Entrevista com o vereador Reimont Otoni (PT-RJ)

O Jornal Inverta conversou com o vereador do PT do Rio de Janeiro, Reimont Otoni, que abordou vários assuntos de interesse dos cidadãos cariocas e mais uma série de questões relativas à conjuntura política do município e do Brasil.

INV – Reimont, fale um pouco de sua trajetória pessoal desde a sua cidade natal e do início da sua vida:

RO - Eu sou de uma cidade do interior de Minas Gerais chamada Conceição do Mato Dentro e vivi ali até os meus 15 anos, quando deixei a minha família e fui atrás dos meus estudos. Fiquei dos 15 anos até os meus 42 anos dentro de uma organização religiosa, onde tive minha formação em teologia, filosofia e a minha formação de administrador. Estudei na Ordem Fransciscana Capuchinase e em 2002 me licenciei. Já tinha uma ligação muita próxima com o Partido dos Trabalhadores, mas não podia me filiar, porque existia um impedimento da Ordem Religiosa naquele momento, mas assim que deixei aquela entidade em 2002 me filiei ao PT. Já vinha caminhando junto ao partido desde a sua existência em 1979 nas Comunidades Eclesiais de Base, quando estudava no Espírito Santo. Depois me filiei ao PT, no núcleo da Região da Usina na Tijuca. Me candidatei a deputado estadual em 2006, mas não fui eleito obviamente, mas este capital político me levou a uma candidatura a vereador em 2008 e fui eleito e reeleito em 2012 e estamos concluindo o segundo mandato de vereador na cidade do Rio de Janeiro.

INV - Como tem sido este trabalho em defesa dos trabalhadores?

RO - Eu compreendo que o Partido dos Trabalhadores tem uma função específica, que é caminhar com a classe trabalhadora, que é colocar um ponto de cisão entre este capital rentista que rege a sociedade de hoje e colocar o direito dos trabalhadores em voga. Tenho plena consciência de que não somente o nosso mandato, mas o nosso estilo de vida e a nossa militância política têm que estar ligados à esta luta. A gente olha para o Rio de Janeiro, para o Brasil e para o mundo, e constata que, embora dominante, o modelo capitalista neoliberal está falido, porque ele não tem respondido aos verdadeiros anseios dos trabalhadores e das pessoas, é um fracasso. Colocar-se na sociedade, seja em um partido político ou em um mandato eleito democraticamente pelo povo e ficar ao lado dos trabalhadores, principalmente daqueles trabalhadores mais vulneráveis, como o trabalhador do comércio ambulante, o trabalhador que presta serviço à máfia do transporte na cidade do Rio de Janeiro, o trabalhador da construção civil pesada, estar ao lado destas categorias é cumprir a função quando da criação do Partido dos Trabalhadores, que existe para isso, para estar ao lado dos trabalhadores e criar massa crítica para a transformação da sociedade.

INV - Quais são os limites e as atribuições de um vereador na sua opinião?

RO - Na nossa visão, o vereador tem duas funções. A primeira função é a elaboração de leis, fazer a legislação de seu município, que é muito importante e não pode ser feita à revelia do povo e dentro de um escritório de qualquer maneira, mas sim com muito debate e discussão com as pessoas. Nosso mandato produziu leis nestas duas legislaturas que foram resultado de muita discussão, debate e muita conversa com as pessoas. Quando a gente está na Praça Saens Peña mostrando a nossa banquinha de prestação de contas, ali naquela banquinha surgiram muitas ideias e projetos de leis que a gente defende aqui na Câmara. Por exemplo, a Lei 5429 do Artista de Rua foi feita a muitas mãos e com muitas cabeças pensando. Por estes dias fomos procurados por um grupo de mulheres taxistas na cidade do Rio de Janeiro que se dizem a minoria e que não são proprietárias das permissões, apenas condutoras. Essas mulheres são exploradas no mercado de táxis no Rio de Janeiro porque elas pagam aos proprietários dos automóveis, que são homens ou cooperativas que detêm este poder e alugam para elas, assim como alugam para muitos homens também. Mas as mulheres condutoras de táxis na cidade dizem que também querem ter o direito de ter as suas permissões. E partiu delas um projeto de lei com esse objetivo, que uma cota inicial das autonomias seja concedida às mulheres. Isso é defender a classe trabalhadora e define-se pelo processo legislativo. A segunda função de um vereador é fiscalizar o Executivo, o que também é muito importante, e tem que ser feito com muito critério, com leitura do orçamento, estudo do orçamento com o estudo dos impactos que a cidade sofre, com uma assessoria qualificada sobre o que a prefeitura se propôe a fazer, o que a legislação manda a prefeitura fazer e o que é direito do povo, e cobrar do executivo para que isso seja implementado para o bem da cidade.

INV - Como você avalia a atual conjuntura política brasileira. Como esta situação afeta o Rio de Janeiro?

