IV Jirau Agroecológico do Baixo Tocantins: “Identidade e Autonomia: Campos que germinam na luta por direitos dos territórios”
Foi realizado em Cametá-PA o IV Jirau Agroecológico do Baixo Tocantins nos dias 28, 29 e 30 de novembro. O Jirau ocorreu simultaneamente à IV Semana acadêmica do IFPA/Cametá e ao III Encontro das ações Integradas de Ensino Técnico, Tecnológico e Superior do Baixo Tocantins. Ele é um espaço de troca de experiências e de ações que promovam a sustentabilidade das cadeias produtivas da sociobiodiversidade e o fortalecimento dos empreendimentos agroecológicos.
Participaram do evento mais de 300 pessoas, entre elas: ribeirinhos, quilombolas, agricultores, comunidade universitária e outros. Ocorreram diversas palestras e debates, assim como oficinas e atividades culturais. Os temas foram diversos: Identidade e Autonomia: campos que germinam na luta por direitos dos territórios; Fortalecimento da Gestão de Organizações Comunitárias; Empreendedorismo feminino: primeiros passos; Prática Orgânica: alternativa para agroecologia; Irrigação na Agroecologia; Educação do Campo e os desafios no Baixo Tocantins; Os alimentos e seus riscos: os impactos dos agrotóxicos na saúde humana; entre outros.
O evento contou com a participação de várias autoridades como Dom Orvandil, do Congresso Nacional de Lutas contra o Neoliberalismo, que foi um dos palestrantes; prof. e Dr. Aldrin Benjamin, coordenador do IFPA; Dra. Waldeleia Amaral; Waldirene Cruz, Zé Capina, Bena e Helena que abrilhantaram o evento com suas apresentações artísticas.
Várias questões de gravidade foram denunciadas no evento, como a construção de um cemitério na região. Waldirene Cruz, do Congresso de Lutas Contra o Neoliberalismo, destacou em suas intervenções a tentativa de retomada da construção de uma hidrovia no Rio Tocantins: “essa hidrovia vai acabar com o sustento dos que dependem do rio para sobreviver, não podemos permitir sua construção, ela vai também trazer consequências para nosso rio”.
O Inverta acompanhou o encontro e conversou com alguns organizadores, convidados e lideranças da região que abordaram a importância do evento e falaram de algumas atividades que desenvolvem em suas comunidades ou áreas de atuação.
Elizete Marques de Souza, Zete: “Atuo na Ong APAC (associação de apoio para produtores carentes) que desenvolve um trabalho em diversos municípios. O objetivo do Jirau é dialogar, fazer a troca de conhecimentos e resistir em um momento muito difícil em nosso país. Estamos nos organizando para manter nossa floresta, pois sem ela não vivemos como agricultor e extrativista. E a Amazônia é nossa, dos extrativistas, dos quilombolas, estamos nos unindo”.
Benedita Gonçalves: “Sou de Carapajó, trabalho com a agricultura familiar. Nossa propriedade é agroflorestal (SAF), que é o sistema de produção diverso em uma mesma área, frutífero, que pode ser também de hortaliça, plantas permanentes, as de período curto, é o contraponto à monocultura. A importância do Jirau é juntarmos o técnico com o empírico, é importante que o técnico veja como vivemos, precisamos desse espaço de sabores e saberes, precisamos todos defender a Amazônia, não só como verde, mas como uma Amazônia viva, defender as pessoas que vivem dela, termos boas práticas e desenvolvermos a luta. Precisamos fazer um consumo saudável, não poluir e nem queimar. Também é importante mostrar nossa arte, como somos, o que gostamos, e é importante interagir as falas com a arte, o debate fica mais leve”.
Luiz Medeiros Gonçalves Junior, professor e diretor do Sindicato dos Trabalhadores da Educação do Pará: “Não temos boas perspectivas, principalmente com essas mudanças curriculares que o atual governo está propondo, que é uma educação elitista, que tira da grade de ensino conteúdos ligados à questão do pensamento, redução de carga horária de disciplinas comprometendo a qualidade de ensino, privilegiando a educação positivista tradicional; mas o pior é a precarização das condições de trabalho, desde o especialista até o de suporte técnico, além dos baixos salários, no turno da noite há muitos problemas com a violência, há redução dos turnos, não existe transporte escolar na área urbana, nosso município Cametá é muito afetado, temos uma zona urbana de médio porte, enfrentamos muitos problemas com depressão de alunos, que se mutilam, usuários de droga, envolvidos com gangues. Com os baixos salários há muitos problemas, professores com depressão, às vezes somos obrigados a fazer arrecadações com eventos, como festa junina para melhorar a escola, tiramos do nosso pequeno salário para deixar a escola em condições de trabalho. O processo educacional em nossa região é um desafio.
