Metalúrgicos da Kabi no Rio protestam contra demissão

O INVERTA acompanha a resistência dos 50 funcionários da Metalúrgica Kabi, localizada no bairro operário de Vicente de Carvalho-RJ, demitidos sem justa causa e que lutam por seus direitos enquanto a diretoria aciona a polícia, acusando-os de invasão e ameaças, num exemplo da luta entre as classes produtoras e a burguesia.

No dia 16 de maio, 50 funcionários da Metalúrgica Kabí, localizada no bairro operário de Vicente de Carvalho, zona norte do Rio de Janeiro, foram comunicados pela diretoria que estavam demitidos, que fossem para casa e “qualquer coisa” procurassem a Justiça. Desde esse dia, estes trabalhadores tentam negociar com os diretores da empresa, sem obter o mínimo de respeito por parte dos mesmos, que pelo menos por duas vezes acionaram a polícia, acusando-os de invasão e anteriormente alegando terem sido vítimas de ameaças, quando os metalúrgicos ocuparam a empresa e paralisaram a produção em protesto contra essa demissão sem nenhuma causa. No dia 7/06, os trabalhadores retornaram à empresa.

O INVERTA esteve no local e conversou com os metalúrgicos demitidos da Kobí, como Diego S., inspetor de solda, há 11 anos na empresa, que contou o que aconteceu: “não deram nenhum aviso nem nada, apenas um papel, sem previsão alguma de nada, e que resolvêssemos na Justiça. Isso já vem acontecendo há uns dois anos, eles mandam as pessoas embora, falam que vão fazer acordo mas não pagam o acordo. Já existem dois acordos que venceram e eles não pagaram nem na Justiça, por isso, paralisamos a produção no dia 16 e por três dias eles sumiram, quando voltamos eles retornaram e colocaram os demais trabalhadores para trabalhar como nada tivesse acontecido, e chamaram a polícia dizendo que estávamos ameaçando eles, mas em nenhum momento fizemos ameaças, e conversamos isso com a polícia, que estávamos em busca de nossos direitos, pois temos dois avisos, temos férias atrasadas, planos de saúde e cesta básica cancelados, seis meses de FGTS que não depositaram, eles cancelaram nosso tíquete-alimentação”.

Aílton, com 10 anos de trabalho no local, protestou contra o descaso da diretora com os trabalhadores e as alegações de ameaça: “demitiram sem direito à nada e um dos diretores ainda disse que ameacei ele, então eu fui na 27ª DP pois queria fazer um boletim de ocorrência para me precaver, paguei meu plano de saúde por 14 meses e eles diziam que iam devolver mas nada, INSS atrasado há 4 meses, tenho aviso prévio, quinzena etc atrasados para receber, mas nenhum deles se dignou a resolver nada, tenho um filho na escola que já está sendo prejudicado”.

A metalúrgica Tatiane trabalha há 4 anos e 3 meses na Kobí: “tenho uma filha de um ano que depende totalmente de mim, fui mandada embora sem nenhum direito, sou participante da CIPA, tenho estabilidade, mas eles disseram que não iam pagar nem 1 real, por isso estamos aqui nessa luta pois queremos pelo menos nosso salário e nossas férias, porque se formos à Justiça teremos que pagar advogados e esperar cerca de dois a três anos, e nesse momento, o que eu faço com minha filha? Só choro? Estou na mesma situação que meus colegas, com responsabilidades que dependem de meu salário”.

Os metalúrgicos comentaram que a empresa se encontra em inventário, os diretores e a sócia majoritária, que foi afastada por eles. Esse “jogo de empurra” das responsabilidades entre a diretoria, em que alguns deles até possuem outras empresas, atinge os trabalhadores, os produtores, que se viram sem qualquer respaldo legal. Como um dos trabalhadores que denunciou a gravidade do conflito: “Sou casado, tenho 2 mil reais de contas a serem pagas e não recebi nada, até o meu gás está acabando, se acabar virei aqui e eles terão que arcar com isso”.

Os trabalhadores foram ao Sindimetal, em São Cristóvão, e a partir da orientação do sindicato conseguiram dar entrada no FGTS, porém, com a empresa nada foi acordado, ao contrário, em 7/06, os diretores chamaram a polícia novamente, alegando invasão, o que causou ainda mais revolta aos metalúrgicos.

Esse fato, essa ação da burguesia contra os operários da Kobí, embora tenha sua especificidade, revela o desmedido descumprimento das leis trabalhistas em todo o país por parte dos patrões. Também leva, independentemente da consciência, à luta desses homens e mulheres produtores de riquezas pela realização de suas necessidades imediatas, como alimentação, moradia, educação. A luta entre as classes sociais não está sendo televisionada, nem tem suas hastags, mas está viva e flamejante em cada bairro operário, e ela se fortalece.


Gilka Sabino