Carnaval 2018: o golpe, o Rio universal e a resistência

Independente do resultado do carnaval no Rio, alguns sambas-enredo contestaram com maestria a política na cidade, o golpe de Estado, o racismo, o machismo e criticaram a perseguição aos cultos de matrizes africanas, . Um deles foi o da G.R.E.S Paraíso do Tuiuti, de São Cristóvão, bairro operário da cidade, que questionou: Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?

 

Há quem diga, pow, no meio de um golpe de Estado falar de carnaval? Mas quem disse que carnaval, cultura popular, não é política também, sujeita aos desmandos das forças que estão em luta pelo poder de controlar essa massa brasileira, de todas as caras e origens do Brasil e ousa-se dizer de várias partes do mundo? E por que o carnaval do Rio? Mas pera lá, como dissociar o carnaval da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, nomeada de cidade maravilhosa para uns, e como disse Fernanda Abreu em Rio 40 Graus: O Rio é uma cidade de cidades misturadas/O Rio é uma cidade de cidades camufladas/Com governos misturados, camuflados, paralelos/Sorrateiros ocultando comandos?

 

O carnaval do Rio, em um país obscurecido por um golpe de Estado, em um estado que beira à falência, ou pelo menos assim é aterrorizado seu povo, e com um prefeito que se coloca como um dos chefes do comando divino – do próprio pai eterno – do poderoso chefão celestial – e não em seus momentos de glória gospel, de criação do jardim celestial das testemunhas com leão e ovelha brincando de pique-esconde, o boss do prefeito é tolerância zero, é o “nunca será” do BOPE do Nascimento, é o mal-humorado e assassino do dilúvio, bem aventurança é o c… do Zé Pequeno, é o fiscal da punição de Sodoma e Gomorra.

 

Eleito, em sua maioria, com o apoio econômico, ideológico da corporação que representa, a Universal; com o cabresto medieval sobre os seus membros e pelo terrorismo midiático, na esteira do golpe de Estado e da onda moralizante fascista, secou a fonte das corporações que lucram com o carnaval, aqui não as defendemos, pois as mesmas – em sua maiora – advém dos tempos da ditadura, inclusive tendo alguns patronos financiado-as sem poupar despesas; entretanto, atingiu uma das válvulas de escape do povo carioca, o seu carnaval, mesmo já tendo sido afastado de suas agremiações por questões econômicas, ainda assim vive o carnaval, inclusive, vibrando e até sobrevivendo do carnaval. Crivella cortou em 2018 os 4 milhões necessários, segundo os organizadores do evento, para o ensaio técnico das escolas, quando o povo carioca pode assistir sem pagar ingressos, o samba de sua escola na avenida.

 

Nesta edição, destacam-se aqui quatro sambas de responsa que contestam a política na cidade, o golpe de Estado (dizem que virá o Temer de vampiro), que criticam a perseguição aos cultos de matrizes africanas, o racismo, o machismo e por aí vai.

 

O da G.R.E.S Paraíso do Tuiuti, de São Cristóvão, bairro operário da cidade, que questiona: Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão? E critica o mercado e a escravidão capitalista com “Irmão de olho claro ou da Guiné/Qual será o seu valor? Pobre artigo de mercado/Senhor, eu não tenho a sua fé e nem tenho a sua cor/Tenho sangue avermelhado.

 

O samba enredo 2018 da Mangueira manda a letra logo ao apocalíptico desintegrado do prefeito em “Com Dinheiro Ou Sem Dinheiro, Eu Brinco” que: “Chegou a hora de mudar/Erguer a bandeira do samba/Vem a luz à consciência/Que ilumina a resistência dessa gente bamba/Pergunte aos seus ancestrais/Dos antigos carnavais, nossa raça costumeira/Outrora marginalizado já usei cetim barato/Pra desfilar na Mangueira (…) Se faltar fantasia alegria há de sobrar/Bate na lata pro povo sambar/Eu sou Mangueira meu senhor, não me leve a mal/Pecado é não brincar o carnaval!”

 

A Beija Flor de Nilópolis, uma das representantes da Baixada Fluminense traz “Monstro É Aquele Que Não Sabe Amar (Os Filhos Abandonados da Pátria Que Os Pariu)” e desmistifica que: “Ganância veste terno e gravata/Onde a esperança sucumbiu/Vejo a liberdade aprisionada/Teu livro eu não sei ler, Brasil!/Mas o samba faz essa dor dentro do peito ir embora/Feito um arrastão de alegria e emoção o pranto rola/Meu canto é resistência/No ecoar de um tambor/Vêm ver brilhar/Mais um menino que você abandonou”.

 

Em mais um de seus sambas-enredo que enaltece a origem africana do povo brasileiro e carioca, destaca-se mais uma vez em 2018. Com “Senhoras do Ventre do Mundo” exalta: “É mãe, é mulher, a mão guardiã/Calor que afaga, poder que assola/No Vale do Nilo, a luz da manhã/A filha de Zambi nas terras de Angola/Guerreira feiticeira general contra o invasor/A dona dos saberes confirmando seu valor”.

 

E nesse perrengue, apesar de tudo, acontece o Carnaval 2018 no dia 13 de fevereiro. E a boa surpresa são alguns sambas muito bons em suas letras que prometem levantar a avenida e levar à uma certa catarse momentânea o povo que vive no Rio e que não tá aguentando mais de tanta pancada em cima, votou na mulher, venceu a eleição, golpearam no majoritário, retiraram a presidenta, no estado atura o Pezão, e ainda tem que viver sob a chibata do Jericó do Crivella. Rapaz, pega leve com o Rio, não se esquece do Wilson Neves, em “O dia que o morro descer e não for carnaval”, quando ele avisa: “Não tem órgão oficial, nem governo, nem Liga/nem autoridade que compre essa briga/ninguém sabe a força desse pessoal/melhor é o Poder devolver a esse povo a alegria/senão todo mundo vai sambar no dia/em que o morro descer e não for carnaval”.

