O lucro dos bancos

A crise financeira abriu assunto na ordem do dia. É alvo de variados comentários da parte de leigos, governantes, economistas e consortes. Levantam-se diagnósticos, prognósticos sobre sua duração, efeitos, malefícios e oportunidades. Em especial os especuladores são os mais atentos a qualquer notícia e movimento. Podem ganhar ou perder milhões até em questão de horas por causa de qualquer novidade e sem o mínimo esforço. E a geração de emprego para acudir o desespero de milhões de viventes depende do desdobrar dessa crise. Todavia, esse redemoinho começou a partir de algum lugar. Surgiu dos bancos. Deles rompeu-se o delicado elo existente entre a economia real e a fictícia economia financeira. Alastrou, então, uma verdadeira peste que não deixou ninguém em pé, mais doentes ou menos, mas, todos vitimados. Sem exceção. E, mesmo assim, os bancos foram os primeiros a serem socorridos com o maior desvelo. Eram os mais ilustres dos enfermos. Mas como eles chegaram a este grau de importância? Quem transita em frente a uma agência bancária não consegue imaginar como tão trivial construção de quatro paredes, donde não sai um pão, nem agulha ou botão, pode encerrar tamanho poder. O presente escrito investiga em primeiras mal traçadas linhas esse “misterioso” poderio a desafiar a compreensão e intrigar o pensamento.

O lucro dos bancos

Primeira parte

 

A crise financeira abriu assunto na ordem do dia. É alvo de variados comentários da parte de leigos, governantes, economistas e consortes. Levantam-se diagnósticos, prognósticos sobre sua duração, efeitos, malefícios e oportunidades. Em especial os especuladores são os mais atentos a qualquer notícia e movimento. Podem ganhar ou perder milhões até em questão de horas por causa de qualquer novidade e sem o mínimo esforço. E a geração de emprego para acudir o desespero de milhões de viventes depende do desdobrar dessa crise. Todavia, esse redemoinho começou a partir de algum lugar. Surgiu dos bancos. Deles rompeu-se o delicado elo existente entre a economia real e a fictícia economia financeira. Alastrou, então, uma verdadeira peste que não deixou ninguém em pé, mais doentes ou menos, mas, todos vitimados. Sem exceção. E, mesmo assim, os bancos foram os primeiros a serem socorridos com o maior desvelo. Eram os mais ilustres dos enfermos. Mas como eles chegaram a este grau de importância? Quem transita em frente a uma agência bancária não consegue imaginar como tão trivial construção de quatro paredes, donde não sai um pão, nem agulha ou botão, pode encerrar tamanho poder. O presente escrito investiga em primeiras mal traçadas linhas esse “misterioso” poderio a desafiar a compreensão e intrigar o pensamento.

O primeiro ponto a saber é como surgiram os bancos modernos com os quais nos habituamos a lidar, comparecendo em carne e osso numa agência ou consultando e operando virtualmente a conta corrente mediante pulsos eletrônicos. Saber de onde apareceu o dinheiro neles depositado. Resgatar este passado demonstra o que eles são hoje, como funcionam, qual sua finalidade e qual o papel que ainda o futuro lhes reserva. Apesar deste salto ao passado, não ultrapassa um estalo de dedos, diante do pouco tempo do aparecimento da humanidade.

Os bancos surgiram com o desenvolvimento do comércio, em fins da Idade Média, no século XVI, na Europa. Por essa época, o comércio recebia crescente atenção. A produção de subsistência havia sido superada. Havia mais comida do que o necessário ao consumo. Como conservar os gêneros perecíveis, notadamente os alimentos? Esta necessidade faz descobrir na Europa as especiarias. Surgem o sal e o açúcar, além de outros produtos que passaram a ser altamente procurados e pagos a peso de ouro. Os comerciantes cresceram os olhos em cima deles diante das possibilidades de enriquecer. E o que era simples produto do trabalho social, motivo de curiosidade, por sua extraordinária utilidade, tornava-se mercadoria. Algo para ser vendido e com elevado lucro.  Quem possuía essas coisas? Eram os povos do Oriente Médio e, depois, as Américas. Ampliou-se a massa e a variedade de mercadorias a serem transacionadas em mercado, trazendo produtos exóticos, antes desconhecidos. Enquanto isso acontecia, foi todo um processo de descoberta, a agricultura ainda expressava a forma principal da sustentação econômica européia, no entanto, pouco enriquecimento proporcionava. Era instável, sujeita aos humores do clima, das pragas e das guerras. Ainda por cima, tremendamente afanosa. As técnicas de cultivo eram ainda rudimentares e de pouca produtividade, embora já produzissem excedente apreciável. As ferramentas eram ainda manuais, a força motriz provinha da tração animal, de moinhos de vento ou hidráulicos, utilizados para fazer farinha e produzir ferramentas e peças metálicas ainda de jeito artesanal. Nesse enredo, a terra personificava a principal fonte de sobrevivência social. Ela era a riqueza primordial. Rico era quem possuía terras. Foi nesse contexto de apatia e lentidão que o comércio passou aos poucos a se desenvolver e projetar novas expectativas à sociedade. Facultava enriquecimento alternativo mais rápido. O fluxo de mercadorias recebeu forte estímulo para crescer e incitou insólita disposição de ganho nesse novo horizonte.

