Teatro das sombras: escalonada do fascismo no Brasil

A guinada para a esquerda é nítida, a América Latina se levanta no século XXI contra o neoliberalismo e contra os desmandos dos EUA. Lula, no Brasil, realizou reformas tão essenciais que deixou a burguesia entreguista do país de forma atônita, perdida e desorientada.

O teatro das sombras já está com a lona erguida e já temos todos os integrantes a postos para o show começar. Corram, cada um no seu lugar! Texto e roteiro bem decorados, todos em suas marcações! E Reação!!!

A realidade política brasileira pode ser considerada um teatro das sombras, na qual o fascismo ressurge das entranhas da escuridão. Se por um longo período eles atuavam às escondidas, nas espreitas, atacando pelas costas, saíram para dar lugar aos outros companheiros de sistema: os liberais. Após o fim do regime civil-militar brasileiro, o fascismo tradicional ficou na retaguarda, apenas praticando a repressão física e perseguição aos movimentos sociais de esquerda, enquanto os neoliberais faziam a festa na privatização, arrocho salarial, entrega do Brasil ao capital estrangeiro, leis antipopulares e de clara repressão, violação da Constituição, enriquecimento ilícito às custas dos trabalhadores (que nos diga Miriam Dutra sobre os presentes recebidos de FHC).

Enfim, no início do terceiro milênio as coisas mudaram para a direita. Na Venezuela, a partir de 1999, o Comandante Hugo Chávez impulsiona o movimento revolucionário bolivariano, no Brasil o metalúrgico sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva assume o governo em 2003; a Argentina se levanta em 2001, Néstor Kichner é eleito presidente em 2003; mais adiante, a Bolívia tem seu primeiro presidente indígena Evo Morales em 2006; no Equador, sobe ao governo Rafael Correa, em 2007; o Chile recebe como presidenta uma filha de um resistente da ditadura de Pinochet, Michelle Bachelet em 2006; a Frente Ampla do Uruguai vence sua primeira eleição para a presidência com Tabaré Vázquez em 2005, depois com o ex-guerrilheiro Pepé Mujica em 2010 e reelege Tabaré em 2014.

A guinada para a esquerda é nítida, a América Latina se levanta no século XXI contra o neoliberalismo e contra os desmandos dos EUA. Lula, no Brasil, realizou reformas tão essenciais que deixou a burguesia entreguista do país de forma atônita, perdida e desorientada. Um ex-sindicalista que veio para o ABC paulista em um pau-de-arara não podia fazer tais coisas: aumento real do salário mínimo, avanços nas leis trabalhistas, criação de programas como Bolsa Família e Luz Para Todos, redução da inflação de 12,5%, em 2002, para 4,3 em 2009, pagou a dívida com FMI e Clube de Paris, criou o ProUni e construiu 18 universidades federais garantindo o acesso à educação superior para os pobres e criou as cotas para negros. Enfim, foram diversas reformas que elevaram o poder de compra e acesso a benefícios que antes os trabalhadores não podiam nem imaginar. Ir para o nordeste de férias em ônibus nunca mais, agora o trabalhador viaja é de avião.

Essas reformas já poderiam ter sido feitas em décadas anteriores com o presidente João Goulart, mas foi derrubado por militares e pela burguesia com financiamento direto do governo dos EUA. Pobre no Brasil não pode ter acesso e direitos a nada, pensa a elite entreguista brasileira. Assim, as mudanças realizadas pelo governo Lula levaram a uma aliança entre liberais, conservadores e fascistas para findar com o avanço dos trabalhadores. Porém, Lula consegue se eleger duas vezes e mais duas com a sua sucessora Dilma Rousseff.

Já que o PSDB, Organizações Globo, fascistas e empresariado não conseguem emplacar seu candidato nas eleições o jeito é o golpe! Desde que a presidenta Dilma venceu a eleição em 26 de outubro de 2014 a escalada golpista avança a passos largos. A Caixa de Pandora foi aberta pelo PSDB. Os fascistas que ficavam na retaguarda avançam e esbravejam no Congresso Nacional, o infame Jair Bolsonaro atualmente faz parte da Comissão de Direitos Humanos da Câmara (nada mais absurdo!). Como presidente da Câmara dos Deputados está o estelionatário Eduardo Cunha que, para alegria do golpismo, aderiu com unhas e dentes ao processo de impeachment da presidenta petista.

Os golpistas armaram seu teatro das sombras contando com a mídia – principalmente Organizações Globo e Abril -, setores do Poder Judiciário, setores da Polícia Federal e grupos fascistas para gritarem nas ruas.

A Operação Lava Jato que investiga os esquemas de corrupção na Petrobrás (ligação entre doleiros, empreiteiras e políticos em uma rede de corrupção) poderia ser importante para o país, se não fosse seletiva e golpista. Baseada em delações premiadas, como a do doleiro Alberto Youssef; Paulo Roberto, ex-diretor de abastecimento da Petrobrás; Júlio Camargo, executivo da Toyo Setal; Pedro Barusco, ex-gerente da Petro; entre outros “caguetas”, esses criminosos confessos em seus depoimentos trazem nomes de pessoas que também participaram no esquema. O que é complicado nessa Operação é a seletividade das ações; os nomes de Aécio Neves e Antônio Anastasia, ambos do PSDB, além da informação de que 42% do dinheiro do esquema ia para o partido tucano, não estão sendo investigados!