 

Almeida Rodrigues

 

G.R.E.S Paraíso do Tuiuti

 

Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?

 

Irmão de olho claro ou da Guiné

Qual será o seu valor? Pobre artigo de mercado

Senhor, eu não tenho a sua fé e nem tenho a sua cor

Tenho sangue avermelhado

O mesmo que escorre da ferida

Mostra que a vida se lamenta por nós dois

Mas falta em seu peito um coração

Ao me dar a escravidão e um prato de feijão com arroz

 

Eu fui mandiga, cambinda, haussá

Fui um Rei Egbá preso na corrente

Sofri nos braços de um capataz

Morri nos canaviais onde se plantava gente

 

Ê Calunga, ê! Ê Calunga!

Preto velho me contou, preto velho me contou

Onde mora a senhora liberdade

Não tem ferro nem feitor

 

Amparo do Rosário ao negro benedito

Um grito feito pele do tambor

Deu no noticiário, com lágrimas escrito

Um rito, uma luta, um homem de cor

 

E assim quando a lei foi assinada

Uma lua atordoada assistiu fogos no céu

Áurea feito o ouro da bandeira

Fui rezar na cachoeira contra bondade cruel

 

Meu Deus! Meu Deus!

Se eu chorar não leve a mal

Pela luz do candeeiro

Liberte o cativeiro social

 

Não sou escravo de nenhum senhor

Meu Paraíso é meu bastião

Meu Tuiuti o quilombo da favela

É sentinela da libertação

 

 

G.R.E.S. Estação Primeira de Mangueira

 

Com Dinheiro Ou Sem Dinheiro, Eu Brinco

 

Chegou a hora de mudar

Erguer a bandeira do samba

Vem a luz à consciência

Que ilumina a resistência dessa gente bamba

Pergunte aos seus ancestrais

Dos antigos carnavais, nossa raça costumeira

 

Outrora marginalizado já usei cetim barato

Pra desfilar na Mangueira

 

A minha escola de vida é um botequim

Com garfo e prato eu faço meu tamborim

Firmo na palma da mão, cantando laiálaiá

Sou mestre-sala na arte de improvisar

 

Ôôô somos a voz do povo

Embarque nesse cordão

Pra ser feliz de novo

Vem como pode no meio da multidão

 

Não, não liga não!

Que a minha festa é sem pudor e sem pena

Volta a emoção

Pouco me importam o brilho e a renda

Vem pode chegar

Que a rua é nossa mas é por direito

Vem vadiar por opção, derrubar esse portão, resgatar nosso respeito

O morro desnudo e sem vaidade

Sambando na cara da sociedade

Levanta o tapete e sacode a poeira

Pois ninguém vai calar a estação primeira

 

Se faltar fantasia alegria há de sobrar

Bate na lata pro povo sambar

 

Eu sou Mangueira meu senhor, não me leve a mal

Pecado é não brincar o carnaval!

 

 

G.R.E.S. Beija-Flor de Nilópolis (RJ)

 

Monstro É Aquele Que Não Sabe Amar (Os Filhos Abandonados da Pátria Que Os Pariu)

 

Sou eu…
Espelho da lendária criatura
Um mostro…
Carente de amor e de ternura
O alvo na mira do desprezo e da segregação
Do pai que renegou a criação
Refém da intolerância dessa gente
Retalhos do meu próprio criador
Julgado pela força da ambição
Sigo carregando a minha cruz
A procura de uma luz, a salvação!

 

Estenda a mão meu senhor
Pois não entendo tua fé
Se ofereces com amor
Me alimento de axé
Me chamas tanto de irmão
E me abandonas ao léu
Troca um pedaço de pão
Por um pedaço de céu

 

Ganância veste terno e gravata
Onde a esperança sucumbiu
Vejo a liberdade aprisionada
Teu livro eu não sei ler, Brasil!
Mas o samba faz essa dor dentro do peito ir embora
Feito um arrastão de alegria e emoção o pranto rola
Meu canto é resistência
No ecoar de um tambor
Vêm ver brilhar
Mais um menino que você abandonou

 

Oh pátria amada, por onde andarás?
Seus filhos já não aguentam mais!
Você que não soube cuidar
Você que negou o amor
Vem aprender na Beija-Flor

 

Salgueiro

 

Senhoras do Ventre do Mundo

 

Senhoras do ventre do mundo inteiro

A luz no caminho do meu Salgueiro

A me guiar, vermelha inspiração

Faz misturar ao branco nesse chão

Na força do seu ritual sagrado

Riqueza ancestral

Deusa raiz africana

Bendita ela é e traz no axé um canto de amor

Magia pra quem tem fé

Na gira que me criou

 

É mãe, é mulher, a mão guardiã

Calor que afaga, poder que assola

No Vale do Nilo, a luz da manhã

A filha de Zambi nas terras de Angola

 

Guerreira feiticeira general contra o invasor

A dona dos saberes confirmando seu valor

 

Ecoou no Quariterê

O sangue é malê em São Salvador

 

Oh matriarca desse cafundó

A preta que me faz um cafuné

Ama de leite do senhor

A tia que me ensinou a comer doce na colher

A benção mãe baiana rezadeira

Em minha vida seu legado de amor

Liberdade é resistência

E a luz da consciência

A alma não tem cor

 

Firma o tambor pra rainha do terreiro

É negritude, Salgueiro

Herança que vem de lá

Na ginga que faz esse povo sambar