nakba (palavra árabe para “catástrofe” que designa a criação do Estado de Israel) completou seu 62º aniversário. Neste dia, dirigentes do Hamas e do Fatah marcharam juntos pela primeira vez desde 2007 num ato organizado pela Jihad Islâmica. A rara união destes grupos mostra a importância da data para o povo árabe palestino, sendo seu resgate histórico fundamental. Nesta edição e nas próximas, o Jornal Inverta fará um histórico do século XIX até o momento da Nakba em 1948.

 

Século XIX

 

No século XIX, o paxá Mohammed Ali consolidaria seu poder no Egito e, posteriormente, dominaria a Síria do Império Turco-Otomano. Sua intenção seria prosseguir para o norte até chegar à cidade turca de Adana, atraindo assim a atenção das potências européias, particularmente a Inglaterra. Em plena revolução industrial, o país queria impedir que um novo concorrente, não submetido ao pensamento liberal, fechasse a região à penetração europeia. Neste momento, concebe-se um projeto estratégico que impusesse uma barreira geográfica e humana entre o Egito e sua área de expansão asiática: uma “restauração dos judeus”. Em 24 de janeiro de 1839, o Times pronuncia-se a favor do “direito do povo judeu a entrar em sua herança, a Palestina” e, uma semana depois, o diplomata John Bidwell envia a William Young, vice-cônsul em Jerusalém, uma nota para dar-lhe a saber que uma parte de sua tarefa seria conceder proteção a todos os judeus. O primeiro-ministro Palmerston, desejando expandir sua presença a uma parte do Império Otomano e impedir a avidez do paxá egípcio, abraça a causa de criar um “reino judeu” na Palestina. Divulgou-se, assim, que existia entre os judeus dispersos pela Europa um desejo de retorno à “sua” terra e o governo inglês patrocinaria oficialmente este projeto.

Na Palestina, houve muitas revoltas contra a dominação egípcia (1831-1840): o filho de Ali, Ibrahim Pasha, gerou um grande descontentamento ao aumentar os impostos e elevar o recrutamento militar. As potências europeias intervieram militarmente na região em 1840 e fizeram Mohammed Ali retroceder, tendo sido restaurado o domínio otomano na Síria. Os ingleses abandonariam rapidamente o projeto do reino judeu (já que seus interesses já estavam garantidos) e, curiosamente, não repercutiria muito entre a comunidade judaica. As revoltas duramente reprimidas contra a anexação otomana de Nablus e Beirute em 1858 serviram de inspiração aos árabes palestinos, dois anos depois, em seus enfrentamentos contra os imperialismos francês e inglês que se juntariam com cristãos ortodoxos, druzos e judeus da região.

Em 1860, o judeu Moses Hess escreveria Roma e Jerusalém, livro considerado precursor do sionismo, segundo o qual os judeus constituíam uma nação – o que não era ainda um senso comum – que só seria capaz de se renovar na Palestina com uma economia baseada na agricultura, indústria e comércio. Em 1882, Leo Pinker escreveria Autodeterminação, que defendia que a Revolução Francesa foi incapaz de acabar com o antissemitismo e este seria extirpável apenas se o povo judeu estivesse unido. A propagação dos pogroms a partir dos anos 1880 e o caso Dreyfus levariam o jornalista austríaco Theodor Herzl a teorizar um nacionalismo étnico que se realizaria na forma de um colonialismo além-mar, o sionismo. Ele escreveria seu livro O Estado judeu em 1895 e, dois anos depois, organizou o primeiro congresso sionista na Basiléia. Para Herzl, o antissemitismo era crescente e irreversível, portanto, a necessidade de um Estado judeu era urgente. Uganda, Venezuela e Palestina foram os lugares cogitados para a construção deste novo Estado que, como percebia Herzl, só seria possível com o apoio de alguma potência. O movimento inicialmente se pretendia laico e político, mas logo as facções extremamente religiosas entrariam no debate e reforçariam a necessidade de ocupação da Palestina.

