Estados Unidos encolhem

Ainda que o declínio dos Estados Unidos, desde a crise de 2008, seja mais do que evidente, o governo Trump tem conseguido acelerar este processo de queda, não só interna, como externamente.

Ainda que o declínio dos Estados Unidos, desde a crise de 2008, seja mais do que evidente, o governo Trump tem conseguido acelerar este processo de queda, não só interna, como externamente. Em âmbito doméstico, o escândalo recente da prisão de quase duas mil crianças, filhos e filhas de imigrantes, em McAllen, Texas, chocou o mundo, num espetáculo que remeteu aos campos de concentração de Treblinka e Dachau. Quanto à política externa, o distanciamento do país em relação aos seus tradicionais aliados do Atlântico Norte, evidenciado na 44ª cúpula do G-7 em Quebec, Canadá, em contraste com os expressivos avanços logrados nas cúpulas da Organização de Cooperação de Xangai, em Qingdao, China, e de Singapura, revela que a ordem internacional tem se voltado cada vez mais para a órbita sino-russa.

Internamente, o país viu sua dívida dobrar em dez anos: de US$10 trilhões, em 2008, para US$ 21,19 trilhões, na atualidade. O montante já superou o PIB, avaliado em US$ 20,145 trilhões. Numa franca emulação às medidas de Ronald Reagan, Trump propôs, no fim de 2017, um corte fiscal considerável, US$ 1,5 trilhão em dois anos, a partir da redução dos impostos pagos pelas grandes corporações de 35% para 21%. Além do mais, no orçamento proposto em fevereiro para 2019, reduziu investimentos em áreas como educação e trabalho para aumentar no setor de defesa. Diante do crescimento econômico da União Europeia e o estímulo à economia chinesa, o euro e o yuan se fortaleceram diante do dólar. Ao lado da política econômica neoliberal e belicista, a retórica xenofóbica anti-imigração não somente se intensificou, como se concretizou. Em março de 2017, Trump assinou uma ordem migratória que vetava a entrada de migrantes/refugiados do Irã, Líbia, Somália, Sudão, Síria e Iêmen, sob pretexto de terrorismo, além de congelar, por seis meses, os fundos destinados ao programa de admissão de refugiados. Em abril, o procurador-geral do país, Jeff Sessions, anunciaria uma política de “tolerância zero” contra os imigrantes sem documentos, ameaçando “se você não quiser ser separado de sua criança, não a traga pela fronteira ilegalmente”.

Internacionalmente, deve-se registrar que, sob pretexto de “preconceito crônico contra Israel”, os Estados Unidos se retiraram do Conselho de Direitos Humanos da ONU em junho. Aliás, a aproximação da potência norte-americana com as duas principais ditaduras do Oriente Médio, Israel e Arábia Saudita, durante o governo Trump, levou a um enfraquecimento da política externa estadunidense na região e no mundo, principalmente quando o país anunciou sua retirada do acordo nuclear com o Irã, em maio. Importantes figuras da área diplomática do país, como o secretário de Estado Rex Tillerson, o conselheiro de segurança nacional HR McMaster e o secretário de Defesa James Mattis, chegaram a aconselhá-lo a não tomar tal atitude, mas, destes, apenas Mattis continua no seu cargo e sua influência tem se reduzido cada vez mais (os outros foram substituídos respectivamente pelos neoconservadores Mike Pompeo e John Bolton). A medida, além de empurrar Teerã para a esfera euro-asiática, afastou Washington de seus parceiros na UE, que reafirmaram sua intenção de prosseguir com o acordo. Com efeito, depois da Cúpula do G-7 no Canadá, as relações entre os Estados Unidos e a União Europeia experimentaram um novo retrocesso, quando Trump, além de chamar o primeiro-ministro canadense de “desonesto e fraco” em sua diplomacia via Twitter, anunciou a imposição de pesadas tarifas sobre o aço e o alumínio. No dia 25 de junho, capitaneados pela França, nove países europeus anunciaram a chamada Iniciativa de Intervenção Europeia, uma aliança de defesa continental sem qualquer ligação com a OTAN. Por fim, diante da grande projeção chinesa na Eurásia com seu plano da Nova Rota da Seda, o fortalecimento da Organização de Cooperação de Xangai com a adesão de Paquistão e Índia e a reaproximação entre as Coreias, o presidente Donald Trump teve que recuar em sua retórica agressiva contra a Coreia Popular e encontrou-se com o líder Kim Jong-Un em Singapura.

O declínio dos Estados Unidos verificado no governo Trump, entretanto, não pode ser atribuído exclusivamente à política errática e de curto prazo da atual administração. Ele está relacionado fundamentalmente com a atual crise vivida pelo modo de produção capitalista. Como já foi bem esboçado pelo Jornal Inverta, esta tem um caráter orgânico, pois o tempo socialmente necessário deixou de ser uma forma de mensuração de valor, devido ao aumento do capital constante em detrimento do variável na composição orgânica, assim sendo, vive-se, portanto, uma erosão do próprio paradigma do valor. No epicentro do capitalismo financeiro mundial, isso tem sido cada vez mais fatal.

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