40 anos sem o companheiro Virgílio

No dia 28 de setembro de 2009, foi realizado no Sindicato dos Químicos da cidade de São Paulo, o Ato em homenagem a Virgílio Gomes da Silva, assassinado sob torturas nas dependências do sinistro DOI-CODI, localizado na RuaTutóia.

Virgílio foi assassinado do modo mais brutal que se possa imaginar. Seu corpo foi totalmente destruído. O laudo de sua morte, melhor dizendo de seu assassinato, atesta que seus ossos estavam todos quebrados, seus órgãos vitais destruídos com e exceção do coração.

A história de Virgílio é semelhante à quase todos os nordestinos, que buscam melhores condições de vida nos grandes centros urbanos da região sul do país. Logo após imigrar para São Paulo, Virgílio foi trabalhar na Empresa Nitro Química, que, na época, era a principal indústria de São Miguel, na década de 50.

Ativista sindical de destaque dentro da Nitro Química, Virgílio passou a militar no PCB (Partido Comunista Brasileiro), no começo da década de 60.

Com o Golpe de Estado de 1964,  em consequência de sua militância, Virgílio, que foi terrivelmente perseguido, foi obrigado a ir para a clandestinidade, quando adotou o codinome Jonas. Foi aí que, acompanhando Carlos Marigella, Virgílio foi para a ALN  (Ação Libertadora Nacional).

 Segundo depoimentos de companheiros publicados, agora, no Boletim do Sindicato, distribuído no dia do Ato, Virgílio foi um, homem diferenciado, não só pela extrema coragem em enfrentar o regime nazimilitarista, mas pela profunda sensibilidade humana ; cultivava orquídeas, alimentava os pássaros e era de uma solidariedade ímpar para com seus companheiros dentro da organização.

Como militante da ALN, Virgílio participou de várias ações contra a ditadura militar. Foi Virgílio quem comandou o sequestro do embaixador norte-americano, Charles Burke Elbrick, quando 15 presos políticos foram trocados pela vida do representante da principal potência imperialista, responsável pelo Golpe Militar de 1964, que derrubou o presidente legalmente constituído, João Goulart, instalando um regime terror.

Além da libertação de 15 presos políticos (entre eles o líder camponês de verdade, Gregório Bezerra), uma outra exigência da ação conjunta das organizações revolucionárias ALN/MR8, foi a leitura em cadeia de Rádio e Televisão de um manifesto denunciando o regime militar.

O sequestro do embaixador norte-americano foi a ação mais ousada, que sacudiu a ditadura militar e teve repercussão mundial. A partir daí, o regime instalado pelo Terrorismo de Estado, deu início a uma verdadeira caçada aos opositores do regime. E duas figuras importantes da luta contra a ditadura. Virgílio Gomes da Silva e Joaquim Câmara Ferreira foram presos e torturados até a morte.

A história de Virgílio, primeiro preso político desaparecido, se confunde com a história das lutas do povo brasileiro contra a miséria e a opressão. Foi no Sindicato dos Químicos, atuando como ativista sindical, que Virgílio adquiriu consciência política e passou a conhecer as ideias do Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Em seu Manifesto, de apresentação do Ato pelo resgate da Memória de Virgílio Gomes da Silva, o Sindicato dos Químicos dos Químicos de São Paulo afirma:

“Assim como não nos destruíram e, por isso, nós do Sindicato, nos juntamos ao Grupo Tortura Nunca Nunca Mais, à família e à Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, para exigir do Estado o reconhecimento das atrocidades que fizeram com você.”

No dia seguinte, 29 de setembro, representantes do Grupo Tortura Nunca Mais/SP da OAB, do Fórum dos Ex-Presos Políticos do Estado de São Paulo, do Grupo Tortura Nunca Mais/RJ, da Associação dos Anistiados Políticos, Aposentados, Pensionistas e Idosos do Estado de São Paulo (ANAPI), Observatório das Violências Policiais/SP, Tribunal Popular/SP, o Estado Brasileiro no Banco dos Réus, dirigentes sindicais e de várias entidades defensoras de direitos humanos, familiares de mortos e desaparecidos, durante a ditadura militar, protocolaram uma ação para exigir do Ministério Público Federal que o Estado devolva os restos mortais e seja responsabilizado por isso.

Todos os presentes ao Ato manifestaram sua esperança de que o resgate da Memória de Virgílio e o reconhecimento do Estado por sua morte nas dependências do famigerado DOI-CODI possam contribuir para abertura dos arquivos secretos das forças armadas e a punição dos torturadores e assassinos do Terrorismo de Estado.

E depois de 40 anos, sua esposa Ilda e seus filhos Vladimir, Gregório, Virgílio e Isabel ainda mantêm as esperanças de realizar uma cerimônia fúnebre e colocar em seu túmulo uma flor bem bonita.


Delson Plácido