Entrevista com Tomás Improta para o Inverta

O músico, pianista e jornalista Tomás Improta concedeu entrevista ao Jornal Inverta. Ele falou sobre a sua carreira musical desde a sua infância até os dias de hoje. No começo, acompanhando ícones da MPB como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Nara Leão, Chico Buarque, entre outros, na década de 90 iniciou uma carreira solo instrumental em vários estilos e ritmos musicais da sua preferência, como Jazz, Bossa Nova, e outros estilos.

O músico, pianista e jornalista Tomás Improta concedeu entrevista ao Jornal Inverta. Ele falou sobre a sua carreira musical desde a sua infância até os dias de hoje. No começo, acompanhando ícones da MPB como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Nara Leão, Chico Buarque, entre outros, na década de 90 iniciou uma carreira solo instrumental em vários estilos e ritmos musicais da sua preferência, como Jazz, Bossa Nova, e outros estilos. Tomás Improta herdou do pai a sua veia jornalística, assim como uma tendência pelo socialismo na sua vida, embora discordasse de algumas posturas de patrulhamento ideológico da esquerda em relação a Gilberto Gil e Caetano Veloso na época da Tropicália.

INV – Tomás, fale um pouco de sua carreira acompanhando Gal Costa, Gilberto Gil, Chico Buarque, Nara Leão, entre outros nomes da MPB:

TI - Meus pais são músicos e artistas clássicos. Na minha casa, a grande estrela era a minha mãe, e como meu pai era crítico, eu tive grandes professores. Aliás, com grandes professores que estudei, como a esposa do Franscisco Mignone, ganhei um concurso infantil com a minha música. Sempre ouvindo muito clássico na minha casa, por causa dos meus pais, também ouvia muito rádio, sintonizando na MPB junto com as senhoras que trabalhavam lá, a minha avó gostava muito de música. Naquele tempo, na década de 50, a rádio era muito rica, com composições bélissimas, e a TV era maravilhosa, com um canal ou dois com música da melhor qualidade, orquestras. Depois teve Elis Regina, o Fino da Bossa, tinha o Samba Trio toda hora na TV, era uma riqueza a programação musical. Você se enriquecia com este repertório. Hoje em dia, a gente perde tempo e se empobrece com as músicas atuais. Tinha Altamiro Carrilho toda semana e eu devia ter uns 10 ou 11 anos e levava um tarol de um primo meu que tinha cumprido o serviço militar e eu ficava acompanhando. Sempre estive muito ligado à música. Fiz engenharia até o segundo ano, mas depois parei e tive que cair na real. Depois, fiz uma viagem aos EUA, na qual assisti 31 grupos de Jazz nos anos de 1969 e 1970. Assisti os melhores grupos de Jazz daquela época e, em 1970, resolvi ser músico. Naquela época, eu participava de cerca de seis grupos, mas todos amadores, com 19 anos. Um grupo meu se chamava Mandengo, que era com o Raul Mascarenhas, o Barrozinho, o Dudu e o Tony Botelho. Comecei a acompanhar Luiz Melodia, Gérson Conrad, dos Secos e Molhados. E, de repente, me chamaram para tocar com os “Doces Bárbaros”. O Caetano estava precisando de um pianista e me chamou para tocar. Então conheci os quatro baianos e fiz toda aquela temporada dos “Doces Bárbaros”. Depois do grupo, os quatro me chamaram para tocar com eles individualmente. A Gal me chamou primeiro e ficou no avião me observando, até que me chamou para tocar com ela. Depois foi o Gil, e também a Bethânia, com quem toquei e gravei vários discos. Depois de dois anos fui tocar com o Caetano e fiquei onze anos gravando com ele. Toquei com milhões de pessoas, Chico, Elizeth Cardozo, Baden Powell, Nara Leão. Passado esse tempo, resolvi parar e abrir uma escola de música. Como musicólogo, me interesso pela didática, pela escrita. Depois da abertura da escola, voltei para a música e gravei até agora 10 CDs.

INV - Você falou de duas pessoas que foram importantes no cenário mundial da música, como Miles Davis, que inclusive esteve no Brasil, e o Barrozinho. Como foi o seu contato com estes fenômenos?