Eduardo Cunha, outro meliante ligado a diversas irregularidades continua sendo presidente da Câmara, depois de meses com provas contundentes de suas ações de corrupção. Apenas agora, em março de 2016, que o STF o colocou como réu na Operação.

A República do Paraná comandada pelo juiz responsável pela operação, Sergio Moro, só se dispõe a investigar aqueles ligados ao ex-presidente Lula e à presidenta Dilma. Ser filiado ao PT e ser amigo de Lula já é crime! A Rede Globo em aliança com o juiz Moro criaram o teatro certo para que os grupos fascistas pudessem sair às ruas para protestar contra os petistas. O ódio de classe fica nítido nas frases de cartazes dos golpistas, todos chamando pela intervenção militar aos moldes de 64.

A Globo, como fez no passado com Getúlio Vargas (1954), busca retirar a presidenta Dilma do governo e para isso ataca o ex-presidente Lula. De forma leviana, no dia 3 de março a revista IstoÉ divulga a delação premiada de Delcídio do Amaral (então senador do PT), no qual supõe a participação de Lula e Dilma nos esquemas de corrupção, além de dizer que ambos fazem de tudo para barrar as investigações. Uma delação realizada por um senador totalmente desonesto e macabro, e que acima de tudo é falsa! Uma delação que o próprio Delcídio nega. O fato de que o procurador-geral da República Rodrigo Janot nega sua existência é espalhado nas manchetes dos principais jornais do país, para o qual o Jornal Nacional da Rede Globo cria um espetáculo.

No dia seguinte ao enterro do jornalismo brasileiro, a PF bate à porta de Lula para levá-lo para um depoimento coercivo em Congonhas. Lula, que nunca antes havia se negado a prestar esclarecimentos e depoimentos à Justiça, é levado para o espetáculo do teatro das sombras, como disse após sair do depoimento do show de pirotecnia. Lula foi levado para a PF pelo fato de ser o grande alvo dos fascistas e golpistas que não aceitam os avanços da classe trabalhadora. Lula foi levado e escrachado pela Globo pelos grandes feitos de seu governo e por eleger sua sucessora.

Lula, com sua grandiosidade política, realizou dois discursos que mostram o grau da importância da organização dos movimentos sociais e dos trabalhadores nesse momento de acirramento da crise do capital e da luta de classes. Em sua fala após o depoimento em Congonhas demonstra sua insatisfação com métodos grotescos do juiz Moro e da Rede Globo. Já à noite no pátio do Sindicato dos Bancários em São Paulo afirma que está de novo na briga e vai para cima dos golpistas chamando a militância petista, os movimentos sociais e trabalhadores a irem à luta com ele.

A tarefa atual dos comunistas revolucionários, dos militantes dos movimentos sociais, progressistas, democratas radicais, nacionalistas de esquerda e sindicalistas é defender a democracia brasileira! A batalha é para barrar o avanço fascista e ir com Lula para às cabeças da luta por um Brasil popular!

Caso a mídia golpista e os fascistas ganhem essa batalha poderemos viver o pior regime político para os trabalhadores. A filósofa Marilena Chauí, desde as eleições de 2014, vem alertando que caso os golpistas consigam o impeachment “1964 parecerá coisa de criança perto do que vem pela frente”. Com a crise estrutural do capitalismo, o fascismo se levanta como uma alternativa, e assim como foi na crise da década de 1930, na Europa e América Latina, eles orquestram golpes e um discurso de ódio que é seriamente amplificado pela mídia.

O historiador Eric Hobsbawm, em uma análise sobre o fascismo, nos ajuda a analisar os motivos desse regime perambular entre nós novamente:

“Deve-se dizer no entanto que o fascismo teve algumas grandes vantagens para o capital, em relação a outros regimes. Primeiro, eliminou ou derrotou a revolução social esquerdista [na Alemanha], e na verdade pareceu ser o principal baluarte contra ela. Segundo, eliminou os sindicatos e outras limitações aos direitos dos empresários de administrar sua força de trabalho. Na verdade, o ‘princípio de liderança’ fascista era o que a maioria dos patrões e executivos de empresas aplicava a seus subordinados em suas firmas, e o fascismo lhe dava justificação autorizada. Terceiro, a destruição dos movimentos trabalhistas ajudou a assegurar uma solução extremamente favorável da Depressão para o Capital.” (Hobsbawm, 1999, p. 132).

As forças populares correm sério risco com a escalada fascista. Precisamos defender a democracia brasileira e pedirmos os avanços necessários para a presidenta Dilma. É chegada a hora dos comunistas revolucionários saírem às ruas para mostrar que o caminho e a única solução para a crise é a estrada do socialismo! Dessa forma, a aglutinação em uma frente ampla de defesa da democracia é nossa tarefa, somar força dentro da Frente Brasil Popular é uma acertada forma de prática revolucionária. Nossa defesa é nesse momento criar laços com todos os defensores dos direitos dos trabalhadores e direitos democráticos. Não devemos ficar apenas nos defendendo dos ataques golpistas, chegou a hora de irmos para cima e transformar o massacre midiático e “judicialização” da política em saída democrática popular.

Uma frente aos moldes da plataforma “O Petróleo é nosso” impulsionada pelos comunistas na década de 1950 é um exemplo de como organizar a sociedade perante o fascismo. A força progressista da sociedade civil organizada em defesa de suas riquezas e seus direitos.

Por uma democracia radical, popular e socialista!

Diego Becker e Marcos Leite