Entrevista com Aluisio Bevilaqua

Entrevista com Aluisio Bevilaqua, autor de “Alterações Climáticas e a Globalização Neoliberal”, lançado recentemente em Fortaleza, que é uma abordagem marxista sobre a questão ambiental, relacionando-a com o estágio atual do desenvolvimento do modo de produção capitalista e sua crise estrutural que se manifesta nas esferas da economia, política e da ética, e que se aprofunda como crise ambiental levando uma ameaça profunda, quase que inevitável, à vida no planeta.

Entrevista com Aluisio Bevilaqua

 

Entrevista com o editor de INVERTA Aluisio Bevilaqua, autor do livro “Alterações Climáticas e a Globalização Neoliberal”, lançado recentemente, que é uma abordagem marxista sobre a questão ambiental, relacionando-a com o estágio atual do desenvolvimento do modo de produção capitalista e sua crise estrutural que se manifesta nas esferas da economia, política e da ética, e que se aprofunda como crise ambiental levando uma ameaça profunda, quase que inevitável, à vida no planeta.

IN – Muitas das discussões em torno do meio ambiente são focadas apenas nas catástrofes causadas ou relacionadas às alterações climáticas, excluindo ou tratando muito superficialmente a relação existente entre estes fenômenos e o modo de produção predominante na terra, o capitalista. Como você aborda isso em seu ensaio?
AB –
Esta edição surgiu por motivação de amigos, companheiros e camaradas radicados em Fortaleza-CE, que se reuniram e organizaram esta publicação, que responde a essa hipótese surgida com o acúmulo de trabalhos em torno das transformações ocorridas no capitalismo nas últimas quatro décadas e no início do século, considerando os motivos principais que fizeram retornar essas crises do capitalismo. Toda linha de pesquisa desenvolvida a partir daí redundou numa nova hipótese teórica que está expressada nesse trabalho, levado ao Congresso de Meio Ambiente realizado pelo Parlamento Latino-americano (Parlatino), na Venezuela, em 2007. Esse é o problema principal que me conduziu a escrever o ensaio: o tratamento superficial existente nos meios de comunicação, e às vezes até nos tratamentos de diversos ensaios, que buscam descrever, estudar ou encontrar o motivo dessas alterações climáticas de uma forma muito particularizada, tematizando as questões sem relacioná-las com o mundo, com a vida, com o modo de produção, a sociedade de modo geral e as relações sociais. O tema é tratado como se houvesse apenas uma relação quase direta das mudanças climáticas por alterações devido à composição dos diversos elementos da natureza abstraindo-se as relações sociais que estão por trás das mesmas, ou tratando-as apenas a partir da idéia da grande emissão de CO2, como causa dos efeitos climáticos, sem dizer o “porquê” disso.

IN – Quais os pontos principais abordados nesse trabalho?
AB –
Ele tem como ponto principal os períodos de expansão do modo de produção social e como esta expansão vai aumentando a intervenção do homem na natureza e, conseqüentemente, as transformações que decorrem desta ação humana. Talvez o ponto principal de mudança qualitativa, como tentamos estabelecer, e parece ser um senso comum até entre os investigadores e cientistas preocupados com esse tema, seja a revolução industrial e a capacidade de globalização que os sistemas sociais tiveram a partir dela, especificamente, nesta relação entre o homem e a natureza, mudando a qualidade desta relação. O ensaio mostra que ela era uma relação quase direta de apropriação para resolver as necessidades de sobrevivência, como a alimentação, vestuário, calçado, moradia, etc, mas alterou-se qualitativamente porque passou a ser intermediada pela máquina, como decorrência da mudança do modo de produção social, do feudalismo para o capitalismo. A máquina torna-se esse grande intermediador e dinamizador desta relação. O modo de produção capitalista vai criando um diferencial com os outros modos de produção, porque nele chega-se ao limite do homem se apropriar da natureza com o objetivo de produzir mercadorias e essa produção, por um lado, destina-se a satisfazer algumas necessidades humanas vitais e, por outro, a outras totalmente supérfluas. Na medida que isso ocorre deixa de ser o objetivo fundamental de suprir as necessidades humanas para suprir o desejo de lucro daqueles que passam a acumular capital mediante a venda dessas mercadorias. A globalização acentuou, portanto, a ação destrutiva do homem com a natureza e, de certa forma, das condições de vida do homem de um modo geral. Essa mudança qualitativa fez com que os movimentos de globalização capitalista tivessem a capacidade de expandir essa mudança ao ponto que chegamos nos dias atuais.

