Peça de teatro resgata memória da ditadura e projeta futuro do Brasil golpista

Estreou, no dia 4 de março, em São Paulo “O corpo que o rio levou”, peça de Ave Terrena com direção de Diego Moschkovich. Baseada nos relatórios da Comissão Nacional da Verdade, a peça imagina o que aconteceria se o Estado de exceção instaurado pelo golpe de 2016 se aprofundasse num futuro próximo.

A trama, que se passa em 2020 mas é inspirada em casos reais descritos no relatório da Comissão Nacional da Verdade mostra a história de Elza, uma atriz em início de carreira, e seu companheiro, Abelardo, tesoureiro de um banco. Enquanto Elza se prepara para fazer um teste para uma peça internacional, a agência onde Abelardo trabalha é alvo de uma ação armada de um grupo da nova guerrilha, surgida no Brasil após o aprofundamento do golpe de 2016.

Para Diego Moschkovich, diretor da peça, “é necessário, mais do que nunca, denunciar o aprofundamento do Estado de exceção em que vivemos. Essa peça nasceu e foi crescendo exatamente paralela ao processo da luta de classes que culminou no golpe de 2016. Começamos com uma investigação sobre a especificidade do fascismo na América Latina, a partir da obra Terror e miséria do III Reich, de Bertolt Brecht. De repente, olhamos em volta e vimos que tudo aquilo sobre o que queríamos falar estava bem aqui, do nosso lado: gente de verde e amarelo na Avenida Paulista pedindo a volta do regime militar, o plano Ponte para o futuro, que ameaçava jogar o Brasil de volta no colo dos EUA. Não, nós falamos, é esse material aqui, é com isso que precisamos trabalhar”.

A dramaturgia ainda traz uma outra linha de ação. Nela, Andrew King, diretor de teatro estadunidense, é convidado ao Brasil para encenar sua versão latino-americana de Hamlet. A peça, batizada de “Ofélica Latina”, aparece apenas parcialmente dentro de “O corpo que o rio levou”, e trata das especificidades do processo de colonização da América Latina.

“Aqui”, diz o diretor, “falamos sobre duas coisas. A primeira, mais óbvia, é a indústria cultural. Como vem um diretor estadunidense falar aqui, sobre nós? A segunda é que esse processo de golpe não é um processo isolado, brasileiro, apenas. Dizer isso é o mesmo que afirmar que a ditadura civil-militar foi um desvio no percurso do desenvolvimento do Estado no Brasil. É um absurdo! Toda a história de nossa região é uma história de golpes e de massacres, desde que os europeus pisaram aqui. No processo de criação do espetáculo conversamos bastante com os pesquisadores do CEPPES, em especial com o prof. Aluísio Bevilaqua, que nos ajudou muito a entender o caráter dependente das formações sociais latino-americanas. Em nossa peça, a linha da “Ofélica Latina” fala um pouco sobre isso, sobre a Pátria Grande, que vai do Rio Bravo a Ushuaia”.

A produção, premiada com o IV Prêmio Zé Renato de Teatro, ficará em cartaz até o dia 9 de abril no Centro Cultural São Paulo, de onde segue para uma minitemporada em ocupações e assentamentos de movimentos de luta por terra e moradia.

Serviço:

O CORPO QUE O RIO LEVOU

Texto: Ave Terrena

Direção: Diego Moschkovich

Com: Diego Chilio, Fredy Állan, Maria Emilia Faganello, Sofia Botelho e Sophia Castellano.

Sexta-feira e sábado às 21 horas e domingo às 20 horas. Até 9 de abril.

Centro Cultural São Paulo – Rua Vergueiro, 1000 – Estação de metrô Vergueiro.
Telefone: (11) 3397-4002
Duração – 120 minutos. Recomendado para maiores de 14 anos.
Ingressos – R$ 20,00 e R$ 10,00 (meia-entrada).
Capacidade – 66 lugares.
Bilheteria – de terça a sábado, das 13h às 21h30; e domingos, das 13h às 20h30.
Ingressos vendidos online pela www.ingressorapido.com.br ou pelo telefone 4003-1212.
Acesso para deficientes físicos. www.centrocultural.sp.gov.br
*Dia 10 de março, sexta-feira, ingresso promocional – R$ 3,00.
**Dia 1º de abril, sábado, às 17 horas, bate-papo antes do espetáculo com convidados.