O sionismo seria dividido em diversas vertentes nos anos seguintes, desde uma mais a esquerda, formulada por Syrkin e Borojov, que defendia a criação de um Estado judeu socialista, até uma de extrema direita ultranacionalista, proposta por Jabotinsky, que defendia que o sionismo só poderia negociar com os árabes palestinos depois de construída uma muralha de ferro. Cabe recordar, porém, que a maior parte dos judeus, no final do século XIX, vivia em pequenos vilarejos em condições muito precárias, identificando-se muito mais com o movimento revolucionário operário do que propriamente com o projeto sionista.

Na Europa, o mito “uma terra sem povo para um povo sem terra” perduraria até os primeiros anos do século XX para atrair os judeus à Palestina. Muitos dos que acreditaram nesta propaganda e seguiram para a região se surpreenderam ao constatar que a região já era habitada. Os postulados da ocupação eram a conquista da terra (comprar terras de proprietários que viviam em Damasco para dominação das regiões produtoras) e a conquista do trabalho (não empregar mão-de-obra árabe). No final do século, a Palestina tinha uma população de 500 mil habitantes, dos quais 360 mil eram árabes, 60.000 cristãos, 20.000 judeus, 10.000 europeus e 50.000 soldados otomanos. Mesmo que seja difícil confiar nos métodos estatísticos da época, a região viveu um crescimento populacional significativo devido à imigração judaica, não obstante a péssima saúde pública e as condições precárias de vida. Houve um primeiro processo de chegada entre 1885 e 1904 e, entre 1905 e 1914, a população judaica praticamente dobrara com o aporte de 35-40 mil pessoas (ainda que com uma taxa de retorno à terra de origem, o Leste Europeu, de 30%). Segundo o livro Por uma história profana da Palestina de Lotfallah Soliman, em 1914, cerca de dois milhões e meio de judeus deixaram a Europa Ocidental; em 1914, havia 85 mil judeus na Palestina, um acréscimo de 61 mil em relação ao ano de 1882. A população total da região neste ano era de 600 mil pessoas.

Quando o Império Otomano entrou na Primeira Guerra Mundial em dezembro de 1914 ao lado da Tríplice Aliança, inicia-se o recrutamento militar da população na Palestina. Este não seria, entretanto, o problema principal da região, mas o trabalho escravo que se intensificou de forma significativa. Com o recebimento de um grande contingente de soldados, principalmente turcos e ingleses, houve o esgotamento de recursos básicos e consequentemente o alastramento da fome. Além disso, Ahmed Djemal Pasha, um dos fundadores do movimento Jovens Turcos, foi designado Comandante em chefe do esforço de guerra no Oriente Médio e, depois de sua derrota no ataque ao Canal de Suez, concentrou seus esforços na administração da Síria, onde se destacaria como um líder repressor, perseguindo até círculos literários por medo do nacionalismo árabe.

 

Primeira Guerra Mundial

 

 

Entre as potências imperialistas, ocorreram intensas negociações coloniais, determinantes para o futuro da região, o qual interessava particularmente à Inglaterra, uma vez que o império dominava, desde 1882, as margens do Canal de Suez no Egito. Apesar da Convenção de Constantinopla de 1888, que estabelecia a neutralidade do canal mesmo em tempos de guerra, os britânicos sabiam que seu sistema estratégico estaria salvaguardado, ainda mais pela potência ter transformado o Oceano Índico em seu “lago particular” com suas conquistas no século anterior. A  Inglaterra pretendia, assim, defender o Egito de quaisquer ambições, de onde quer que viessem. Três investidas diplomáticas do Império Britânico destacam-se, neste contexto: a correspondência entre McMahon e Husayn entre 1915 e 1916, o Acordo Sykes-Picot de 1916 e a Declaração Balfour de 1917.

Quanto às cartas trocadas entre sir Henry McMahon, comissário britânico no Egito, e Husayn, o xerife de Meca, cabe colocar que os hachemitas compunham uma família de notáveis, cuja influência vinha do fato de serem os guardiões de Meca e Medina, e mantinham estreitas relações com o sultão otomano Abdul Hamid, deposto pela revolução dos Jovens Turcos em 1908. Por deporem Hamid e assumirem o poder do Império Turco-Otomano, os Jovens Turcos ganham poderosos inimigos locais, os quais rapidamente estariam envolvidos em negociações com a Inglaterra. McMahon prometia aos hachemitas o estabelecimento de um reino árabe na Palestina e, em troca, o xerife deveria se comprometer a organizar uma revolta árabe (que ocorreu efetivamente em 1916). Os ingleses desejavam também que as regiões costeiras da Península Arábica ficassem sob sua supervisão.

