Você tem medo do quê? (What a Wonderful World!)

Editorial da Edição 357 do Jornal Inverta

Aos poucos, no Brasil e no mundo, o caminho da humanidade vai se delineando outra vez para o objetivo do Comunismo, como sistema social capaz de retirá-la das amarras da miséria, do temor, insegurança e brutal violência do mundo imperial, dependente ou neocolonial do capitalismo. Os exemplos são claros, como a irrefutável imagem da espaçonave chinesa, indo ao espaço, mostrando a força da revolução socialista, em apenas 54 anos de existência. Em parte alguma do mundo, sob o sistema escravista, feudal ou capitalista, se viu um desenvolvimento humano semelhante! Alguns podem dizer: “é coisa de chinês”, “cultura milenar”, “paciência”, etc... Mas seria isto mesmo? Naturalmente, é comum se dizer que o ábaco (instrumento manual de soma ou calculadora manual) é o sistema primata do computador atual. Sem dúvida, reduzindo o computador a sua essência, ele não passa de uma máquina de calcular programável; mas entre os séculos XI e XII, época em que o continente chinês se abre ao mundo europeu apresentando sua pólvora, bússola, papel e ábaco, nem sequer sonhava-se com a impressão do circuito eletrônico no silício, ou seja, com a tecnologia dos chips modernos, e nem mesmo a revolução náutica dos séculos XIV, XV e XVI vislumbrou a navegação sob a cúpula do mar, ou seja, o céu (espaço), fora da Odisséia de Homero, protagonizada por Ulisses, ou da Teogonia Argonauta, na qual a Terra é um espaço onde Deuses do Olimpo realizam sua luta pelo poder (ou jogos) no universo Greco-Romano, já não pelas “Musas do Tejo”.

Mas, entre a mitologia greco-romana e a realidade do século XXI, a história humana se desenvolveu arrancando os homens das suas alegorias, conduzindo-os a um mundo arquitetado, planejado e construído; no curso sucessivo de modos produção, formações sociais e sistemas de valores complexos e variados. Da soma simples, pela computação manual no ábaco chinês à racionalidade cartesiana, desta até a relatividade de Einsten; das comunas primitivas e tiranias escravistas, feudais, ao mundo do capital e deste até a possibilidade de um mundo comunista - “onde o livre desenvolvimento de cada um é condição do livre desenvolvimento de todos”, os homens fizeram sua história e, muitas vezes, independente de sua vontade ou quando guiados por esta, trabalharam sob condições legadas pelo passado que os impediram de chegar ao ideal - a utopia, edificando um mundo contraditório e complexo. Os caminhos tortuosos e aprendizados amargos os conduziram a práticas condenáveis e/ou a atitudes ousadas e admiráveis. A humanidade, através de suas revoluções, saiu do sílex (material das Américas do qual foi feito o primeiro utensílio cortante) ao silício (material com o qual se faz o revolucionário chip eletrônico) e não escondeu o segredo deste progresso, como mostrou Marx, em O Capital, ao descrever as três fases da revolução industrial iniciada nos séculos XVII e XVIII e que continua nos dias atuais: a revolução na “máquina ferramenta”; a revolução na “máquina motriz”; e, finalmente, a revolução no “mecanismo de transmissão e direção da máquina ou sistema de máquina”.

É necessário relacionar nossa narrativa acima com o feito chinês de lançar sua primeira nave espacial tripulada, pois é uma relação quase indissolúvel entre o modo de produção social e estas conquistas tecnológicas, da terceira revolução no sistema de produção mundial. O fato é que dois dos três países que detém a tecnologia aeroespacial fizeram esta conquista sob o modo de produção socialista, ou mais precisamente, após a revolução socialista, enquanto o único país capitalista que detém esta tecnologia é o país mais poderoso do mundo, em termos de capital. E esta relação entre a terceira fase da revolução industrial e o modo de produção socialista não é arbitrária porque sem uma revolução no mecanismo de transmissão e direção da máquina, nem sequer se poderia pensar no lançamento de um foguete espacial, e muito menos ainda de espaçonave tripulada. Portanto, quando se volta ao mundo dos Argonautas e fala-se de cibernética, não se retoma de um ponto de vista discursivo, mas para caracterizar o quanto para a humanidade é possível e em que velocidade é possível, transitar do arado de burro ou boi, de um sistema feudal de produção até o sistema de chips (informática), a fissão nuclear (mecânica quântica) e a engenharia genética num modo de produção avançado sob as condições socialistas de produção.

