Política de Trump quer recrudescer bloqueio genocida contra Cuba

O INVERTA entrevista, com exclusividade, o embaixador sr. Rolando Gomez, Encarregado de Negócios da Embaixada de Cuba no Brasil, sobre o bloqueio imposto ao país pelo governo dos EUA há mais de cinco décadas, o seu recrudescimento após a eleição de Donald Trump à Casa Branca e, especialmente, sobre a recente expulsão de 15 diplomatas da embaixada cubana em Washington em represália, segundo a assessoria da presidência de Trump, aos supostos “ataques acústicos” que teriam sofrido diplomatas estadunidenses atuantes na maior das Antilhas.

INV - Sobre esse recente ataque de Trump às relações diplomáticas entre EUA e Cuba, sob pretexto de que Cuba estaria se utilizando de armas “acústicas” para causar danos aos diplomatas estadunidenses, como o governo de Cuba recebeu essa medida e como pretende se defender dessas acusações nos organismos internacionais?

RG - Nossa posição sobre este assunto ficou claramente estabelecida em 20 de setembro, quando diante do plenário da Assembleia Geral das Nações Unidas nosso chanceler, Bruno Rodríguez, apresentou uma contundente denúncia e assegurou categoricamente que Cuba não tem nenhuma responsabilidade diante de tão absurda acusação. Cuba jamais perpetrou nem perpetrará ações desta natureza, não permite e nem permitirá que seu território seja utilizado por terceiros com esse propósito, e declarou que: “Até o momento não há evidências que confirmem as causas e a origem dos problemas de saúde informados pelos diplomatas estadunidenses e seus familiares”.

Nosso chanceler também solicitou a cooperação efetiva das autoridades estadunidenses para o esclarecimento deste assunto. Não obstante, nove dias mais tarde, o presidente dos Estados Unidos, consumava sua ameaça de retirar seus funcionários diplomáticos em Havana sob o pretexto de que os transtornos auditivos sofridos tinham sido produto de um suposto ataque deliberado dos serviços secretos cubanos e, como medida complementar, em 3 de outubro expulsou 15 diplomatas cubanos designados em Washington.

A investigação sobre o suposto ataque acústico continua em curso e os especialistas cubanos levam em consideração os dados técnicos fornecidos pelos EUA.

INV - Como está o bloqueio hoje? Que avanços reais existiram durante as conversas diplomáticas com o então governo Obama?

RG - O bloqueio contra Cuba continua vigente e aplicado com todo rigor. Tem-se recrudescido em suas dimensões financeiras e extraterritoriais, condição que vinha agudizando-se desde a administração do presidente Barack Obama, e que se manifestou na imposição de multas a companhias estrangeiras que têm relações comerciais com Cuba, na rejeição ou negativa de bancos e instituições financeiras internacionais a realizarem operações com a ilha pelo temor de serem multados, bem como na perseguição das transações financeiras internacionais cubanas.

Apesar do anúncio realizado pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos em 15 de março de 2016, de permitir a Cuba utilizar o dólar estadunidense em suas transações internacionais e que bancos estadunidenses oferecessem créditos aos importadores cubanos para adquirir produtos estadunidenses autorizados, até hoje Cuba não pode realizar nenhuma operação internacional de envergadura nesta moeda.

Os danos acumulados pelo bloqueio durante quase seis décadas de aplicação atingem a cifra de 822.280 milhões de dólares, levando em conta a depreciação do dólar frente ao valor do ouro no mercado internacional. A preços correntes, o bloqueio tem provocado prejuízos de mais de 130.178,6 milhões de dólares.

Em 16 de junho de 2017, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou o “Memorando presidencial de segurança nacional sobre o fortalecimento da política dos Estados Unidos para Cuba”. Esta diretriz estabelece uma nova política que proclama, entre seus principais objetivos, recrudescer o bloqueio contra a ilha.