No que diz respeito ao acordo entre o inglês Mark Sikes e o francês Georges Picot, deve-se ressaltar que, em 1912, quando a guerra já aparecia no horizonte, França e Inglaterra puseram-se a discutir sobre a Palestina, com o objetivo de estabelecer uma nova configuração política no Oriente Médio. Os ingleses desejavam uma zona-tampão de proteção ao Canal de Suez e os franceses já dominavam a Argélia, a Tunísia e o Marrocos, além de exercerem forte influência no Líbano. Traçou-se, assim, um mapa em que o Líbano estaria sob controle direto da França e grande parte da Síria estaria sob sua influência indireta, enquanto que o Iraque seria diretamente dominado pela Inglaterra e a Transjordânia ficaria sob sua influência. Como nenhuma das duas potências estava disposta a abrir mão da Palestina, resolveu-se por colocá-la sob administração internacional. A Rússia czarista participaria também das negociações, desejando um acesso a mares quentes (o mar Mediterrâneo), já que só o tinha para mares gelados, mas não compunha o acordo secreto entre franceses e ingleses. No momento em que eclodiu a revolução bolchevique, sua cópia do acordo foi revelada publicamente e os árabes sentiram-se ludibriados. Até mesmo Lawrence da Arábia pôs-se a favor dos grupos locais, tentando arranjar-lhes uma parte do território francês, mas fracassaria na tentativa. Em 1918, depois de já revelada a sua traição à correspondência com os hachemitas, o Império Britânico, que ocupava praticamente toda a região, permitiu que os franceses tomassem o Líbano e, em 1920, Damasco, governada pelo príncipe Faiçal. A família hachemita, que realmente buscava a criação de um estado árabe, ainda aguardaria uma compensação pelo não-cumprimento da promessa.

No dia 02 de novembro de 1917, a Declaração Balfour seria de grande importância para o avanço do sionismo, selando a traição inglesa não somente com os árabes hachemitas, como também com os próprios franceses. O secretário britânico para assuntos estrangeiros Arthur Balfour escreveria uma carta para o Lord Rothschild que declarava o apoio inglês à criação de um lar nacional judeu na Palestina, desde que o projeto não prejudicasse a população local. De fato, o império inglês enfrentava uma forte resistência na região e queria programar uma dominação total, propondo desde então uma aliança a uma possível população futura. Além do mais, a Inglaterra percebia a força do partido bolchevique entre a classe trabalhadora russa – não por acaso a carta antecedeu em cinco dias a própria revolução socialista russa –, desejando fortalecer a parte sionista dos judeus em detrimento da ligada ao movimento operário. As reações árabes à Declaração foram muito mais intelectuais do que propriamente combativas e ocorreriam um mês após de seu anúncio. Apesar do alto grau de consciência de uma intelectualidade palestina bem ativa, suas lideranças não sabiam contra quem deveriam se contrapor: aos ingleses ou aos sionistas.

A Conferência de San Remo, realizada em abril de 1920 pelas potências imperialistas vitoriosas, operou uma divisão dos despojos do Império Otomano: a Inglaterra receberia o mandato da Palestina e do Iraque e a França da Síria e do Líbano. Em 1922, a Liga das Nações reconheceria formalmente o domínio britânico sobre a região. Durante este mandato, que duraria até 1948, houve um crescimento considerável da população judaica: de 8,5% passariam a ser 33% do total, algo visto muito negativamente pelos árabes palestinos. Entre 1919 e 1923, mais 35 mil vieram do Leste Europeu. Cabe ressaltar que grande parte destes imigrantes seguia também para os Estados Unidos, mas isso se reverteu com a crise econômica de 1929. Nos anos 1930, os fluxos se intensificaram devido ao nazismo e, em 1947, a população já era de dois milhões de pessoas, sendo 630 mil judeus e 1,3 milhão árabes.


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