O teatro e o vigor do Grupo Resistência CTI (Centro de Teatro Improvisarte)

O INVERTA entrevista o Grupo teatral Resistência CTI, criado em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense por estudantes secundaristas. O teatro uniu os jovens de bairros, que anteriormente estavam separados para desavenças que nada tinham a ver com eles, mas o teatro e a música uniu Juventude no CTI.

INV – Como surgiu a ideia de construir o grupo teatral?

GRCTI - O grupo teatral nasce, na verdade, dentro do Colégio Estadual Nelson Rodrigues. Na época, parte da escola estava dividida pela influência de duas gangues que representavam facções maiores - o pessoal que vinha da Tenda, que na época estava sob o poder do Comando Vermelho (CV), e os estudantes que moravam na área do Barroso, que estava sob o comando do ADA. Então, dentro da escola a gente acabou tendo uma demonstração do que era a violência urbana dentro de Nova Iguaçu, pois os estudantes representavam essa “luta”, essa rivalidade dentro da escola. E haviam muitas gangues pequenas, de área de residência. O pessoal que morava no Barroso odiava o pessoal que morava na Tenda, mas não tinha muita noção do porquê, ninguém entendia de onde surgia o conflito. Nesse período, o Vagner, que era o Orientador Cultural da escola, queria que as pessoas entendessem que elas não precisavam reproduzir uma luta que não era delas, que aquele pertencimento, aquele ódio, não vinha deles. Naquele momento eu estava montando um recital de poesia que falava sobre transformação e o Vagner então propôs que eu começasse uma turma de teatro conscientizador dentro da escola.

INV – Vocês mesmos organizaram sua resistência cultural à violência que de fora atingia e influenciava os estudantes dentro da escola?

GRCTI – Sim, nós transformamos o departamento de odontologia, que já estava abandonado há cinco anos. O Vagner me deu a chave e disse que se conseguíssemos consertar a sala seria a sede para o nosso grupo, e assim começamos com seis estudantes. Eu estava no terceiro ano e os outros cinco rapazes também vinham da mesma sala, eram selecionados pela direção os alunos considerados os mais violentos da escola. A gente começou o trabalho e logo no segundo mês houve uma transformação muito grande nos estudantes. Começamos a perceber que para se fazer teatro precisa de coletividade e a coletividade esbarra na imposição do ódio, ou seja, se você odeia alguém, você não consegue ser coletivo com essa pessoa. Então, quando eles começaram a narrar suas trajetórias, aí eu trabalhava com uma linha de teatro que depois foi batizada de “tirar a máscara diante do espelho”. Eram exercícios de psicodrama onde cada ator contava a sua vivência, todas as opressões que tinha passado, todas as importâncias diante de um espelho, usando as máscaras do teatro clássico para representar cada momento de suas vidas. Assim o pessoal que vinha do ADA ouvia as histórias do pessoal do Comando Vermelho e começava a se reconhecer. Cada vez que um se reconhecia na narrativa do outro, acendia uma vela. Então iam acendendo e, por fim, todas as velas estavam acesas, desta forma começamos a ver que apesar deles declararem ódio e diferenças entre si, eles tinham as mesmas histórias, a pobreza estava ali, o abandono dos pais estava ali. A falta de acesso aos meios culturais, à educação, a falta de local de expressão, às vezes, a falta de palavras para se expressar que era mais latente para todo mundo. Era a falta de palavras para construir uma ideia. E quando nos faltam palavras para elaborar o discurso nós tendemos a reproduzir o discurso alheio, porque é fácil não ter que pensar nele, eu só posso ingerir.

Assim começamos a fazer o trabalho, eu e os seis estudantes começamos a construir uma grande parceria, e se juntou um outro grupo de amigos, que eram da escola, que queriam fazer teatro.

INV – Você comentou que foi um período de muita luta para consolidar o trabalho do grupo, que claramente mostra como o teatro, a arte coletiva, une as pessoas.

GRCTI – Nós enfrentávamos uma barreira muito grande, eu estudava de manhã e dava aula à tarde. E tinha um pessoal que estudava durante a tarde que batucava na porta, uma porta de metal, para evitar que a gente ensaiasse, porque a gente precisava de concentração, eles iam para porta e ficavam batucando para impedir o ensaio de acontecer. Dentro do teatro, querendo construir coisas, começamos a nos deparar com a irritação que isso provocava. Teve um dia que a gente decidiu armar uma cilada para esse grupo. Eles foram bater na porta e já estávamos atrás dela esperando este momento. Quando iam bater, a gente abriu a porta. Aí eles deram de cara com a gente, nesse estranhamento de olhar a pessoa que você está incomodando sem saber o porquê e, ao invés da gente reagir com violência, com ódio declarado, convidamos eles para fazer a percussão da peça, pois tínhamos acabado de receber da escola alguns instrumentos. Essa galera foi desafiada no seu ego. E trabalhamos com eles o seguinte: bater na porta é fácil, mas entrar e botar a raiva no tambor é difícil, e eles foram e fizeram um som.

