Presidenta Dilma convoca resistência ao golpe em ato das mulheres no Rio

Dilma apontou que o aspecto mais importante do processo democrático no Brasil é que as pessoas são capazes de aprovar ou desaprovar um projeto quando se trata de eleição presidencial, “que implica uma relação direta entre propostas e a população”, e denunciou que “o que está sendo implantado por esse governo provisório não foi aprovado pela população.

A presidenta brasileira Dilma Rousseff, afastada temporiamente de seu cargo por um golpe parlamentar-midiático-jurídico no país, esteve presente no ato “Mulheres Pela Democracia Contra o Golpe”, realizado no dia 2 de junho, no centro do Rio de Janeiro. Convocado pelas frentes Brasil Popular, Povo Sem Medo, Marcha das Mulheres e vários movimentos populares, a concentração saiu do Largo da Carioca e seguiu para a Praça XV, onde reuniu cerca de 25 mil pessoas, em sua grande maioria mulheres.

Antes do pronunciamento da presidenta, diversas representantes de movimentos sociais, culturais, sindicais, artistas, parlamentares e organizações políticas se expressaram contra o governo interino de Michel Temer e os retrocessos de sua política, já demonstrados em poucos dias de gestão, e pediram o retorno de Dilma Rousseff, legitimamente eleita por 54 milhões de brasileiras e brasileiros, à presidência do Brasil.

Ovacionada, Dilma saudou o público presente, especialmente as mulheres, e iniciou seu pronunciamento condenando a cultura do estupro e a segregação social, evidenciadas em dois fatos recentemente ocorridos no Rio de Janeiro, e denunciando o perfil retrógrado do governo golpista.

“É uma grande honra estar nessa cidade que expressa a força da diversidade de nosso país, de nossa cultura, mas também, infelizmente, sobre os ares dessa que é a cidade mais simbólica do Brasil, sabemos que ocorreu um estupro coletivo. Ao mesmo tempo, um dos clubes da elite manifesta de forma clara seu preconceito contra uma babá, impedindo que ela se sente ou vá ao banheiro. Essa cultura do estupro contra as mulheres e, ao mesmo tempo, essa cultura da exclusão social é algo que, nós sabemos, tem que ser combatido, e ser combatido por todos os movimentos, mas também pelos governos. É lamentável que (Temer) ao escolher uma secretária das mulheres (Fátima Pelaes) ela se manifeste contra o aborto legal no caso de estupro, que é previsto em lei, uma conquista ainda pequena das mulheres, mas é uma conquista. Um agente público, seja homem ou mulher, não pode achar que suas convicções pessoais se sobrepõem às leis, e a lei é clara e o SUS garante isso. É muito grave que a secretaria das mulheres se manifeste assim justamente nesse momento em que ocorreu um estupro coletivo, o que nos enche de vergonha como mulheres, e nenhuma de nós pode se calar diante disso”.

A presidenta acrescentou que “um governo ilegítimo, usurpador, além de ser um mau exemplo, é uma fonte de maus exemplos. Não podemos nos sentir seguras, muito menos garantidas quando um governo não é capaz de, no seu primeiro escalão, colocar uma representação da maioria da população. E não me refiro somente às mulheres, mas também aos negros desse país, que são parte expressiva da nossa população.

Dilma apontou que o aspecto mais importante do processo democrático no Brasil é que as pessoas são capazes de aprovar ou desaprovar um projeto quando se trata de eleição presidencial, “que implica uma relação direta entre propostas e a população”, e denunciou que “o que está sendo implantado por esse governo provisório não foi aprovado pela população. Como eles não têm voto para aprovar suas propostas estão recorrendo a este chamado impeachment, que eles dizem que não é golpe, mas nós sabemos que é golpe, e as coisas estão ficando cada vez mais claras. (…) Foram seus próprios companheiros que gravaram. E o que fica claro com a gravação é que eles tem que tirar o meu governo para impedir que o combate à corrupção chegue até eles. A primeira razão do golpe é impedir que (a investigação) chegue ao presidente da Câmara, o sr. cunha, e a todos os que sustentam o governo Temer, é isso que está em questão. A prova está nas próprias palavras de um integrante do governo Temer e grande conspirador, o senador Romero Jucá”.