RO - Estou muito preocupado com a conjuntura que a gente está vivendo no país inteiro. Mais particularmente no Rio de Janeiro, que é o locus que a gente está pisando por conta de no meu entendimento não terem deixado ainda a Presidenta Dilma governar, porque é uma onda de uma oposição irresponsável que tem primado em incitar o ódio ao Partido dos Trabalhadores e à Presidenta Dilma, o que tem também um viéis sexista, que desrespeita a Presidenta Dilma porque não consideram que uma mulher tenha capacidade de governar e seja presidente da República. Se instituiu uma espécie de Fla-Flu na sociedade, onde a intransigência tem campeado as nossas praças, as nossas ruas, as nossas famílias, os nossos espaços de trabalho. Vejo isso com muita perplexidade. Tem me preocupado alguns aspectos de carestia para o povo, que é fruto desta instabilidade que criaram; não é por conta da presidenta Dilma Rousseff governar, ela não é uma mulher incapaz, é proba e tem firmeza nas suas posições, mas não tem conseguido governar por conta da irresponsabilidade da oposição. Estou aberto para que as pessoas discutam comigo isto e me convençam do contrário. Esta carestia da padaria e do supermercado me preocupa porque atinge de fato os mais pobres e a classe trabalhadora que derrama o seu suor para garantir o sustento de suas famílias. Mas, ao mesmo tempo, vejo este momento conjuntural como um momento muito rico em que estamos tendo a oportunidade de traçar uma linha tênue para definir quem está ao lado do povo e quem está contra ele, quem está ao lado do capital e quem está ao lado do trabalhador, quem está do lado das grandes corporações e quem está do lado do movimento da organização dos trabalhadores. Mas também é um período difícil, porque aproxima-se um momento de possibilidade de um impedimento da Presidenta Dilma, o que considero um golpe nefasto e covarde como todos os outros pelos quais a nossa democracia passou, pois só existe porque existem pessoas covardes que acham que podem ganhar no tapetão, no grito, que podem difamar as pessoas para usurparem os seus cargos legitimamente eleitos. A presidenta Dilma foi eleita por mais de 50 milhões de votos dos brasileiros e estes votos têm que ser respeitados.

INV - Como você avalia a conjuntura internacional, em especial da América Latina?

RO - Todos os homens e mulheres que fazem política na América Latina sabem que quando se quer atingir a região para dar um golpe de morte nas mudanças no continente o coração está no Brasil. Porque o Brasil, em toda a América Latina, é o catalizador das energias políticas que aí estão. Então, eles vem pela Argentina, vem pela Bolívia, vem pela Venezuela, mas na verdade, a grande intenção do imperialismo norte-americano, de modo particular, é atingir o centro da América Latina, que é o Brasil. Temos resistido, e tenho para mim que o povo brasileiro não dará ao imperialismo uma vitória fácil, haveremos de resistir, não deixaremos que passem, porque sabemos nossa responsabilidade. Uma liderança política brasileira, seja homem ou mulher, tem que ter essa convicção, pois não temos somente a responsabilidade com o nosso território nacional, somos a grande pátria mãe da América Latina, a Pacha Mama, e somos parte deste contexto.

INV - Nas próximas eleições, quais são as propostas que você tem para o povo carioca?

RO - As pessoas sempre me fazem esta pergunta e eu respondo que um mandato popular como o nosso, nestes quase oito anos, é um mandato que tem que estar aberto a acolher qualquer demanda que chega. Então, o que podemos nos comprometer é com aquilo que é nossa atividade principal, que é produzir legislação e fiscalizar o executivo. Queremos também, enquanto fazemos isso, hastear as nossas bandeiras, que são a defesa da democracia, das pessoas darem a sua opinião e terem suas liberdades individuais e coletivas respeitadas. As nossas bandeiras estão fincadas em alguns aspectos como a defesa do comércio ambulante na cidade, a defesa da população em situação de rua e de políticas públicas voltadas para este segmento, a defesa da moradia adequada na nossa cidade, a defesa da educação, a defesa da cultura, e da mobilidade urbana. Não abriremos mão dessas bandeiras. E tudo isso está coroado na discussão de uma educação que seja promotora de cidadania e de uma cidade que seja para todo mundo. Então, o que me proponho sempre quando entro em uma campanha é de ser um agente que leva o seu grupo a discutir que a cidade do Rio de Janeiro não seja uma cidade para alguns e não somente para a maioria, mas uma cidade para todos. Essa é a nossa marca, prometer o nosso empenho de continuar trabalhando para que a cidade do Rio de Janeiro seja uma cidade para todos.

INV – Deixe uma mensagem para os leitores do Jornal Inverta.

RO - O Jornal Inverta é um bastião e uma vanguarda da nossa resistência. Se a gente pensar que o Inverta é um jornal mensal que propõe discutir com as pessoas um modelo de sociedade que equalize as diferenças e quer combater as desigualdades, e debater que todos tem o direito de viver com a dignidade que merecem, é um jornal que precisa ser muito valorizado. De minha parte, tenho este compromisso com o Jornal Inverta, de sermos, de acordo com as nossas possibilidades, divulgadores e estarmos ombreados com o jornal. Sabemos das dificuldades de uma mídia alternativa, que não faz parte da grande mídia ou da mídia hegemônica, para sobreviver neste mundo cão, onde o capital é quem manda. E pensar que a comunicação está nas mãos de 5 ou 6 famílias que tem recursos dos mais variados da iniciativa privada, dos órgãos públicos, dos parlamentares. O Inverta sobrevive da sua luta diária, do jornal que é passado para o leitor que dá uma pequena contribuição. A sobrevivência do Jornal Inverta é para nós um ponto de honra para continuarmos afirmando que a comunicação no país precisa ser democratizada. Então, toda a vida, toda a luta, toda a força, todo o apoio ao Jornal Inverta! Aos seus colaboradores, aos seus articulistas, ao seu corpo editorial! Um jornal que não esconde a cara. Um jornal que não se coloca em cima do muro e que tem posição, que demonstra aonde quer chegar, e que ao mesmo tempo estabelece esta relação democrática em discutir com as pessoas os rumos do nosso país e os rumos da América Latina. Muito obrigado.

Julio Cesar de Freixo Lobo