INV – Foi de grande importância essa experiência musical do CTI com a música?

GRCTI - Foi a primeira vez que o CTI, que na época era Centro de Teatro Improvisarte, teve sua primeira parceria, que foi o grupo de percussão. O CTI tinha a tendência a não usar textos, sempre estávamos improvisando as histórias de acordo com a vivência dos atores. No final desse ano fizemos uma apresentação de poemas de poetas iguaçuanos e com ajuda do grupo de percussão. O CTI, ao final da jornada, formou cinco atores e mais quarenta percussionistas, porque o grupo de percussão atraia quem queria batucar e começou a entrar para os ensaios.

INV – Como a existência do teatro mexeu com a rotina da escola?

GRCTI – De várias formas. Por exemplo, alguns alunos que eram considerados problemas para o turno da tarde começaram a ver o teatro como forma de fugir da aula. Eles podiam entrar na sala de teatro e dizer que estavam trabalhando e não iam para a aula. Era o truque. Só que tinha um professor muito bom, o professor José, de Português, que decidiu que ia dar apoio e descia com a turma, e todo mundo começou a colaborar.

No final, a escola inteira parou para que nós fizéssemos a nossa apresentação. O auditório tinha 170 lugares e colocamos 320 pessoas, o auditório ficou lotado. Todos do grupo de teatro criaram as suas próprias marcações, direção e os poemas foram selecionados pela direção da escola. No final de um ano, entre os piores alunos, os considerados mais violentos, tínhamos três deles no quadro de honra da escola.

Inclusive, um dos alunos, que tinha tatuado nas costas CV, é o meu grande orgulho, porque ele se formou em Pedagogia. Ele era militante do Comando Vermelho e começamos a estudar o porquê desse gosto pela luta armada, pela necessidade de revolução violenta, o que isso representava? Ao fim, ele começou a se debater com as regras do Estado, a confrontação sistemática, e chegou a uma conclusão. Como diz Sócrates: “ele pariu seu próprio conhecimento de que a revolução não seria alguém com uma arma na mão atirando contra pessoas. Que se ele queria revolucionar, poderia revolucionar primeiro a si e seu modo de olhar o mundo. Hoje ele é pedagogo e trabalha em Comendador Soares.

INV - Como se deu o encontro do grupo com a UNIRIO?

GRCTI - Em 2015 fui aceito na universidade e tivemos a nossa primeira apresentação lá. Foi Libertary, que era uma peça para ser o fim do grupo. Estamos há muito tempo nesta ocupação, é um posto de saúde, onde a Marina concordou, mas ela disse que só seria nosso se a gente invadisse e produzisse, se o espaço fosse tomado na luta! Fizemos três peças antes do Libertary. Juntamos duas esquetes que estavam sendo ensaiadas com o Libertary, eram as opressões que as crianças sofriam transformadas em música, era um musical sobre a revolução.

Nós levamos o Libertary para dentro da UNIRIO a convite de Marina Henrique, que é uma professora fora do comum, foi ela quem criou o Centro de Artes da Maré (CAM) e que mantém a Arena Dicró na Penha e outros grupos de teatro marginal, e tudo ela faz porque acredita realmente numa revolução pedagógica. Ela dá aulas de teatro em comunidades e, em uma dessas ocasiões, fomos convidados a falar das nossas experimentações teatrais caso fossem meio urbanas e meio de opressão, e eu levei o Resistência para se apresentar lá.

Quando entramos na escola, na academia, foi interessante porque as crianças tiveram a chance de assistir antes da apresentação uma aula de Metodologia do Teatro 2. O professor, um pouco antes de entrarem, conversou com a turma e pediu que nós abaixássemos o nível do nosso debate para que fosse fácil para as crianças compreenderem o que estávamos falando. Aí, meus alunos entraram e quando a gente se sentou na roda o que aconteceu foi o oposto do que ele esperava.

A Larissa começou a fazer perguntas muito mirabolantes sobre o tema que estávamos estudando e os alunos da academia não conseguiam debater com eles, porque tínhamos muito material, muita vivência, e começamos a trocar, a jogar limpo na mesa e o professor foi vendo que o nosso conhecimento “não é engessado, na academia nós não temos conhecimento para trocar”. A nossa experiência de palco e nossas vivências foram abrindo muitas portas. Nós apresentamos Libertary no encontro na sala da professora Marina e foi magnífico! Ela nos apoiou muito, estava assistindo e saiu em prantos, e isso seria o final do grupo, porém, foi a construção do começo de um caminhar.

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