“Sabemos também que esse impeachment, que é um golpe claro, um golpe absoluto, não é de maneira nenhuma um golpe tradicional, o chamado golpe militar que foi praticado na América Latina e que consistia em, através do poder armado, retirar governos populares do exercício legítimo de dirigir um país latino-americano, inclusive o nosso em 64. É um golpe de outro tipo, um golpe parlamentar, que usa o parlamento, que tradicionalmente é mais conservador que os presidentes. E procedem rasgando a carta constitucional. Se imaginarmos que a democracia é uma árvore, um golpe tradicional seria aquele do machado derrubando a árvore, e o golpe atual é um golpe em que a árvore é tomada por parasitas que tentam destruir a democracia, por corruptos e especuladores. (…) Alguns chamam de golpe branco, outros chamam de golpe suave ou de outras formas, mas tem uma característica, os golpistas detestam ser chamados de golpistas. Mas sei que esse momento é diferente porque a árvore da democracia está de pé, e temos que saber que nesse país é possível ir para as praças públicas, como estamos aqui, a denunciar o golpe. “Quero dizer a vocês que eu sei que sou um incômodo, sou um grande incômodo. E por quê? Primeiro, como eu sou mulher eles confundem as coisas, acham que mulher é frágil. Ora, se a gente fosse frágil não criava filho, não aguentava trabalhar e cuidar das crianças; mesmo com tanto preconceito, não conseguiríamos ter um trabalho decente, nos formar nas universidades, não seríamos a maioria em vários cursos por esse país à fora. Se a gente fosse tão frágil eu não seria a primeira mulher presidenta do Brasil”.

Depois de aplausos e palavras de ordem, Dilma recordou que no início desta ofensiva queriam que ela renunciasse. “Para tirar o incômodo que é a minha presença. Eu não cometi nenhum crime de corrupção, não desviei dinheiro público, não tenho conta na Suíça, então era melhor que eu renunciasse, porque não teriam o constrangimento de condenar uma pessoa inocente, praticando a maior injustiça que existe. (…) Mas nós mulheres temos uma imensa capacidade de resistir, todas as mulheres anônimas deste país resistem no dia a dia, seguram uma barra feia e de cabeça erguida tocam o bonde. A minha vida inteira lutei, lutei contra a ditadura neste país, e eu sei o que é dor, fui torturada, sei o que é a imensa tragédia da dor física, sei também o quanto mulheres neste país lutam contra doenças, lutei contra um câncer, e agora tenho a honra de lutar pela democracia neste momento. (…) Honra sobretudo porque tenho que lutar e zelar pela dignidade da mulher brasileira diante da luta. Nós não somos covardes, somos corajosas; sensíveis, mas corajosas; firmes, mas emocionadas.Temos dentro de nós esses sentimentos e sabemos que é fundamental para esse país não ter sistematicamente um déficit de civilização - que nós mulheres sejamos respeitadas pelo fato de sermos mulheres. Sabemos também que a exclusão social sempre teve um rosto, o rosto da mulher, da criança e dos negros. Sabemos que a exclusão social tem gênero, mas também tem o preconceito contra a população LGBT. Sabemos que esse país precisa valorizar a diferença, porque é a diferença a nossa maior riqueza cultural e humana”.

E concluiu convocando mais uma vez a resistência ao golpe, que continua através do processo de impedimento que segue no Senado Federal. “Aqui hoje, neste ato no Rio de Janeiro, este ato que coloca nas mãos das mulheres o processo político de apoio à democracia, contra o retrocesso em direitos, contra a política neoliberal, contra a revisão do pré-sal, nessa praça, podemos sair com a alma lavada porque aqui fizemos um exercício de cidadania e de democracia, e aqui estamos nós, mulheres claramente empenhadas na luta pela defesa não só da democracia, mas também dos direitos sociais, dos direitos políticos e de um país mais livre e que respeite a mulher. Daqui pra frente nós temos que estar juntas, juntas para resistir a esse golpe. Não podemos deixar que esse golpe se conclua. (...) Vamos resitir, resistir e resistir”.

Aclamada sob os gritos de: “Renova, renova, renova a esperança, a Dilma é guerrileira e da luta não se cansa!”, a presidenta desceu do palco e foi cumprimentar as manifestantes que lotaram a Praça XV em mais um ato popular de apoio ao seu mandato, em defesa da democracia, das conquistas alcançadas, e pelo que ainda é necessário avançar, e contra o golpe neoliberal e colonial que o imperialismo e as oligarquias nacionais tentam impor ao Brasil e aos povos irmãos da América Latina e de demais regiões, que têm manifestado sua solidariedade e unidade na luta pela tão ansiada libertação contra o histórico e violento processo de dominação, de duras e persistentes consequências históricas, ao qual resistem e enfrentam.

Márcia Mascarenhas