Entrevista com Nelson, dirigente do Movimento de Moradia da Região Centro-SP

O INVERTA entrevista Nelson, dirigente do Movimento de Moradia da Região Centro. O movimento organizou a ocupação de um prédio abandonado, que servia de moradia para 75 famílias de trabalhadores, sem condições de pagar aluguel. Recentemente, o INVERTA noticiou o despejo violento das famílias desse prédio, pela Polícia Militar de São Paulo. Este é mais um episódio da política higienista do prefeito José Serra, em querer transformar o centro de São Paulo em um oásis para os ricos. A política higienista continua, e no dia 04 de outubro mais uma ocupação foi despejada, há menos de um quarteirão da Rua Plínio Ramos. Cerca de 100 famílias foram postas na rua. Outras, se juntaram ao acampamento que o MMRC mantinha, em frente ao prédio onde as famílias moravam; agora vazio e com suas portas concretadas.

 

Inverta - Como você pensou que seria a reintegração de posse na Rua Plínio Ramos?

Nelson - Eu não esperava que fosse ser uma reintegração tão violenta. Mesmo porque, nós não estávamos lá dentro preparados para um confronto direto com a polícia. Nós estávamos lá para reivindicar o direito à moradia. E, esse direito à moradia se transformou num campo de guerra naquele dia (16 de agosto), por parte dos policiais, que são negligentes e despreparados para esse tipo de ação, a não ser violentamente. Eu acho que é a diretriz, a formação que é passada aos policiais - eles chegaram agitando, chamando para o confronto - e deu no que deu: vários companheiros foram detidos ilegalmente, e vários se machucaram.

Inverta - O movimento tentou se preparar para essa ação?

Nelson - As famílias não estavam preparadas para esse tipo de confronto. Não tínhamos bombas, paus, pedras lá dentro. Mas, também não foram preparadas para “abrir as pernas” e sair assim que a polícia chegasse, como acontece por aí. A gente sabia que se fizesse uma pressão ia ter divulgação, sim. Considero que acertamos no que queríamos. Mesmo acontecendo o despejo, que este fosse divulgado. E isto aconteceu. Até hoje o despejo está sendo divulgado.

Nós fizemos o nosso papel.

Quem não está preparado e não está cumprindo o seu papel é o governo. As famílias estão abandonadas na rua e sem nenhuma providência tomada por parte do governo. O acampamento na rua já vai para dois meses. Esperamos que o governo tome uma providência nesse sentido.

Inverta - Você acredita que esse processo do despejo trouxe lições? O que devemos fazer com essas lições?

Nelson - Em 2002, passei por um outro despejo que foi bem mais violento - esse não chegou nem aos pés. Mas, mesmo naquele despejo grande, eu não tirei tantas lições quanto eu tirei desse despejo recente, desse acampamento pequeno, onde as famílias não estavam tão preparadas. O acampamento ensinou muito, não só a mim, mas para todo o pessoal que estava no dia-a-dia nos acompanhando. E cada dia em que o acampamento amanhece de pé é uma lição a mais. As lições nós vamos juntando para separar o que foi bom e o que foi ruim, para que no fim disso tudo a gente saiba o que aproveitar e o que não aproveitar, para aprender com os erros e melhorar o nosso trabalho.

Inverta - O que você gostaria de dizer aos outros trabalhadores e trabalhadoras sem-teto e aos outros movimentos de moradia do Brasil sobre a Reforma Urbana?

Nelson - Em São Paulo estão acontecendo um ou dois despejos por dia. Nos outros estados também existe o mesmo problema. Pernambuco, Minas, Rio, Bahia, Goiás - vemos despejos violentos contra o trabalhador e as trabalhadoras do povo. Minha mensagem para os companheiros e companheiras que têm acesso ao Jornal, é que a luta é contínua, ela não pode parar, tem que continuar e cada vez mais, com mais dedicação e atenção. Nós queremos uma Reforma Urbana que não venha com o projeto de excluir o trabalhador e a trabalhadora do direito de sua casa, disfarçando o problema sem resolver. Queremos que de fato seja contemplado todo o povo, toda a gente. A moradia é um princípio para que as pessoas possam ser cidadãos e cidadãs. Sabemos que lutamos por uma Reforma Urbana, mas ela só vai sair se a gente for pra cima. Se a gente não for pra cima, não vai acontecer Reforma Urbana.

Inverta - E quais lições você acredita que os revolucionários podem tirar desse processo pelo qual você passou?

Nelson - Planejar. Tem que planejar. Tudo que for fazer, planejar. O grande revolucionário tem que ter dentro dele o espírito de lutador e de guerreiro. Muitos tratam o revolucionário como um terrorista, mas o revolucionário fala pouco, pensa muito e age na hora certa e no lugar certo. Sabemos que damos algum tropeço, mas isso tem que servir de aperfeiçoamento para que a gente se recupere, faça melhor do que o que deu errado.

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