A expansão comercial dependia dessa propensão à ganância de parte dos empreendedores comerciantes, representando forma rentável e segura de movimentação de riquezas. Buscar novas mercadorias, com diferentes utilidades e assim despertar novas necessidades nas pessoas, para serem vendidas com espetacular lucro, invadiria o ânimo de comerciantes ambiciosos. E, por causa desta paixão, a humanidade se propôs a descobrir novas e melhores técnicas de navegação que permitissem cruzar oceanos em segurança, de longínquos pontos do globo terrestre, e assim transportar mais mercadorias do que em qualquer época já vivenciada. Por isso, as especiarias1 foram mercadorias tão cobiçadas. Antes desse comércio mais intenso e lucrativo, a navegação era meramente costeira e ainda dependente do vento favorável. Era necessário superar esta barreira natural. E conseguiram esse intento ao descobrirem uma pequena vela triangular denominada bujarrona que permitiu aos navios atravessarem os oceanos independente dos ventos. Foi a primeira “invenção” tecnológica propriamente dita. O afã de enriquecer impulsionou tais descobertas técnicas e científicas e muitas outras mais. Por trás de todo esse esforço, havia a lógica do enriquecimento. E era bem simples. O importante era comprar o mais barato para vender com a maior diferença alcançável. E quanto mais mercadorias, melhor. Assim é o lucro do capital comercial.

As Américas foram descobertas dentro desta perspectiva de avidez comercial, reforçada caso houvesse a possibilidade de descoberta de ouro. O ouro era o símbolo ideal para medir o trabalho social dos valores produzidos, através de uma pequena quantidade facilmente transportável. Ninguém correria o perigo dos mares e lugares desconhecidos, apenas pelo espírito da aventura. Algo havia por trás da bravura e do pioneirismo de exímios navegadores e colonizadores para excitar-lhes a aventura: cobiça.

Este comércio em larga escala colocou na Europa quantidade nunca vista de mercadorias. Ao serem vendidas com alto lucro, convertiam-se em grossa quantia de ouro, a forma de dinheiro mais apreciável pelos homens. E a América estava cheia de ouro e também de novas mercadorias. Juntavam-se a fome e a vontade de comer. Essa soma extraordinária regressava às mãos dos comerciantes que se tornaram, alguns deles, os mais bem sucedidos e poderosos, grandes banqueiros. Ao invés de transacionarem com mercadorias prosaicas ou esquisitas como as especiarias, para obter lucro, baldearam-se a comerciar com a mais ambicionada das mercadorias: o dinheiro. Perceberam no comércio de dinheiro uma fonte de enriquecimento muito rentável e menos trabalhosa do que ir buscar mercadoria lá num confim de mundo para vender noutro. Então se retiraram do comércio das mercadorias comuns para emprestar aos próprios parceiros comerciantes e a quem interessasse e pudesse. E o ouro refortalecia essa cobiça, pois era a forma excelente assumida pelo dinheiro. E o lucro se transformava em ouro, a forma ideal do dinheiro. Onde depositar esse lucro com segurança, para arrancá-lo da ociosidade? Quem poderia fazer com que se multiplicasse outro tanto? Aí encaixa a figura moderna dos bancos, inclusive como local seguro para vigilância dessa riqueza extraordinária, originária do comércio. Os bancos então se tornaram as casas comerciais para comprar dinheiro de um lado e emprestá-lo de outro. Aí que conheceram extraordinário impulso através do comércio e guarda do dinheiro dos ricos. Se antes do desenvolvimento comercial, rico era quem possuía terras, depois dele, rico era quem tinha dinheiro.