IN – Como você trata a questão de que o capitalismo não somente se apropria do meio ambiente, mas também do próprio ser humano, colocando muitas vezes os pobres do mundo em contradição com a “preservação da natureza”?
AB –
Há uma interpretação vulgar na abordagem do que se traduziu hoje a crise ambiental devido à forma com que esta crise tem se manifestado através de catástrofes, como ocorreu nos tsunamis, no furacão Katrina, com o fenômeno El Niño e todos os fenômenos climáticos que demonstram as alterações bruscas no mundo atualmente, como o derretimento das calotas polares, a camada de ozônio, o efeito estufa. Esse tratamento vulgar existe na medida em que você localiza o problema simplesmente como emissão de CO2, então, para alguns torna-se mais fácil até desenvolver o movimento de preservação da natureza, e todo mundo quer preservá-la, mas essa preservação passa por cima de uma realidade que existe dentro do sistema social que produz esse desgaste da natureza com sua atividade, o capitalismo. Outra questão é que esse problema é causado não somente em relação à natureza, mas nas relações sociais dentro da sociedade, que forma uma massa de miseráveis, desempregados que precisam sobreviver, e uma concentração muito grande de capital nas mãos dos capitalistas para que esta produção continue se desenvolvendo na magnitude que se desenvolve e se apropriando da natureza na magnitude que se apropria, causando os fenômenos ambientais. E quando se faz uma interpretação vulgar de que “agora temos o problema de desertificação, então vamos preservar o verde” e ao tentar reduzir isso apenas a reproduzir o verde e esquecer o problema social que este modo de produção cria, estamos deixando de considerar o homem como parte do meio ambiente, que não é apenas árvores e animais irracionais, pois o ser humano também é produto da natureza, então o que você tem aí é uma desqualificação do ser humano perante a natureza; é mais importante preservar uma árvore do que uma vida humana. Esse tratamento que eu chamo de vulgar para o problema ambiental não considera o homem parte da natureza, ou considera apenas uma parcela da população, a parcela abastada, que vive bem dentro do modo de produção atual, como seres humanos, os outros são inumanos, são supérfluos, que para sobreviver a natureza e satisfazer esse pequeno grupo, podem ser descartados, eliminados. Essa concepção vulgar está presente não só em alguns movimentos ecologistas, que para fazer sua justiça ecológica, punem o pequeno agricultor, o pescador, etc, esse é um efeito de mídia que acaba apagando o real problema que coloca em ameaça não só a vida humana dessa massa de miseráveis, que todos os dias já está morrendo, mas a extinção de toda a vida no planeta.

IN – Qual seria a superação dessa crise ambiental, partindo-se de uma análise marxista?
AB –
Sem a superação da contradição entre o capital e o trabalho você não encontrará a resolução da crise ambiental de forma correta. Você pode tentar resolver a questão da crise ambiental postergando seus efeitos sobre uma camada pequena da população por algum período, mas não para o conjunto da população humana e da vida do planeta. E é impossível resolvê-la dentro do modo de produção capitalista, mesmo que você localize o problema, como a questão energética, por exemplo, revelada nos últimos anos pela crise do capitalismo, como um dos problemas vitais. Ao tentar substituir a fonte de energia, mas continuar com o mesmo modo de produção, entram algumas variáveis importantes, pois ao fazer isso se resolve o problema apenas para um grupo seleto da população, vai continuar a mesma política de extermínio das populações, numa aplicação da Lei de Malthus, tentando frear o excesso de demanda da força de trabalho dentro da sociedade.

IN – Como o modo de produção socialista se torna uma alternativa para a existência do próprio planeta Terra?
AB –
Embora não possamos ocultar que pelo desenvolvimento industrial o modo de produção socialista também participou desse processo de desgaste da natureza em seu esforço para se edificar enquanto sociedade, em seu esforço emulador com o próprio capitalismo: temos o problema hoje visto na China, por exemplo, com a extração do carvão mineral; observamos o desastre que causou Chernobyl, na URSS, há um diferencial, pois o modo de produção socialista não tem como objetivo o lucro, mas a satisfação das necessidades humanas, então, sua existência responde a isso e não à essência da existência do capitalismo, que é produzir mais-valia, lucro. Esta mudança de qualidade do objetivo do sistema social faz com que a relação que o homem tem com a natureza mude qualitativamente, claro, tendo essa grande lição da natureza que os últimos tempos tem nos propiciado. Só assim é possível você fazer as alterações técnicas na forma de produzir os tipos de energia e fazer com que a vida na terra tenha uma chance.

Bianka de Jesus