O bloqueio continua sendo uma violação em massa, flagrante e sistemática dos direitos humanos de todas as cubanas e cubanos e se qualifica como ato de genocídio segundo a Convenção para a Prevenção e Sanção do Delito de Genocídio, e é um obstáculo para a cooperação internacional.

INV - Como a vitória dos republicanos, com a eleição de Trump, retrocedeu os supostos avanços alcançados durante o governo Obama?

GR - O presidente Trump anunciou novas medidas coercitivas contra Cuba e dispôs a revogação de outras adotadas por seu antecessor que tinham modificado a aplicação de alguns aspectos do bloqueio na esfera de viagens e do comércio.
Assim, proclamou que os Estados Unidos se oporão aos reclames a favor da suspensão do bloqueio nas Nações Unidas e em outros foros internacionais, em franco desafio à posição esmagadora da comunidade internacional, ao sentimento da maior parte da opinião pública e de amplos setores da sociedade estadunidense.
Também revogou a Diretiva Presidencial da Política de “Normalização das relações entre os Estados Unidos e Cuba”, emitida pelo então Presidente Barack Obama, em 14 de outubro de 2016, que havia reconhecido que o bloqueio era uma política obsoleta e devia ser eliminado.

INV -  Os diplomatas cubanos continuam firmes nos organismos internacionais a fim de defender o país e mostrar a iniquidade que representa o bloqueio a Cuba. Fale sobre isso:

RG - Em 1 de novembro, a quase totalidade dos países membros da Organização das Nações Unidas (ONU) votará a favor do Projeto de Resolução que Cuba apresentará para colocar fim ao bloqueio econômico e financeiro dos EUA contra nosso país. Respaldarão com seu voto o anseio de milhões de pessoas no mundo pelo fim desta genocida e anacrônica política que durante quase sessenta anos tem levado dor e privações ao povo cubano.

Desta vez, a votação será levada a cabo em circunstâncias diferentes as do ano passado. Uma nova Administração, obcecada em apagar tudo o que fizeram os anteriores inquilinos da Casa Branca e comprometida com os mais reacionários e anticubanos interesses no Congresso estadunidense – sem que a outra não deixasse de ser –, decidiu recrudescer o desumano bloqueio e trazer mais sofrimento às famílias cubanas e maior prejuízo aos amigos da Ilha, em particular dentro do próprio Estados Unidos.

Esta votação ocorre também a apenas um mês e meio após praticamente toda Cuba ter sido devastada pelo mais potente furacão que passou pelo Mar do Caribe nos últimos cem anos.

Às carências provocadas pelo bloqueio, somam-se os obstáculos que o governo norte-americano impõe para se conseguir ajuda internacional e doações procedentes de todas partes do mundo, bem como o fim do outorgamento de visto aos cidadãos cubanos para visitar os Estados Unidos, inclusive os que têm relação com a reunificação familiar, e as limitações para que os cidadãos estadunidenses visitem a Ilha, o que demonstra novamente o caráter desumano da política que prossegue contra o povo de Cuba.

Este recrudescimento da política de assédio ao nosso país, recorre a velhas novas desculpas, sustentadas nas mais delirantes fantasias imperiais.

Cuba jamais constituiu nem constitui uma ameaça para a segurança ou integridade física dos cidadãos norte-americanos; ocorreu e ocorre exatamente o contrário: somam milhares os compatriotas que perderam a vida como consequência de agressões que tiveram sua origem em território estadunidense.

INV - Em que áreas o povo cubano é mais atingido pelo bloqueio? A ingerência do governo dos EUA em outros países que querem comercializar com Cuba, mesmo dentro dos marcos atuais do comércio, é algo absurdo e a resposta vem sendo observada pelo isolamento dos EUA ao votar pelo bloqueio?

RG - O aumento da retórica agressiva contra nosso país e as medidas anunciadas em 16 de junho de 2017 geram maior desconfiança e incerteza nas instituições financeiras e aos próprios provedores estadunidenses, devido ao temor e ao risco real de serem penalizados por relacionar-se com Cuba.

O bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto contra Cuba constitui o maior obstáculo para a implementação do plano nacional de desenvolvimento econômico e social do país e para o desenvolvimento em geral de todas as potencialidades da economia e para o bem-estar do povo cubano, bem como para as relações econômicas, comerciais e financeiras de Cuba com os Estados Unidos e o resto do mundo.

Mais que sanções econômicas, o governo norte-americano mantém o bloqueio econômico e humanitário mais duradouro contra a maior das Antillas, a menos de 90 milhas da costa do sul da Flórida.

Na prática, todos os setores do país foram afetados, não só em matéria econômica, mas também em outros serviços básicos como saúde, educação, tecnologia, em matéria esportiva e turismo, entre outros.

Em 7 fevereiro de 1962, após o presidente dos Estados Unidos J. F. Kennedy suspender totalmente a quota açucareira originária de Cuba, o Governo estadunidense decretou mediante ordem executiva presidencial o embargo total do comércio entre Estados Unidos e Cuba.

Os danos humanos produzidos pelo bloqueio são inúmeros, e sua duração no tempo o tornaram ferrenho e insustentável.
Cuba não pode nem exportar nem importar alimentos livremente dos Estados Unidos. Desde o ano 2000 as restrições nesta matéria acentuaram-se. Além disso, a Lei de Comércio com o Inimigo continua vigente e data de 1917.

A proposta do presidente estadunidense Barack Obama sobre a utilização do dólar nas transações internacionais de Cuba ainda não se materializou.

Em caso de obter permissões para realizar alguma compra, o país está obrigado a pagar em numerário e adiantado, através de entidades bancárias de terceiros países e com moeda diferente do dólar. O que torna mais dificultosos os procedimentos, mas por outra parte o investimento de companhias estadunidenses em Cuba permanece proibida e isto limita o crescimento do setor de negócios dos Estados Unidos e prejudica o nosso.

A esfera da saúde está sensivelmente afetada com o bloqueio, é uma das áreas mais prejudicadas dado o impacto direto que tem na sociedade. Nossas importações de medicamentos estão condicionadas desde 1992 à lei dos Estados Unidos, e Cuba deve dar conta sobre o destinatário final dos medicamentos adquiridos, também não pode fazer pagamentos diretamente, mas através de terceiros e em uma moeda diferente do dólar, o que implica dificuldades, demora e custos adicionais.

Empresas como a norte-americana Columbiana Boiler Company está impedida de exportar os cilindros necessários para embalar o cloro destinado à potabilização da água dos cubanos.

As Companhias estadunidenses como SIGMA Aldrich e General Electric negam o fornecimento de produtos, serviços e informação técnica indispensável para a indústria química cubana.

Os pacientes com câncer sofrem as carências de equipamentos médicos que são vendidos nos Estados Unidos, já que as companhias norte-americanas têm proibido fornecer estes insumos a hospitais e institutos cubanos. No entanto, em 21 de outubro de 2016, Cuba e Estados Unidos assinaram um memorando de entendimento para a cooperação no controle do câncer.
E como se não bastasse, em franca violação de seus direitos constitucionais, os estadunidenses não podem viajar livremente para Cuba, pois seu governo lhes proibe o contato com o povo da ilha.

INV - Deixe uma mensagem aos leitores e leitoras do Jornal INVERTA, militantes sociais e defensores de Cuba Socialista:

RG - Nosso agradecimento infinito aos amigos e amigas brasileiros por sua solidariedade com Cuba, pelo apoio e fôlego à resistência e luta. Nosso agradecimento à hospitalidade e respaldo do povo brasileiro a nossos médicos, que foram acolhidos como filhos do Brasil. Agradecimento às expressões de solidariedade e respaldo contra o bloqueio norte-americano e contra os danos provocados pelo Furacão Irma. Não os defraudaremos jamais. Nem com nosso infinito amor nem com nossa decisão de resistência e vitória na luta por um mundo melhor e mais justo.

Bianka de Jesus