Mês da Consciência Negra no Rio de Janeiro exalta Zumbi dos Palmares
Desde 1999, o município do Rio de Janeiro aderiu o feriado de 20 de novembro como o Dia da Consciência Negra, autorizado pelo governo local, onde consagra a data como o Dia de homenagem à imortalidade de Zumbi dos Palmares, que morreu no ano de 1695.
Para compreender melhor a importância do feriado de 20 de novembro é preciso voltar a verdadeira história do Brasil e entender a representatividade de Zumbi diante de sua rica trajetória como líder, representante do povo preto desse país, representante da resistência negra à escravidão no Brasil no período colonial.
Zumbi nasceu em Alagoas no ano de 1655 e foi o principal líder no Quilombo dos Palmares, comunidade composta por escravos fugitivos dos engenhos, que totalizava aproximadamente cerca de trinta mil habitantes, que também recebia índios e brancos pobres que eram expulsos das fazendas.
Localizado na região da Serra da Barriga, que atualmente faz parte dos municípios da União de Palmares, o quilombo era formado por negros que viviam, de acordo com sua cultura, onde produziam tudo o que podiam para sua sobrevivência.
Embora tenha nascido livre, aos sete anos de idade Zumbi foi capturado entregue ao padre jesuíta Antônio Melo, onde foi batizado, aprendeu todos os preceitos católicos, onde chegou a ajudar o padre nas celebrações das missas. O menino recebeu o nome de Francisco e aprendeu latim, álgebra, língua portuguesa. Quando completou 15 anos fugiu do chamado Porto Calvo para o quilombo dos Palmares, deixou de se chamar Francisco e aderiu o nome de Zumbi que significa, “aquele que está morto e reviveu” no dialeto da tribo imbagala de Angola.
No ano de 1675, o quilombo de Palmares foi atacado por soldados portugueses, e Zumbi, nessa ação, se destacou e ajudou o quilombo defendendo com maestria, onde se destacou como um grande líder e guerreiro. Depois de uma batalha sangrenta com a comunidade do quilombo, os soldados não resistiram e foram obrigados a se retirarem e fugiram para a cidade de Recife.
Passados três anos após esse ataque, o governador da província de Pernambuco procurou o líder Ganga Zumba para um acordo, Zumbi foi contra esse acordo pois não aceitava a liberdade dos quilombolas enquanto os outros negros continuariam aprisionados. Para Zumbi de que adiantaria a luta se alguns irmãos permaneceriam em cárceres, sendo escravizados?
Quando completou 25 anos, Zumbi tornou-se líder de Palmares e passou a comandar as resistências contra as tropas do governo, com isso, durante sua liderança, a comunidade cresceu e se fortaleceu e obteve varias vitórias contra os soldados portugueses, representantes do governo da época.
A grande habilidade de Zumbi foi imposta quando o mesmo planejou a organização do quilombo , fora sua coragem e seus conhecimento militares.
Nem só de vitórias foi a liderança de Zumbi, no ano de 1694, sobre o comando do bandeirante Domingos Jorge Velho, foi organizado um grande ataque ao quilombo dos Palmares, e após intensa batalha, Macaco, a sede do Quilombo, foi totalmente destruída onde o líder, mesmo ferido conseguiu fugir; porém, foi traído por um dos companheiros que o entrega às tropas de Domingos e, no dia 20 de novembro de 1965, aos 40 anos de idade, é assassinado e degolado.
Por ser considerado um dos grandes líderes da história do Brasil do Brasil, um símbolo de resistência negra na luta contra a escravidão, liberdade de culto, religião e prática da cultura africana no Brasil colonial, o dia 20 de novembro é lembrado em todo território nacional como o Dia da Consciência Negra.
Com base nesse contexto, o Rio de Janeiro não poderia deixar a data passar em vão e com isso, programou uma vasta agenda para lembrá-lo como o grande líder em busca de dignidade para o negro no Brasil.
As atividades começaram cedo com a participação de membros de movimentos negros e sociais, que depositaram flores e cantaram músicas que remetiam a trajetória do negro no Brasil, onde em seguida se deu a lavagem da estátua de Zumbi dos Palmares, localizada na Avenida Presidente Vargas no centro da cidade. A lavagem da estátua já é tradicional e conta com a participação de integrantes de diferentes segmentos de religiões de matrizes africanas. A festividade contou também com roda de capoeira.
De acordo com Luiz Eduardo Negrogun, Presidente do Conselho Estadual dos Direitos do Negro (Cedine) o evento enaltece a cultura e a ancestralidade do povo dos negros e fortalece a memória da cultura afro-brasileira, onde na verdade o que conta é a reflexão contra tudo que vem de contra a presença de uma etnia, num país onde a maioria é negra, como o racismo, que é muito forte no Brasil, e principalmente a intolerância religiosa devido a perseguição do povo de axé, povo de terreiro.
O evento contou ainda com a momentos culturais que como desfile de moda afro, show de músicas com cantores negros, apresentação de grupos folclóricos, rodas de conversa, feijoada, feira de artesanatos e moda afro e muito samba.
O famoso cortejo da Tia Ciata também participou das comemorações do dia da Consciência Negra. Sobre a direção de Gracy Mary Moreira (bisneta de tia Ciata), o cortejo sai todos os anos do pátio do Centro de Artes Calouste Gulbenkian, situado a Rua Benedito Hipólito, 125 – Praça Onze – Centro do Rio de Janeiro.
Segundo Gracy o cortejo é uma homenagem a grande tia Ciata pioneira da rodas de sambas, dos doces e dos ritos, da Praça Onze, do quintal de Pixinguinha, Donga, João da Baiana; grande matriarca negra e figura emblemática no enriquecimento e manutenção da cultura negra brasileira.O evento marca a importância de duas personalidades separados pelo tempo e unidos pelo Distrito Cultural da Praça Onze pela resistência étnica e cultural que é Zumbi dos Palmares e tia Ciata.
O cortejo conta com a presença da boneca da Tia Ciata feita em formato de uma baiana de sucata com materiais reaproveitáveis que simboliza a representatividade dessa negra de nome Hilária Batista de Almeida que seguiu consolidada como símbolo da resistência negra pós-abolição oriunda, também de seus quitutes e de sua determinação da prática de sua fé.
Se apresentaram no Cortejo da Tia Ciata: Filhos de Gandhi, Mestre Riko e a Fina batucada, Batuke da Ciata, Mestre Mauricio Soares da Nação Estrela brilhante de Recife, Lais Salgueiro do Maracutaia e brincantes de Maracatu do Rio de janeiro, Mestre Dionísio e a Escola de Mestre Sala e Porta Bandeira, Escola de Samba mirim Pimpolhos da Grande Rio, Lemi Ayó, Candombe da Pequena África e Gracy com os Remanescentes da Tia Ciata e Baianas tradicionais. O evento terminou com a Roda de Samba da Cabaça no pátio no Centro de Artes Calouste Gulbenkian.
E mais que nunca, quando o país se vê atacado por forças reacionárias da ultradireita em todo país e no Rio, de forma perversa, no estado e município, é hora de reforçar nossas raízes de luta e resistência.
Marluce Lopes
