Niemeyer, Arte e Revolução

Oscar Niemeyer nasceu em 1907, filho de proprietário de uma tipografia e neto de ministro do Supremo Tribunal Federal, que deixou ao morrer, como herança, apenas a casa em que a família residia em Laranjeiras.

Niemeyer, Arte e Revolução


Oscar Niemeyer nasceu em 1907, filho de proprietário de uma tipografia e neto de ministro do Supremo Tribunal Federal, que deixou ao morrer, como herança, apenas a casa em que a família residia em Laranjeiras.

Diplomou-se em arquitetura em 1934, pela Escola Nacional de Belas Artes. Trabalhou em seguida no escritório de Lúcio Costa (1902-1998), cuja solidez teórica e conhecimento da arquitetura colonial brasileira o influenciaram de forma marcante. Nesse período, torna-se amigo de Rodrigo M. F. de Andrade (1898-1969), considerado por ele um mestre, de quem recebe o incentivo para a leitura dos clássicos gregos e portugueses. Andrade foi o primeiro diretor do SPHAN (Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e desempenhou importante papel na preservação da arquitetura colonial, admirada pelos três e base importante dos projetos que desenvolveram.

Em 1929, o arquiteto francês Le Corbusier (1887-1965), em visita ao Brasil, é acolhido com grande interesse pelos jovens estudantes. Na segunda visita, em 1936, Le Corbusier elaborou os projetos que servirão de base para o edifício do Ministério da Educação e Saúde, hoje Palácio Capanema. Embora o traço original seja do arquiteto francês, o projeto em sua versão final deveu-se a Niemeyer. Ali se expressam os princípios fundamentais da nova arquitetura: estrutura autônoma, planta livre, fachada livre, pilotis e terraço-jardim. A fachada livre traz a novidade do brise-soleil ou quebra-sois, que eram inspirados em soluções que Le Corbusier encontrara na Argélia para evitar ou reduzir a ação direta do sol e representava uma compreensão maior de como as características físicas do país precisavam interferir na arquitetura.

O contato com Niemeyer também repercute no trabalho de Le Corbusier, logo a influência se faria sentir na direção inversa, quando o mestre francês rompe com a rigidez que o ângulo reto representava em sua obra.

Para Niemeyer, o ingresso no Partido Comunista em 1945 representou um importante aprendizado do desprendimento e o do compromisso com a revolução. Nesse ano, os comunistas, ao saírem da clandestinidade, são abrigados no seu escritório que passa a ser sede do partido.

A militância comunista tem deixado claro, para aquele que recebeu o Prêmio Pritzker de Arquitetura em 1988, o correspondente ao Nobel, que a arquitetura é secundária, o mais importante é a luta política: “Importante é a vida, a luta por um mundo melhor”. Esta firmeza de princípios ecoa a partir da posição de artista reconhecido mundialmente. As suas declarações têm animado aqueles que lutam por um mundo melhor. Tem dito que considera os reveses na construção do socialismo um acidente de percurso e afirmado: “Quando a vida se degrada e a esperança foge do coração dos homens, a revolução é o caminho a seguir”.

Em toda sua vida tem colaborado com causas importantes, colocando seu talento a serviço dessas lutas. Particularmente nesta área se revela como escultor, criando a ainda pouco compreendida escultura Tortura Nunca Mais, a mão de Che representando o continente que sangra na luta por sua libertação e o monumento aos operários assassinados em Volta Redonda em 1988. No ano seguinte, o monumento foi alvo de um ato terrorista que o destruiu, foi reconstruído e lá permanece depois de guardado durante três dias pelos operários. Em 2001, desenhou o cartaz internacional contra o Plano Colômbia, representando um manifestante de bandeira em punho lutando contra o imperialismo. Essa imagem é a base da escultura agora inaugurada em Cuba em homenagem ao seu centenário.

A obra de Niemeyer poderia ser dividida em seis momentos essenciais, a começar por Pampulha (1940), onde entram em cena as curvas e formas novas permitidas pelo concreto armado.

De Pampulha a Brasília há o período onde se destaca a construção do prédio da ONU (Organização das Nações Unidas), em 1947, inaugurando um reconhecimento internacional que prossegue até hoje.

Se o prédio do Ministério da Educação e Saúde foi o marco inicial, Brasília é o ponto máximo da renovação da arquitetura brasileira. Novamente juntos, cabe a Lúcio Costa a responsabilidade pelo traçado urbanístico e a Niemeyer os projetos dos principais prédios. Num ligeiro apanhado, destacam-se o Palácio Alvorada, a Catedral e o Palácio dos Arcos ou Itamarati. O primeiro tem a leveza e a força que o fazem símbolo daquele momento, a Catedral integra de maneira muito própria espaço e estrutura, e o último apresenta proporções de grande beleza. Em todos eles, afirma-se a liberdade e o rigor do trabalho do arquiteto, que sempre lembra que a função da arte deve ser causar surpresa.

Impedido de continuar trabalhando no Brasil como o golpe de 1964, tem no exterior, além da dimensão internacional que sua arte pôde adquirir, a possibilidade de “mostrar o progresso de nossa engenharia”, que em nada deixa a dever aos grandes centros mundiais. Destacam-se nesse período a sede do Partido Comunista Francês, 1967, a Editora Mondadori, Itália, 1968, a Universidade de Constantine, Argélia, 1969, considerado pelo arquiteto um dos seus melhores trabalhos no exterior, e a Praça do Havre, também na França, 1972, vista pelo crítico italiano Bruno Zevi como um dos dez melhores trabalhos da arquitetura contemporânea.

De volta ao Brasil, elabora projetos que caracterizam uma forma mais radical, como o comentário sobre o Memorial da América Latina demonstra:

“Nada de detalhes menores, apenas vigas de 70 a 90 metros e as cascas curvas. São os grandes espaços livres que o tema estabelecia. Uma obra cuja monumentalidade corresponde à grandeza dos seus objetivos. Aproximar os povos da América Latina tão oprimida e explorada”.1 São desse período o Sambódromo (1982), o Memorial da América Latina (1987) e o Museu de Arte Contemporânea (1991).

O declínio da arquitetura pós-moderna tem renovado ultimamente o interesse pela arquitetura de Niemeyer, que se faz presente em projetos como o Caminho de Niterói e o Museu de Brasília, inaugurado em 2005.

Niemeyer trouxe leveza e criatividade para a arquitetura moderna, rompendo com o princípio racionalista de que a forma deve ser subordinada à função. Os espaços criados estão sempre associados à presença do homem, levado a circular livremente e apreciar as formas belas construídas. Neste sentido, a curva impõe-se, em oposição à ditadura do ângulo reto, como solução para uma arquitetura em diálogo com o homem e o universo.

A presença do Estado, acionada a partir da chamada Revolução de 1930, é fator preponderante na constituição dessa arquitetura, como em tantos outros setores da vida nacional. Essas condições permitem o surgimento de um artista genial como Oscar Niemeyer, que, no entanto, nunca teve dúvidas de que no capitalismo a arquitetura está subordinada aos interesses do lucro e da acumulação, portanto uma arquitetura social será demagógica, cabendo ao artista produzir uma obra que possa causar espanto e entusiasmo, mas a verdadeira mudança virá da luta política.

Antônio Cícero