Os OGMs e a saúde humana

Uma vez que a qualidade da comida está diretamente ligada à saúde humana, a engenharia genética de alimentos torna-se um ponto chave nos debates em torno da questão; mas a transferência de genes entre espécies raramente ocorre na natureza e as consequências dessa transferência a longo prazo são imprevisíveis.

Uma vez que a qualidade da comida está diretamente ligada à saúde humana, a engenharia genética de alimentos torna-se um ponto chave nos debates em torno da questão; mas a transferência de genes entre espécies raramente ocorre na natureza e as consequências dessa transferência a longo prazo são imprevisíveis.

Em torno de 8% da população mundial tem alergia a proteínas contidas na soja (Soya Alergies in York Lab Magazine, 03/99). A introdução de genes externos no código genético das plantas pode vir a desencadear a produção de novas proteínas. Ao se introduzir plantas transgênicas na alimentação humana, direta ou indiretamente, estamos ingerindo as proteínas fabricadas por estas plantas, sejam elas já conhecidas ou sintetizadas a partir da introdução genética. Não existe no mundo, ainda, nenhum grupo de monitoramento deste tipo de procedimento.

O laboratório de York, no Reino Unido, constatou que as alergias à soja aumentaram cerca de 50% naquele país, onde o consumo de alimentos geneticamente modificados é bastante comum. Este tipo de resultado não é surpreendente, uma vez que a soja é o alimento mais associado à engenharia genética. Sabe-se que a composição de uma soja transgênica e de uma orgânica pode diferir em até 74%; o que torna mais difícil a análise mais completa sobre os impactos desses novos organismos é que muitas vezes suas consequências só podem ser sentidas a médio e longo prazo.

A Associação Médica Britânica (BMA) pediu, recentemente, a moratória por tempo indeterminado para a liberação dos alimentos transgênicos (British Medical Association-The Impact of Genetic Mofification on Agriculture, Food ans Health, London,UK, May, 1999). O presidente da BMA, William Ascher, afirma serem necessárias mais pesquisas relacionadas com o impacto sobre a saúde dos consumidores e o meio ambiente e pediu a regulamentação e a fiscalização rigorosa das colheitas e da industrialização. A BMA divulgou uma lista com 19 recomendações, e entre elas a revisão do Acordo Mundial de Comércio para garantir que os governos – e não as empresas – se responsabilizem pelas importações dos transgênicos (alimentos e sementes). No Reino Unido, os alimentos transgênicos são popularmente conhecidos como “Frankenstein food”.

O cientista britânico Arnold Putztai recebeu o apoio de mais de vinte cientistas de todo o mundo por ter sido expulso do instituto de pesquisa no qual trabalhava. Seu experimento consistia em alimentar ratos com batatas transgênicas. Putztai constatou que o cérebro dos animais diminuíram de tamanho e suas resistências a doenças foram extremamente afetadas. O pesquisador não chegou a terminar seus estudos, mas suas conclusões até então deixam uma mensagem muito clara: é necessário adotar uma política de precaução e pesquisar muito mais para se conhecer os riscos e possíveis benefícios dos alimentos geneticamente modificados.

Todos os países da União Europeia decretaram uma moratória para a liberação de novos organismos geneticamente modificados. Os consumidores europeus são majoritariamente contra (92%) e por isso várias redes de supermercados estão adotando políticas contra os transgênicos na Europa.

Todos os alimentos importados dos EUA e da Argentina que tenham algum ingrediente derivado de soja, milho ou batata já estão contaminados de  transgênicos (cabe lembrar que os derivados da soja estão presentes em 70% dos alimentos que consumimos, como massas, pães, molhos, etc). Alguns exemplos de alimentos que contêm como matéria-prima produtos geneticamente modificados: Batata Pringles, sorvete Häagen-Dazs, chocolate M&M, etc. (Marina Paoli –Greenpeace Brasil).
Os riscos dos transgênicos para a saúde são inúmeros: aumento das alergias, desenvolvimento de resistência bacteriana com a consequente redução da eficácia de remédios à base de antibióticos e potencialização dos efeitos de substâncias tóxicas: muitas plantas possuem substâncias tóxicas naturais para se defenderem de seus inimigos naturais, mas, se manipuladas geneticamente, os níveis dessas toxinas podem aumentar. Além disso, um surpreendente aumento de resíduos de agrotóxicos, pois alguns dos produtos transgênicos têm como característica tornarem-se resistentes aos efeitos dos agrotóxicos (como a soja RR), o que permite que seja aplicado mais veneno (agrotóxico) na plantação, cujos resíduos permanecerão nos alimentos e poluirão os rios e o solo.

Ninguém pode ser contra os avanços científico-tecnológicos, mas nós, consumidores, temos o direito a ter informações absolutamente transparentes sobre o que estamos consumindo.


Valdir Izidoro Silveira Engenheiro agrônomo e jornalista.

Especialista em Biologia do Solo e

Mestre em Tecnologia de Alimentos pela UFPR.

Membro do CEPPES.