Beatriz Bissio concede entrevista ao Inverta

A jornalista e professora Beatriz Bissio falou em entrevista ao Jornal Inverta sobre a conjuntura política nacional e internacional. Afirmou se sentir muito triste com o desfecho do processo político no Brasil. Atualmente, é professora da área de Ciências Sociais e Políticas na UFRJ e, este ano, participará em um Congresso em Moscou sobre os 100 anos da Revolução Russa.

INV – Como você analisa esta conjuntura brasileira com o Golpe contra a Presidenta Dilma Rousseff?

BB - Eu vejo esta conjuntura com muita tristeza, não somente pela rapidez com que os acontecimentos foram se sucedendo, mas também pela fragilidade com que a coalizão partidária se esfacelou no poder. Foram alguns erros que poderíamos enumerar, e um deles foi a análise equivocada do papel da mídia na formação da opinião pública. Esta é uma área que tenho uma grande militância nos 30 anos da Editora Terceiro Mundo, que conseguiu sobreviver em vários locais do planeta, mas que terminou justamente em 2006, no governo Lula. A falta de uma política de comunicação que apoiasse os veículos alternativos foi um dos pontos fracos das diretrizes dos governos do PT. Outro ponto que eu posso citar das fragilidades das administrações petistas foram as alianças partidárias feitas para chegar ao governo, confundindo uniões táticas com apoios estratégicos, e a aliança com o Grupo Sarney e com o PMDB foi a pá de cal na estabilidade política do governo federal por uma série de práticas que se mostraram equivocadas. O não investimento na educação política foi outra falha dos governos do PT. A minha experiência, desde a militância na Frente Ampla no Uruguai, mostrou que este é um setor estratégico para a formação política da população como uma maneira de criar uma consciência crítica entre a maior parte do povo. A grande política dos governos do PT nas duas administrações Lula e nos governos Dilma foi a área diplomática, que mostrou uma relação altiva da política externa do Brasil com alianças estratégicas com os países em desenvolvimento e com a América Latina, e a criação dos BRICS foi uma grande jogada de mestre com potências emergentes como a Rússia, a China e a Índia, que redesenhou a geopolítica internacional.

INV - Como você vê as mudanças políticas na América Latina, as eleições nos EUA, e as novas relações na Ásia?
BB - O mundo está em grandes transformações. Na região da América Latina estamos assistindo uma queda de braço entre as forças progressistas na Argentina, na Venezuela e, agora, nas eleições do Equador, com dois postulantes com ideologias totalmente opostas. De um lado um candidato do presidente Rafael Correa com apoio às políticas sociais de inclusão da população mais pobre, e do outro um projeto de mais liberalização da economia, de retorno às privatizações e às políticas de livre mercado. A eleição de Trump nos EUA é uma mostra de que o mundo está mudando, uma vez que seria inimaginável este resultado há algum tempo, mas pelas análises de especialistas na política norte-americana o atual presidente dos EUA não chega ao fim do mandato. Agora em março estarei participando de um congresso na Rússia sobre o legado da Revolução de 1917. Na minha participação estarei falando sobre a Reunião de Baku, no Azerbaijão, em 1920, que fez uma análise das relações da recente URSS e dos movimentos de libertação na Ásia e na África. Na atual conjuntura global estamos assistindo uma aliança estratégica entre a Rússia e a China, principalmente no setor econômico e de infraestrutura, que está criando uma nova geopolítica nas relações entre os países asiáticos que pode ser saudável ou não. Somente o tempo dirá sobre esta unidade entre a Rússia e a China para o poder mundial. Mas aquela conjuntura de um mundo unipolar com a queda da URSS em 1991 não existe mais, apesar da continuação da forte presença dos EUA em várias partes do planeta. A médio prazo acredito que estas transformações no mundo sejam benéficas para a América Latina e principalmente para os países asiáticos do Oriente Médio, que é uma região explosiva.

INV – Gostaria de deixar uma mensagem para os leitores do Jornal Inverta?
BB - Eu sei a paixão que é fazer um jornalismo como vocês fazem, na luta contra a mídia hegemônica neste momento, no Rio de Janeiro e no Brasil. Resistir a todas as adversidades e empreender uma batalha de ideias é lutar por um mundo melhor. E se todos nos unirmos nesta corrente é igual aquela história do beija-flor que viu um incêndio na floresta e resolveu levar no bico uma gotinha de água para apagar o fogo. Outro animal o viu fazer isso e retrucou: você acha que sozinho vai apagar o incêndio na mata? E o beija-flor respondeu: Posso não apagar o fogo, mas certamente estarei fazendo a minha parte. E a minha parte eu faço como professora, tentando ensinar os jovens a ter consciência de lutar por um mundo melhor. Por isso admiro muito a história do Jornal Inverta. Dou os parabéns pela luta de vocês.

Julio Cesar de Freixo Lobo e Bianka de Jesus

Publicada em 17 de março de 2017