A China, com seu feito, nós dá duas grandes lições. A primeira é que somente uma revolução socialista é capaz de arrancar o homem do obscurantismo feudal, das condições de fome absoluta e de submissão senhorial aos mandarins e potências imperiais (Japão, Inglaterra, França, Portugal, Estados Unidos, Rússia, etc.) e elevá-lo ao desenvolvimento, à condição de potência mundial e capaz de aplicar todas as conquistas tecnológicas ao bem estar do povo, abrindo assim, as condições materiais para a construção de um mundo mais igual, justo e realmente sem fronteiras, um mundo comunista. A segunda, é que não é possível para um país dependente, ou mesmo aspirante ao domínio imperial do capital, atingir tal condição sem a luta pela hegemonia mundial ou regional do sistema, isto é, sem uma nova partilha do mundo, o que quer dizer guerra; pois, somente nas condições de acumulação a que chegaram os EUA é possível desenvolver projetos desta magnitude. Não é necessário dizer o quanto hoje a humanidade é dependente desta tecnologia advinda da conquista espacial. Não falamos apenas de esferográficas e jogos de vídeo-games ou armações de óculos em fibra de carvão, falo até mesmo das conquistas aplicadas à medicina em lato sensu, como as operações a laser, câmeras bárias, engenharia genética e outras. Não é necessário repisar as conquistas da terceira fase da revolução industrial (informática), mas reafirmar que sua condição foram os centros de P&D oficiais dos Estados Socialistas, e que sem eles, talvez, grande parte destas conquistas não saíssem dos centros de P&D dos oligopólios e transnacionais imperialistas, que dominam os laboratórios farmacêuticos e as tecnologias de ponta no capitalismo, aplicando-as segundo seus interesses de lucros.

Portanto, um novo momento ímpar se abre para a humanidade, e este novo momento nos diz que é possível edificar uma outra realidade, construída com as próprias mãos e sabedoria; é possível outro destino social para a humanidade, um outro modo de produção, outra sociedade. Esta mensagem que nos dá a China é um braço estendido e um dedo apontando aos lutadores e revolucionários da Bolívia insurreta para uma outra direção fora do jugo imperialista, fora da dependência, dos extermínios e do massacre neoliberal, fora dos barões feudais e dos oligarcas burgueses; este caminho é o socialismo. Naturalmente, podemos divergir do caminho socialista da China, não concordar com suas particularidades e/ou desvios, mas não se pode negar que as conquistas da revolução socialista são o caminho para o desenvolvimento e a independência de fato para uma nova sociedade e para a realização da nossa “utopia”, a Sociedade Comunista.

Deste modo, um novo projétil foi ao ar, mas não era uma bala perdida a procura de alvo humano nas grandes metrópoles do capitalismo, seja Nova Iorque (EUA), Rio de Janeiro (Brasil), “La Paz” (Bolívia); o novo projétil é a nave Shenzhou 5; um foguete lançado de uma plataforma no Deserto de Gobi e que regressou à Terra, aterrissando no interior da Mongólia, a noroeste de Pequim. Ele, ao invés da morte, continha a vida de Yang Liwei, que nasceu em 1965, e era o principal astronauta da lista de 14 preparados para esta histórica tarefa. A sua missão durou 21 horas e a Shenzhou 5 percorreu 14 órbitas em volta da Terra. Por estes dias, ao voltarmos os olhos para o espaço sideral, como está fazendo grande parte do proletariado mundial, que não se espantem se entre as estrelas mais brilhantes encontrarmos o brilho de um olhar familiar e sorrindo, o olhar de Mao Tse Tung, e ao fundo a voz de Louis Armstrong a cantar: “What a Wonderful World”! (Que mundo maravilhoso!)

Salve 54 anos da Revolução Socialista Chinesa!
Salve Mao Tse Tung, Grande Timoneiro!
Todo êxito a Shenzhou 5 e ao astronauta Yang Liwei!


Rio de Janeiro, 16 de outubro de 2003 P. I. Bvilla / Pelo OC do PCML