Santrich e o futuro da paz na Colômbia

Na semana do dia 10 de novembro, cumpriram-se sete meses do sequestro de Jesús Santrich, líder do partido Força Alternativa Revolucionária do Comum (FARC) - outrora Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia-Exército do Povo (FARC-EP), onde foi membro de seu antigo Estado Maior Central (EMC), e integrante da comissão negociadora pela referida organização em Havana, assim como da Comissão de Acompanhamento, Implementação e Verificação do Acordo (CSIVI, por sua sigla em espanhol) -, por parte da promotoria colombiana, atendendo a uma solicitação de extradição emitida por um juiz de Nova Iorque que o acusa de narcotráfico.

Na semana do dia 10 de novembro, cumpriram-se sete meses do sequestro de Jesús Santrich, líder do partido Força Alternativa Revolucionária do Comum (FARC) - outrora Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia-Exército do Povo (FARC-EP), onde foi membro de seu antigo Estado Maior Central (EMC), e integrante da comissão negociadora pela referida organização em Havana, assim como da Comissão de Acompanhamento, Implementação e Verificação do Acordo (CSIVI, por sua sigla em espanhol) -, por parte da promotoria colombiana, atendendo a uma solicitação de extradição emitida por um juiz de Nova Iorque que o acusa de narcotráfico.

 

Para compreender a profunda ferida que este fato deixa no acordo de paz é importante destacar o perfil de Santrich no interior das FARC-EP, bem como o papel cumprido por ele no desenvolvimento dos acordos de paz tanto em Havana, como na Colômbia.

 

Seuxis Paucias Hernandez Solarte, que adquiriu como nome de guerra Jesús Santrich em homenagem a um líder estudantil da UP assassinado por órgãos de segurança do Estado colombiano, foi membro do Estado Maior das FARC. Antes de ingressar em suas fileiras, foi ativista estudantil e membro da Juventude Comunista Colombiana (Juco) enquanto estudava Direito e Licenciatura em Ciências Sociais, onde se graduou com Licenciatura em Educação, com especialidade em Ciências Sociais, somando a estes estudos posteriormente uma pós-graduação em História.

 

Por pressão e perseguição dos órgãos de segurança do Estado colombiano, toma a decisão de ingressar na frente 19 das FARC-EP, no Bloco Caribe. Durante sua militância na organização político-militar, foi encarregado do trabalho de comunicação e propaganda que desenvolveu com êxito através da implementação da estação bolivariana de rádio Voz da Resistência, que criou emissoras clandestinas em toda Colômbia.

 

Apesar de sofrer de um problema neuronal que vai deixando-o cego, suas destrezas o converteram em um dos comandantes mais destacados das FARC-EP. É músico, pintor, escritor, tem produção com grande talento em conto, poesia, e ensaio, com vários livros publicados. Jesús Santrich é considerado o cérebro dos acordos originais assinados em Havana, Cuba, e ao mesmo tempo o crítico mais sagaz e incisivo contra o governo colombiano durante o desenvolvimento destas jornadas, bem como na implementação do acordo.

 

A injusta prisão de Santrich significou um duro golpe para o futuro do acordo de paz, assim como para a unidade e organicidade interna do recentemente criado partido FARC. Por um lado, gerou um manto de desconfiança sobre a segurança jurídica por parte de um grande setor das FARC, composto por vários comandos médios e altos, como também em grande parte das bases que têm visto se dissolver as esperanças de uma efetiva implementação do acordo em matéria jurídica e material; dado que a Jurisdição Especial para a Paz (JEP), tribunal criado para julgar os “delitos” cometidos na ocasião e em razão do conflito social e armado, está sendo desmontada por via de reformas no congresso colombiano, dominado pelo partido Centro Democrático e pela Corte Constitucional.

O sequestro de Santrich, que foi um dos fatos políticos mais importantes contra o acordo, motivou a saída de Iván Marquez, segundo no comando das FARC, de uma das chamadas “zonas veredales” junto a Paisa, um dos guerreiros mais experientes e veterano das FARC-EP, odiado pelo poder político colombiano por ser um dos que combateram mais duramente as elites. As “zonas veredales” são regiões do país especificadas pelo Acordo de Paz em todo o território nacional e resultado da lei de anistia para que ex-prisioneiros e membros das FARC-EP que depuseram armas possam se reincorporar gradualmente à vida civil. A desconfiança de Iván Marquez se aprofundou quando unidades de contra-guerrilha do Batalhão nº 22 de alta montanha apareceram no local onde eles se encontravam; tendo sido avisados previamente haviam se retirado da zona veredal para lugar desconhecido.

 

Junto com Iván Marquez, um grupo de oito ex-comandantes se retiraram de suas zonas veredades para outros territórios e assinam comunicados conjuntamente com ele com duras críticas ao acordo de paz. A última delas foi uma carta assinada por vários comandantes, entre eles Iván Marquez, onde se enumera os esforços realizados por este setor das FARC para manter vivo o acordo e os compromissos com a paz e recorda ao governo todos os descumprimentos na implementação, entre estes a injusta e infame detenção de Santrich. Sobre este ponto, Iván e os demais comandantes alegam que temas como a insegurança jurídica e as substanciais modificações feitas no texto original de Havana “são atos que empurraram a esperança tecida em Havana ao taciturno abismo dos processos de paz frustrados”; o mais preocupante na posição de Iván e seu grupo é a afirmação de que o processo de paz fracassou, porque esta afirmação pode determinar um ponto de inflexão ao interior do partido Força Alternativa Revolucionária do Comum, gerando um cenário onde exista o rearmamento das FARC.

 

Não cabe dúvidas então ao enorme significado que teve a injusta prisão de Santrich, assim como são claros os descumprimentos do governo colombiano em matéria de implementação e segurança jurídica, aprofundando a desconfiança sobre a implementação do acordo, jogando por terra os avanços no sentido de ir reduzindo de forma gradativa a guerra. O tão apregoado “pós-conflito” tem sido na verdade uma fase distinta do conflito, marcada pelo aumento das estruturas armadas contra-insurgentes, máfias e paramilitares, e por um retorno à reorganização da insurgência armada revolucionária representada em um setor das FARC, que terá que disputar o legado do lendário Manuel Marulanda Vélez com a direção de um partido que defende até com os dentes sua inclusão no establishment.

 

Enquanto tudo isto acontece, a promotoria colombiana mantém Santrich preso sem nenhuma prova e violando todos os princípios do devido processo, como uma espécie de troféu de uma guerra sobreposta contra o setor mais radical das FARC, já que Santrih significou a voz mais forte de um setor que grita ao governo com fortes argumentos sobre sua responsabilidade nas demoras, atrasos, descumprimentos, nos assassinatos de ex-combatentes, em geral, no fracasso da implementação do acordo de paz com as FARC e nos encontros intermitentes com o ELN.

 

Ulkira Borges