Os bancos passaram a receber esta riqueza, depositada em seus cofres. Em troca, emitiam um papel bancário, denominado nota bancária, documentando nominalmente a quantia depositada em determinado valor, porém sem a identificação do depositante, resguardado em sigilo. Esta nota bancária funcionaria como precursora do dinheiro de papel, o papel moeda atual. Como os depositantes ricos não regressavam ao banco juntos todos os dias, para verificar se suas posses ainda lá se encontravam, os valores monetários lá adormecidos poderiam ser cedidos para crédito a quem pudesse pagar certo preço por eles. Era o juro. Facilmente os banqueiros notaram mais essa brecha na ociosidade do ouro depositado e decidiram não desperdiçar a chance de emprestar. Os demais concorrentes poderiam ter a mesma feliz ideia. Então se impulsionou o moderno negócio bancário como ainda hoje é basicamente feito. Os bancos se posicionaram cristalinamente como intermediários dos grandes e pequenos negócios. Do financiar siderúrgica, avião ou navio, a liquidificador, geladeira ou máquina de lavar. Poderia ser algum rico, utilizando como alavanca o dinheiro cochilando na contabilidade bancária, ou algum pobre, despossuído de dinheiro no momento, todavia precisado de dada mercadoria.  

Em fins da Idade Média, os bancos já operavam cobrando uma determinada taxa para emprestar parte do dinheiro ocioso que havia depositado em seus cofres. Hoje, meio milênio transcorrido, a lógica de atuação é semelhante, seja no Brasil ou em qualquer parte do mundo. Os bancos emprestam a quantia depositada, porém não utilizada na circulação de mercadorias. É o hoje chamado saldo médio, sobrante de um mês para o outro, que faz cócegas na imaginação do banqueiro e seus diletos administradores. Para isso cobram certa taxa de juro. E qual seria o preço dela? A taxa de juro do emprestador depende do quanto de lucro o tomador pode retirar de seu empreendimento. Quanto maior esse lucro para o empresário capitalista tomador, maior poderia ser a taxa de juro para o banqueiro emprestador. E o rendimento de um bom negócio é algo bastante difícil de se esconder aos olhos do banqueiro. Cedo ou tarde ele descobre a rentabilidade do negócio de seus tomadores. Quanto maior o lucro do tomador em seu empreendimento, maior o juro do emprestador. Não se deve esquecer que um grande banqueiro já foi um grande comerciante. Que ele quer saber timtim por timtim qual a atividade para onde seu dinheiro será invertido. Para valer a pena o negócio de emprestar dinheiro aos outros, este teria de oferecer remuneração que na sua totalidade fosse em média e no mínimo semelhante ou superior ao rendimento obtido no comércio das demais mercadorias. O ideal é ser superior. Aí sim, o negócio bancário superaria os demais e personificaria o toque de Midas. Tudo o que tocasse viraria ouro, quer dizer, lucro, lucro e mais lucro. De todas as partes, de todos os bolsos, magros e gordos, de todas as atividades de aplicação, do vendedor de cachorro quente ao armador de navios. Aceleraria os empreendimentos, indústria antes de mais nada a mãe de tudo, o que para o capitalismo seria uma bênção dos céus.

E o que consiste a taxa de juros? Atualmente modificaram os componentes dessa taxa, da diferença entre a captação do dinheiro, pelos bancos, e sua aplicação, pelos tomadores. Naquele passado distante, estes componentes seguramente figurariam bem mais simples. Deveria ser uma pequena margem de ganho para o proprietário do dinheiro, o depositante, adicionado a uma margem de ganho superior para o intermediário, o banco, suficiente para pagar suas despesas operacionais e proporcionar esse lucro superior dado o “risco” incorrido, quando oferecesse esse dinheiro aos tomadores do outro lado do balcão. 

Na atualidade, estas condições básicas permanecem tal como eram, depositantes de um lado e tomadores de outro, entretanto fatores adicionais, que antigamente inexistiam, vieram se agregar.

No próximo artigo, destrincharemos. Iremos conferir os constituintes da taxa bancária atual, o que se apelidou de “spread”, ou margem bruta de ganho, expressa pela margem que o banco consegue ao pagar para captar dinheiro numa ponta e receber para emprestar na outra.


José da Silveira Filho

Economista

 

1 - Sal, açúcar, pimenta, nós-moscada, açafrão, canela, cravo, gengibre eram as principais especiarias utilizadas principalmente como tempero. Isso modificou o cotidiano familiar. Comer uma comida sem sal e açúcar é uma coisa. Comer com isso é bem diferente.