Ludwig Feuerbach e o materialismo antropológico (ou o crepúsculo da antropologia filosófica)

Feuerbach (1804-1872) foi aluno de Hegel na Universidade de Berlim, e dele se fez, por curto tempo, um seguidor. Em 1828, começa a ensinar filosofia na Universidade de Erlangen. Aos 26 anos de idade (1830), publicou seu primeiro trabalho: Pensamentos sobre a Morte e a Imortalidade.

Feuerbach (1804-1872) foi aluno de Hegel na Universidade de Berlim, e dele se fez, por curto tempo, um seguidor. Em 1828, começa a ensinar filosofia na Universidade de Erlangen. Aos 26 anos de idade (1830), publicou seu primeiro trabalho: Pensamentos sobre a Morte e a Imortalidade. O livro é censurado e confiscado, sob a acusação de propaganda do ateísmo. Por esse motivo, também, é expulso da Universidade, ficando afastado da cátedra universitária até o fim de sua vida.

Durante 25 anos, apoiado pela mulher, uma pequena industrial, viveu numa aldeia, na Turíngia, isolado do mundo social e político e do movimento filosófico. Escreveu, provável e aproximadamente, até o ano de 1848, não tendo participado das lutas revolucionárias ocorridas nesse período. Com a quebra da empresa de sua esposa, passou os últimos anos de sua vida na mais completa miséria.

Tendo tido acesso às obras de Marx e Engels, envelhecido e doente, em 1870, ingressou no partido dos comunistas alemães. Engels, em 1872, pronunciou o discurso de elogio e despedida, no seu funeral.

O valor fundamental da filosofia de Feuerbach, segundo comentário de Lênin, consiste no combate contra todo o idealismo (Kant, Hegel, Fichte, Schelling) e na defesa e recuperação do materialismo. A Alemanha era o reino do idealismo, a pátria dos seus  corifeus. A obra de Hegel e a herança de Kant pontificavam como referências hegemônicas e oficiais do pensamento. Mesmo assim, Feuerbach, crítico preciso e profundo, colocou em cena o materialismo, exercendo enorme influência sobre estudantes de filosofia e jovens filósofos, em especial Marx e Engels.

Para Feuerbach, a natureza existe independente e autônoma de qualquer filosofia. As únicas coisas objetivamente reais, e que merecem ser estudadas, são a natureza e a existência dos homens. “A filosofia deve voltar a unir-se com as ciências naturais e estas com a filosofia. Esta união, fundada na necessidade mútua e na necessidade interna, será mais duradoura, frutífera e feliz que o atual e desigual enlace entre a filosofia e teologia”. (Feuerbach)

A base da filosofia, seu ponto de partida, deve ser o homem que realmente existe; em decorrência, temos uma antropologia erigida em doutrina filosófica. Nela, destaca-se o primado do ser sobre o pensar, ou seja, o espiritual não é nada sem o material. O pensamento é uma faculdade da matéria. O ser e o pensar, o objeto e o sujeito existem juntos. “Eu sou sujeito para mim e objeto para outro homem”.

O materialismo antropológico de Feuerbach insurge-se contra a religião e o idealismo. “Deus não criou o homem, o homem é que é o criador de Deus. A existência divina não é outra coisa que a existência humana livre de limitações individuais, objetivizada, e, em seguida, divinizada, venerada, como uma existência no além, isto é, como Deus”.

É permanente a relação da crítica à religião e ao idealismo. Feuerbach afirma ser o sistema hegeliano o último sustentáculo da alienação religiosa: para romper com a religião, há que romper com o idealismo hegeliano. Tanto os teólogos como os pensadores idealistas separam, da mesma forma, o homem do pensamento humano, fazendo deste o princípio de tudo. Não há, no fundo, diferença alguma entre a Ideia Absoluta de Hegel e o Deus de qualquer religião. Ambos representam o pensar humano, falsamente divinizado (ou deificado) e alienado.

Essas afirmações, absolutamente contrárias à ordem, expressas em A essência do cristianismo, mereceram uma empolgada apreciação de Engels:

“(Feuerbach) Pulverizou, num golpe, a contradição, colocando em seu lugar, sem mais embargos, o materialismo. A natureza existe independentemente de toda a filosofia e é a base sobre a qual crescem e se desenvolvem os homens, que são também, por si, produtos da natureza; fora da natureza e dos homens não existe nada, e os seres superiores que nossa imaginação religiosa criou não são mais que outros tantos reflexos imaginativos do nosso próprio ser. (...) Só tendo vivido a força libertadora deste livro é que, dela, poderemos ter uma justa ideia. O entusiasmo foi geral: de repente, éramos todos feuerbachianos”. (Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã)

Porém, Feuerbach não foi capaz de se elevar por sobre as fronteiras características do materialismo pré-marxista – o mecanicismo, a metafísica, o idealismo social-histórico. Contrapõe-se ao idealismo de Hegel incluindo a dialética, como se fosse indissoluvelmente ligada à concepção idealista, não existindo, portanto, na realidade da natureza e da sociedade.
Feuerbach concebe o homem desligado da história, um ser metafísico, abstrato, o homem “em geral”, biológico, sem determinação histórica e colocação concreta na estrutura social. Sua essência é singular e imutável, em última instância, universal. Em suma, a doutrina do crepúsculo da antropologia filosófica.

Ao não compreender o papel da prática, seu fundamento social-histórico, crítico e transformador, reduzindo-a à satisfação imediata das necessidades materiais do homem e à contemplação passiva da natureza, Feuerbach incorre na derivação mecanicista e, nas Teses, vai ser objeto de uma demolidora crítica de Marx.

No que se refere às relações sociais, Feuerbach envereda pelo naturalismo (“relações naturais”), no qual vão se enquadrar o pensamento social, a evolução humana, a “aspiração à felicidade”, tendo por base os movimentos religiosos.

Tendo começado pela crítica da religião, Feuerbach termina reconhecendo esta última como expressão das aspirações do homem à felicidade e ao amor (“toda relação humana é uma relação religiosa”). Interpreta a história humana pelos câmbios das religiões, cada revolução como sendo a substituição de uma religião por outra. A descoberta da alienação religiosa deixa de ser objeto da crítica, tornando-se o fenômeno religioso, num evidente reducionismo, o mundo humanamente possível de ser observado e investigado. Assim como Hegel acomoda a dialética no culto do Estado prussiano, Feuerbach idealiza o materialismo revestindo-o de subjetividade.

Feuerbach foi, sem dúvida, “o filósofo que restaurou os direitos do materialismo... No entanto, Marx e Engels tomaram do seu materialismo somente a medula, desenvolvendo-a até convertê-la em teoria científico-filosófica e, ao mesmo tempo, livrando-a das marcas idealistas e ético-religiosas” (Stálin). Engels declara que “em que pese a base materialista, Feuerbach não chegou a libertar-se das ataduras idealistas tradicionais (...) manifestas em sua filosofia da religião e em sua ética”.

Para Marx e Engels, que apreciavam consideravelmente o papel histórico de Feuerbach, foram evidentes, desde o princípio, todos os vícios de sua filosofia. Marx criticava o caráter contemplativo do materialismo feuerbachiano, sua falta de historicidade, sua separação da política. Feuerbach se apoiava demasiado na natureza e muito pouco na sociedade. “Sem a mais estreita aliança com a política, não pode haver uma verdadeira filosofia”.

Juliano Siqueira