Resistência cultural e religiosa nas Américas

Entrevista com o babalaô venezuelano Pablo Acosta, presidente da Fundação Internacional Ile Ife e sua esposa, Marjorie Montiel em visita ao Brasil. Será solicitado à Unesco uma petição contra as repressões a prática cultural e religiosa do Iorubá em todo o mundo.

Resistência cultural e religiosa nas Américas


O INVERTA entrevista o babalaô venezuelano Pablo Acosta, presidente da Fundação Internacional Ile Ife (FUNDAILEIFE) e sua esposa Marjorie Montiel. A fundação recebeu, em dezembro de 2006, a anuência por parte da Direção Geral da Justiça e Cultos, pelo Ministério do Interior e Justiça para efetuar suas atividades de caráter religioso. A Constituição da República Bolivariana da Venezuela estabelece que o Estado garantirá a liberdade de religião e culto do povo. Segundo os representantes de Fundaileife um em cada quatro venezuelanos tem contato com a religião Iorubá. Em novembro próximo será realizado na Argentina um encontro latino-americano com religiosos e simpatizantes desta prática cultural e religiosa para solicitar da UNESCO uma petição para que ela se pronuncie contra as repressões encontradas em todos os países. Após uma visita a diversos países latino-americanos e caribenhos, como Panamá, Uruguai, Argentina, Colômbia, República Dominicana e Brasil, encontraram os mesmos problemas, a perseguição e a discriminação a esta prática, que tem a particularidade em Nossa América de levar em conta, além da origem africana, a origem indígena dos povos.


IN – Fale sobre a conjuntura hoje em seu país e como isso beneficia as práticas religiosas e culturais do povo venezuelano.

PA – Em primeiro lugar quero saudar a todo esse belo país, o Brasil, a todo o seu povo, a todos que praticam as crenças milenares que são chamadas de candomblé, quimbanda e umbanda. O governo revolucionário da Venezuela nos permitiu, como fundação internacional, divulgar a cultura Iorubá, temos ido a vários países para divulgar e como representantes desta fundação, podemos levar a mensagem de nossa crença, da mesma forma que nós na Venezuela temos liberdade de culto. Na Venezuela funciona essa liberdade de culto.


IN – O que os trouxe ao Brasil?

PA – Visitamos São Paulo, onde fomos recebidos por uma grande personalidade dentro da cultura do Candomblé, Quimbanda e Umbanda, pudemos perceber que as práticas ali estão muito arraigadas e isso nos leva a divulgar em nosso país, especialmente Venezuela e parte da América Central, que têm tanta ansiedade de conhecer o que é que se pratica no Brasil. Isso é que nos chama a atenção, agora, nós como presidentes de uma fundação internacional para a divulgação para a cultura africana, e levar também a divulgação desta parte, porque este é o nosso continente. De fato, ano passado sustentei uma conversa com vários embaixadores da África, creditados pela UNESCO, e eles me manifestaram que lhes chamava a atenção de que eu sendo branco estivesse pesquisando sobre as crenças africanas, mas como a África já está aberta para o mundo, nós estamos tratando de que a UNESCO reconheça que existimos e por isso vamos ter o direito a palavra em Buenos Aires, em novembro, para falar do problema discriminatório que têm estes países. Isto quer dizer que nós temos que estar unidos para poder fazer uma proposta clara e exata na UNESCO, para que ela dê a credibilidade e respeito que merece toda parte da América do sul, toda a parte da América, para que nos permitam a liberdade de expressão para que tenhamos reconhecimento assim como os africanos têm. Porque não podemos ter nesta parte do continente?


IN – Nós, latino-americanos somos um só povo, temos as raízes africanas, européias e indígenas, o respeito a essa essência de ser um ser único passa também pela cultura e a prática religiosa.

PA – Exato, tem que se levar em conta isso e defender essa prática religiosa e cultural com toda distinção, seriedade, contra o mercantilismo dentro da cultura, um fator importante, o que leva a perda da credibilidade. Buscamos a contribuição de conhecedores da matéria enquanto cultura, candomblé, umbanda, quimbanda, se existem mestres de outras expressões que têm essas prática, conhecem, vamos levá-los, educá-los como educadores para transmitir a todos estes povos o interesse de uma cultura que tem princípios, que tem suas raízes, essa é minha preocupação. Por isso buscamos apoio para levar isto à UNESCO.


IN – O que pode ser apreciado quanto a prática religiosa aqui no Brasil, principalmente o candomblé?

MM – O nosso país tem muito interesse de conhecer o que é o candomblé, o que é a quimbanda e o é a umbanda praticadas no Brasil, para eles poderem ter uma apreciação comparativa. Vamos fazer um intercâmbio religioso e cultural entre Brasil e Venezuela levando em conta nossa origem comum. Nossa fundação internacional quer abrir ao Brasil nossas portas na Venezuela para que possamos fazer os respectivos intercâmbios. Acontece que pude apreciar que existe uma grande parte do povo que pratica estas culturas. Se pudéssemos fazer uma apreciação quantitativa, eu diria que aproximadamente 50% da população americana cultiva e pratica de alguma maneira estes costumes. Então, somos uma grande massa, não somos duas ou três pessoas, tampouco somo invisíveis, o que devemos fazer e nos unirmos em um ponto, um ponto cultural como a expressão de raízes americanas, independente de suas influências afro e européia, mas a nossa indígena acredito que necessita de uma reivindicação.


IN – Durante a ditadura militar e civil que perdurou no Brasil os centros espíritas eram muito perseguidos pelos golpistas, recentemente tivemos no Rio de Janeiro uma invasão a um centro espírita, com depredação das imagens, num exemplo flagrante de perseguição religiosa, fomentada por grupos políticos de direita, em pleno ano eleitoral, travestidos de “uma cruzada santa contra o culto africano”.

MM/PA – Nos inteiramos um pouco do que aconteceu aqui no Rio de Janeiro. Nos preocupou e nós estamos contra essa forma tão criminosa contra nossa crença, somos todos seres humanos e temos que respeitar uns aos outros. É necessário o respeito mútuo, isso é o que interessa a nós como fundação internacional e continuaremos levando nossa missão para que isso seja respeitado.


IN – Finalizamos saudando a presença de vocês no Brasil.

AP – Aproveitando esta entrevista queremos dar um reconhecimento público, em nível internacional ao nosso presidente, Hugo Chávez Frías; ao nosso chanceler, Nicolas Maduro; ao nosso excelentíssimo embaixador Garcia Montoya; ao vice-ministro de Razões Exteriores para a Área da América Latina, o comandante Ariel Cárdenas; e ao nosso excelentíssimo cônsul geral no Rio de Janeiro, Dr. Edgar González, que em sua grande comitiva que acompanha o nosso consulado, esse privilégio de dar-nos a atenção que nós precisamos, para que seja uma entrevista direta. E dizer mais que nunca que o Brasil e Venezuela estão unidos. A cultura une os povos, então, nossa bandeira como fundação internacional ILEIFE é levar a cultura para unir os povos, agora aqui nos sentimos mais um brasileiro, isso é o importante. O nosso ato religioso não é diabólico, não é pecaminoso, o nosso é o nosso, é uma expressão de nossos antepassados, são nossas raízes.


Gilka Sabino e BJ