O Jirau é a possibilidade de criar uma rede coletiva que vai discutir de uma forma mais ampla. A escola tem que estar voltada para a realidade, e o Jirau consegue dialogar e construir com vários setores. Saímos fortalecidos, pois alertamos as comunidades dos problemas que estão cada vez mais se acumulando. Estávamos há muito tempo adormecidos, esperando que viessem de cima representantes milagrosos. Precisamos nos organizar, nem que seja forçosamente, e devemos partir para a luta”.
Juliana Costa, coordenadora de um grupo de mulheres da APAC da comunidade ribeirinha: “Lutamos muito, já mudamos, tivemos conquistas. Lá temos mulheres organizadas, três portos que exportam açaí. Tempos atrás meu pai trabalhou acocado, hoje ele não consegue andar, aqui só tinha um patrão; ele colocou os filhos para estudar. Um dia apareceu um homem que disse que podíamos mudar, mas que tínhamos que nos organizar, fizemos mutirão, montamos cooperativas, lutamos muito, conseguimos eleger um prefeito de esquerda que nos favoreceu, mas antes do prefeito teve o presidente Lula que nos ajudou muito, mudou muita gente, inclusive a vida de minha família; a gente tinha terra porque o patrão do meu pai faliu e foi embora deixando a terra para a gente, mas não tínhamos capital para investir, íamos viver do que? Lula entrou na história e confiou no pobre, investiu no trabalhador e começou liberar financiamento para que o produtor pudesse investir em sua terra; meu pai não consegue se movimentar muito porque foi explorado, realizou trabalho escravo, hoje ele tem um pedaço de terra, é aposentado, tem uma grande empresa que é a terra de onde ele e todos nós tiramos o sustento de nossa família. Essa comunidade cresce a cada dia. Quem foi embora volta hoje e diz: esse rio (Tocantins) não é o que eu morava, tem energia, todos têm seu lote. A rede Jirau nos fortalece, nos empodera, estávamos perdendo nossos costumes, nossa cultura. Quando vimos pra dentro da rede e observamos o que acontece e o que foi feito pelos nossos avós e nossos pais saímos daqui com aquela vontade e aquela missão de levar para os outros a importância do Jirau, aqui vemos a importância de mulheres, homens e jovens do Baixo Tocantins.
Aldrin Benjamin, professor da Universidade do Pará e coordenador da Universidade no campo Cametá, agrônomo de formação: “Hoje as reformas que estão sendo propostas são de grande preocupação, elas desestruturam toda a política que foi reivindicada há mais de 30 anos, de movimento por uma educação pública, gratuita, de qualidade e acessível à classe trabalhadora, a lei que criou os Institutos Federais Superiores potencializou a interiorização de uma formação tecnológica como princípio da verticalização, o estudante pode entrar com a formação básica e sai com a pós-graduação. Esse projeto foi implantado em 2008 para vários estados e municípios, para nós representa o maior projeto de democratização da educação em nosso país. Enquanto servidor, outras reformas também nos afligem: a administrativa, a reforma tributária e a previdenciária, pois elas atentam contra a vida de todos nós.
O IV Jirau significa uma caminhada de resistência, foi instituído em 2016, quando vivemos uma conjuntura de retomada do poder de uma direita mais conservadora que não tem a educação pública como prioridade, como política de governo. A criação do Jirau é uma tentativa de construir uma resistência no Baixo Tocantins e para fortalecer a educação pública, qualificar uma prestação de serviço que atenda a comunidade; precisávamos institucionalizar um espaço. O IV Jirau é uma consolidação de um ano de trabalho, é preciso que haja um feedback entre nós e a comunidade, e nos preparar também para o próximo ano. Para que os serviços a serem prestados estejam de acordo com as demandas, com a temporalidade dos diferentes territórios.
Observamos que todo o processo construído em torno do tema Amazônia por esse governo está relacionado a um projeto de apropriação do território amazônico pela elite. Eles desconhecem as diferentes populações que aqui habitam e se relacionam. Aqui é um celeiro, talvez seja a maior fronteira que o agronegócio deseja. Precisamos construir uma frente de defesa do território amazônico”.
Osmarina Portal