TI - Na minha opinião, o Barrozinho é o maior compositor instrumental da música brasileira. Ele ainda vai ser reconhecido como um grande compositor, extremamente original. Um dia fomos fazer um show com o Arimatéia e ele que descobriu que o Barrozo tocava muito no agudo. Quando Arimatéia foi fazer a apresentação quase não conseguiu tocar, e a gente não notava a facilidade e a musicalidade que ele tinha no agudo, parecia que era normal. O som dele era muito original e eu toquei com o Barrozinho a minha vida inteira. Quando morreu eu estava lá e gravei todos os seus discos. Fomos para Montreaux em uma situação completamente diferente, porque só vai para lá quem tem uma gravadora por trás, pois é a gravadora que paga a passagem e também não pagam os músicos. Mas quando eu fui com o Barrozo, eles estavam tão a fim de levá-lo que pagaram a passagem e tudo incluído, e o show foi um sucesso. O pessoal disse pra gente não passar do tempo, mas o público estava tão acalorado que teve vários bis. Eu quero fazer uma crítica aos brasileiros, porque o Barrozinho só teve sucesso no estrangeiro, com os alemães e os franceses, e no Brasil ele não foi reconhecido. Morreu morando em cima de um botequim, em um apartamento alugado depois de ter viajado o mundo inteiro. Barrozinho foi um dos maiores músicos do mundo. E ele não era de esbanjar grana, ganhava pouco mesmo, ainda mais por ser negro, e nós sabemos como é o racismo. Foi um dos meus maiores amigos. Assim como ele, tenho muitos outros amigos músicos negros, como o Bolão, que foi percursionista do Caetano, o Santana, mas eu sinto a falta da guarida dos antepassados que todos os brancos tem, uma herança do pai ou da mãe, o que os negros nunca tiveram, porque vem do parentesco com os que foram escravizados. Na infância da minha avô ainda haviam pessoas escravizadas, e como a gente está perto disso ainda. Torço pelo Bangu que é um dos times mais lindos do Rio de Janeiro, e foi o primeiro time no Brasil a ter negros.


INV - Seus professores, como Lidy Mignone, Linda Bustani, Roberto Tavares e Tenório Junior foram importantes para a escolha de seus ritmos musicais e preferências por estilos e pelo seu repertório?

TI - Não. Eles foram decisivos para a minha formação técnica, já que são grandes professores de música clássica. Foi mais precisamente o contato com o meu pai, que era crítico do jornal Correio da Manhã, que naquela época era o veículo mais importante do Brasil. Morriam de medo das críticas dele e haviam histórias engraçadas de pessoas que tocavam e não dormiam esperando o jornal sair no dia seguinte, às 3 ou 4 horas da manhã. Muitas pessoas queriam bajular meu pai e ele teve muitos alunos. Tive muitas aulas de grandes mestres. A minha influência maior foi a de ouvir. Quando criança, eu era apaixonado por todos os discos que tinham na minha casa, dos clássicos aos populares. Com 7 ou 8 anos me apaixonei pelo Ray Conniff, tinha todos os seus discos, e como ele foi um iniciador do Jazz, eu vivia essa influência. Gostava também de Roger Willians. Nesse período aconteceu uma coisa engraçada, o meu pai tinha uma sociedade com um russo que se chamava Daslink, que era comunista, e com Arnaldo Estrela, que era do partidão. Meu pai tinha um pé na esquerda, e mais tarde fui saber que a minha avó foi fundadora do Partido Comunista, da ala feminista do PCB, junto com Luis Carlos Prestes, mas ninguém sabia disso. Meu pai começou a ser cortado do serviço público e não sabia porque. Depois falaram pra ele que sua mãe tinha sido fundadora do Partido Comunista. Quando veio 64, eles iam em cana porque só traziam ballets russos, como Barilovisk, para o Municipal. Eles começaram a ficar com medo e foram na casa do Jorge Guinle, que morava no Flamengo, para trazer para tocar no Copacabana Palace um grupo de Jazz, para limpar a barra deles com o Golpe. Quando tinha uns 13 ou 14 anos fiquei admirado com aquele tipo de música, sai de lá maravilhado com aqueles discos do Jorge Guinle, da melhor qualidade. Tinha as melhores músicas de Jazz, e eles trouxeram os melhores conjuntos, como o Modern Jazz Quarta, para o Municipal, que fizeram duas apresentações aqui. Tocaram também em São Paulo e eu ganhei um CD deles que era um duplo que está guardado até hoje. Eu não tenho mais este, mas era um Long Play que se chamava European Concert, com uma capa muito bonita com os integrantes do grupo, dois deles na frente e dois atrás, nas cores branca e azul. Eu não tenho mais este Long Play. Logo depois começou a Bossa Nova, um estilo musical pelo qual também me apaixonei, assim como o Jazz. Daí eu tive aula com Tenório Junior, com Aluizio Milanes, que morreu há um mês atrás. O Tenório era meu professor quando foi sequestrado e desapareceu na Argentina.

