Crise do gás russo e a geopolítica européia

 

As fragilidades geopolíticas do maior país do mundo – a Federação Russa – decorrem de sua própria grandeza territorial que o leva a limitar-se com os mares gelados do Ártico e de Bering, dificultando as saídas marítimas, e no Ocidente, as incertezas de contar ou não com aliados nas fronteiras a Oeste.

O problema está no tipo de relação que esses vizinhos podem estabelecer com a Rússia, pois não há barreiras naturais e por lá passaram os invasores que a ameaçaram seriamente diversas vezes.

Com o fim da II Guerra Mundial ou Grande Guerra Patriótica, na denominação consagrada pelo povo soviético, a grande preocupação era resguardar os limites ocidentais com países neutros, que não se prestassem a colaborar com futuras ameaças.

Não era prioridade a implantação de governos necessariamente socialistas, como o demonstra os acordos de desocupação da Áustria e a conformação política desse país em moldes bastante semelhantes aos defendidos pela liderança soviética.

As guerras mudaram muito nos últimos anos, mas permanece a fase imperialista do capitalismo, com sua manifestação mais visível, hoje, na opção pela guerra em torno das matérias-primas estratégicas como petróleo e derivados.

E mesmo com a desagregação da União Soviética, a Federação Russa continua preocupada com os vizinhos; em especial, a Ucrânia tem merecido atenção.

A ascensão, no final de 2004, de Viktor Yushcencko desestabilizou as relações entre as duas nações: o atual presidente ucraniano alinha-se claramente com as potências imperialistas do Ocidente e recentemente aproximou a Ucrânia da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), o que representa uma ameaça à segurança russa.

A contrapartida veio com o corte do fornecimento de gás à Ucrânia nos primeiros dias do ano novo.

Como o gás russo é transportado para a Europa através da Ucrânia, o corte de fornecimento atingiu vários países europeus, que dependem da Rússia em 25% de suas necessidades do combustível.

O governo russo acusou a Ucrânia de roubo e exigiu um aumento de cerca de 300% em preços subsidiados desde o período de existência da União Soviética, quando as regras levavam em conta o equilíbrio entre o governo central e os demais membros da União e os interesses dos diferentes povos.

Nesta relação, a dependência ucraniana de gás era compensada por sua grande capacidade em fornecer produtos agrícolas para os demais países da União Soviética.

A Federação Russa escolheu um momento especial para este aviso ao governo ucraniano e à União Européia: acabara de assumir a presidência do G-8, grupo dos países mais industrializados do mundo.

De uma posição privilegiada, o governo russo pôde deixar perplexos os seus pares, como poderiam criticar a Rússia por fazer valer as leis de mercado que eles tanto defendem? Os Estados Unidos se limitaram a dizer que o aumento não poderia ser exigido de uma vez, mas gradualmente... A solução encontrada reafirma o esforço russo para evitar maior aproximação ucraniana com as potências imperialistas do Ocidente: a estatal Gazprom vai comprar gás siberiano a 230 e vender à Ucrânia por 95 dólares.

Tanto barulho por nada? Tudo indica que os interesses russos eram mais políticos. Pode-se tirar desses acontecimentos algumas pistas sobre o papel que a Rússia pode desempenhar no cenário atual.

Os vínculos culturais e estratégicos entre Ucrânia e Rússia são grandes e um alinhamento político com o Ocidente não parece aceitável para o governo russo.

Por outro lado, depois do fim do sistema socialista e da crise de 1998, a economia russa começou a se recuperar, graças ao relativo afastamento do receituário capitalista que ameaçava levá-la ao abismo.

O primeiro ministro Putin interrompeu o ritmo vertiginoso de privatizações e se propôs a recuperar o prestígio da antiga potência mundial.

Antonio Cícero Cassiano Sousa