“Quando as Máquinas Param” de Plínio Marcos

Bairro da Mooca, São Paulo, porta de uma grande fábrica de tecidos, meados de 2000. A diretora e atriz Kátia Brito, a cenógrafa Ciça Modesto e o ator Manuel Boucinhas aguardam a retirada dos enormes sacos de retalhos, sobras diárias da fábrica, em meio a mais de cem mulheres. O trio é evidentemente estranho ao local. Algumas mulheres se aproximam e, temendo a “concorrência” pela disputa dos pequenos panos, perguntam o que eles estão fazendo ali.

“Quando as Máquinas Param” de Plínio Marcos

Por: Jeanne Duarte


Bairro da Mooca, São Paulo, porta de uma grande fábrica de tecidos, meados de 2000. A diretora e atriz Kátia Brito, a cenógrafa Ciça Modesto e o ator Manuel Boucinhas aguardam a retirada dos enormes sacos de retalhos, sobras diárias da fábrica, em meio a mais de cem mulheres. O trio é evidentemente estranho ao local. Algumas mulheres se aproximam e, temendo a “concorrência” pela disputa dos pequenos panos, perguntam o que eles estão fazendo ali. Kátia explica que os retalhos são parte do cenário de um espetáculo onde a personagem feminina é uma costureira. As mulheres, costureiras de fuxico, de colchas e tapetes, das artes que se fazem a partir de pequenos pedaços, aos poucos cedem. A animosidade inicial vai dando lugar a uma roda que ouve atentamente a história narrada por Kátia. A cena é quase bíblica. Os retalhos chegam e são igualmente divididos.

É dos retalhos da vida cotidiana que se alimenta a peça “Quando as Máquinas Param”, de Plínio Marcos, uma encenação de Kátia Brito, que estreou no dia 5 de junho, às 21h, no Teatro Sérgio Porto, em curta temporada. No elenco, Kátia Brito e Manuel Boucinhas. No chão, retalhos novos se misturam a outros recolhidos durante um ano pelas ruas de São Paulo, compondo um painel vivo de referências. A intersecção do amor com o desemprego é contada por detalhes cênicos que, somados ao texto, formam um retrato fiel do Brasil, privilegiando a beleza do homem comum e de sua estética urbana.


O texto de Plínio Marcos

Zé e Nina. Eles são jovens e se amam. Zé gosta muito de futebol, joga pelada com a garotada da rua e é torcedor fanático. Nina adora novelas. Juntos já conseguiram algumas vitórias: casaram, alugaram uma casa, pensam em ter filhos. Formam um casal feliz. Ela costura para fora. Ele é operário. Tudo parece perfeito, porém um dia Zé perde o emprego. E agora? Zé e Nina são apenas dois, mas representam milhões.

“Quando as Máquinas Param” é o único texto de Plínio Marcos que apresenta uma história de amor sem marginais e submundo. No entanto, aponta a marginalidade a que está condenado o homem comum.

Escrita em 1971, é de uma atualidade estonteante, a começar pelo seu mote central, o desemprego. “Segundo a ONU, somos o terceiro colocado mundial nesta categoria, mais de 20 milhões de desempregados”, lembra Kátia. Plínio Marcos, que morreu em novembro de 1999, não gostava muito desta atualidade. Uma vez declarou: Lamentavelmente meu teatro não perdeu o sentido e isso se deve única e exclusivamente ao país, que não evoluiu. Então, minhas peças continuam as mesmas”.

a montagem

Construída a partir de ensaios abertos em praças e parques da capital paulista, antes de chegar ao Rio, a montagem procura reforçar a identidade de Zé e Nina, para aproximá-los da platéia: “fomos à feira, aos estádios de futebol, à fila dos desempregados”, conta a diretora, formada pela Escola de Comunicação e Artes da USP. O gosto pela pesquisa tem a ver com a formação da diretora e atriz. Kátia integrou por vários anos o Centro de Pesquisas Teatrais, de Antunes Filho. Depois atuou no Oficina, com José Celso Martinez Correa. Já no Rio, fez parte do Grupo Tá na Rua, dirigido por Amir Haddad.

Para este trabalho, o corpo dos atores foi trabalhado a partir de uma pesquisa centrada no gestual, que é próprio da população brasileira - motivo de estudos anteriores da atriz com Klaus Vianna - e em posturas corporais próximas das danças populares, tendo como preparadores os professores Marcelo Martins e Armando Luiz, do grupo de Jaime Arôxa.

O cheiro de café passado em cena dá as boas vindas ao público. Um ambiente com reproduções em grande formato da obra de Gerchman conduz o espectador para dentro da realidade cotidiana e também para dentro do teatro. Um quarto e uma cozinha: uma casa como as demais, como as de um terço da população brasileira. A cenógrafa Cica Modesto, vencedora de oito prêmios Mambembe e dois prêmios Coca-Cola, usa dois andaimes, bacia de alumínio, retrato de Jesus, e, espalhados pelo chão do palco, muitos pedaços de tecido de cores vivas: “O andaime é uma referência explícita”, conta Kátia Brito. "É a estrutura que balança, é a vida por um fio”.

Na peça, o saudoso Plínio Marcos relaciona os jogos às vitórias e derrotas da vida. É a emoção simbólica, presente na visão atual desde os quadros de Gerchman até a trilha sonora. O diretor musical é Toninho Carrasqueira, flautista de primeira linha, que reproduz, com o som das torcidas, o papel que o Coro tem nas tragédias gregas: comentar de forma emocionante a ação da peça. O rádio é quem traz o mundo pra dentro da casa.

O espetáculo “Quando as Máquinas param” estreou no dia 5 de junho e estará em cartaz até o dia 27 de junho de 2001. Sempre às terças e quartas, às 21 horas. Ingressos a preços populares. O Espaço Cultural Sérgio Porto está localizado na Rua Humaitá, 163. Tel: 266-0896.