INV – Tomás, fale um pouco de sua carreira solo como instrumentista, com os CDs como “Tear”, “Bartok Jazz”, entre outras obras que começou em 1990:

TI - O meu primeiro CD solo instrumental foi “Tear”, no qual o Barrozinho participou. Depois gravei um CD do Bartok que se chamava “Bartok Jazz”. Tem alguns de Bossa Nova como “Certas Mulheres”, que o Barrozinho fez junto, assim como o João Muniz, e o solo dele foi tão bacana que coloquei como uma das principais faixas do CD. Também saiu um CD meu há cinco meses, que teve excelentes críticas da imprensa, 16 críticas maravilhosas do Brasil inteiro, e na rádio também teve uns 15 ou 20 elogios. Está pronto o meu último CD, que se chama “Olha para o Céu”, que é a música do Tom Jobim.

INV - Tomás Improta, lembre um pouco das suas premiações com a trilha sonora do filme “Bar Esperança” e como melhor tecladista escolhido pelo Jornal da Música em 1980?

TI - Foi muito legal. O Bar Esperança foi uma trilha sonora só de piano. Naquele tempo você gravava e depois juntavam com o filme. Fiz uma composição e gravei “Meu Bem, Meu Mal”, que já havia gravado com o Caetano, só nós dois. Depois gravei com a Marília Pera, e tenho até hoje lá em casa estas gravações com ela. Fiquei a tarde inteira gravando várias versões. As outras músicas eu gravei sozinho no piano e escaleta. Ficou um som bem clean. O cara quando entra no bar fica ouvindo aqueles discos, então coloquei o Tenório Junior fazendo um outro estilo da música, como se no botequim tivesse aquilo, e não existe isso nos bares, aquela música de qualidade, mas no filme tem. Ele entra lá e toca o embalo.

INV - Conte um pouco de sua trajetória como jornalista e colunista na área musical, com mais de dez livros publicados:

TI - Como jornalista, tenho o exemplo do meu pai que foi crítico. Eu tinha três programas de Jazz nas rádios. Na rádio MEC eu tinha dois programas que se chamavam “Zero Hora”, toda a noite, quando eu tinha 21 anos. Na programação eu colocava cinco músicas e fazia comentários, dava muito trabalho porque não tinha fim de semana, não tinha nada. Na rádio Roquete Pinto também trabalhava. Escrevia para revistas e jornais sobre Jazz e sobre a história do Jazz e hoje em dia eu não sei mais nada, não me sinto especializado neste assunto. Agora eu gosto de um monte de ritmos musicais. Tive essa fase de virar jornalista e escrevia para a revista “Arte e Indústria”, fiz um verbete no Dicionário do Sérgio Lacerda. Os livros escrevi muito para a escola que eu abri, que se chamava Cenário, em Botafogo, na Rua 19 de Fevereiro, que chegou a ter 500 alunos em três anos e 30 professores em um prédio de três andares.

INV - Quais são os seus planos para o futuro?

TI - Eu estou lançando um CD atualmente, que é o “Olha para o Céu”, que ainda está sendo masteurizado, e não tenho muitos planos agora não. Tenho umas idéias de fazer um trabalho sobre música alemã, como o Kurt Will. Penso em alguma coisa sobre a Pré-Bossa Nova, como Tito Madi, Dolores Duran e estou recolhendo coisas sobre este pessoal, que eu gosto muito. Este disco que lancei, “A Volta de Alice”, tem vários estilos diferentes, eu o achava uma droga e fiquei sem entender como os críticos adoraram. Como eu gosto de mil coisas, como tango, música clássica, bossa nova, jazz, o produtor me deu toda a liberdade e disse: faz o que você quiser. Isso é bom, mas ao mesmo tempo fiquei meio apavorado com essa ideia e comecei a gravar uma coisa ou outra e coisas díspares e pensei: o pessoal vai detestar. Não ia chamar “A Volta de Alice”, acabou que no final pintou a coisa da “Alice no País das Maravilhas”, mas foi completamente casual. O CD já estava pronto e fiz umas músicas para ele que eu não compunha há vinte anos, fiz umas oito e joguei umas cinco fora e fiquei contente. Uma das que eu tinha jogado fora o produtor pegou, deu uma ajeitada, e eu passei a adorar a música. Ele perguntou qual era o nome da minha filha e eu disse Alice, então deu a idéia de intitulá-lo “A Volta de Alice”. Quando cheguei em casa estava fazendo cem anos que o autor lançou o livro “Alice no País das Maravilhas” e aí deu unidade, porque o disco é maluco e conta a história da personagem. Todas as peças ficaram vinculadas à história musical da Alice e consegui a unidade em torno do nome do CD e da sua história, e as pessoas adoraram as histórias das maluquices dela. Tem uma faixa que é só barulho de avião, mas tem bossa nova também, mas eu não esperava este sucesso todo neste trabalho.

Julio Cesar de Freixo Lobo