Rússia enfrenta o Estado Islâmico

 

No dia 30 de setembro, a Rússia iniciou uma ofensiva contra o Estado Islâmico na Síria a pedido do governo de Bashar Al-Assad. Tal investida permitiu avanços consideráveis do exército sírio em Damasco, Alepo e na montanhosa Latakia, além de limitar os ataques da coalizão liderada pelos Estados Unidos no país. O Ministério de Defesa russo calculou que, em um mês, sua força aérea destruiu mais de 800 posições do grupo fundamentalista em 934 missões de combate.

O Estado Islâmico, ou Daesh (iniciais do grupo em árabe), é uma organização wahhabista que ocupa parte da Síria e do Iraque. Como escrito na edição 475 do jornal Inverta, “pouco se comenta, porém, que o EIIL e seu antigo aliado, a Frente Al Nusra, braço da Al Qaeda na Síria, só foram capazes de crescer graças às doações dos aliados da Casa Branca no Golfo Pérsico. De acordo com o professor Michel Chossudovsky, da Universidade de Ottawa, “a Arábia Saudita e o Catar têm financiado e treinado os terroristas do EIIL em nome dos Estados Unidos. Israel está abrigando o EIIL nas Colinas de Golã, a OTAN, por intermédio do alto comando turco, tem coordenado, desde março de 2011, o recrutamento de mercenários jihadistas para combaterem na Síria. Além disso, as brigadas do Daesh, tanto na Síria quanto no Iraque, estão integradas por conselheiros militares e forças especiais do Ocidente’”.

Desde o começo do conflito, as potências imperialistas e a grande imprensa têm insistido na falsa tese dos “rebeldes moderados”. Na Síria, os Estados Unidos e aliados realizavam indiscriminadamente, até a entrada da Rússia, ataques não autorizados pelo governo do país ou pela ONU, em flagrante contraste com o direito internacional. Defendia-se a ilegitimidade do governo de Assad e a necessidade de apoiar estes “rebeldes moderados” em sua derrubada. E não obstante imputarem à incursão russa baixas civis não confirmadas, passaram a criticá-la por atingir esta suposta “oposição moderada” que só existe em discurso. Como disse o ex-candidato ao senado dos Estados Unidos, Mark Dankof, “é risível (...) e evidencia a enxurrada de mentiras urdida pelos governos dos EUA, Israel, Arábia Saudita, o Conselho de Cooperação do Golfo e Turquia sobre o que tem ocorrido na Síria, os quais são claramente responsáveis por 250 mil mortos, um milhão de feridos e nove milhões de desabrigados no país”.

Cabe registrar que, menos de uma semana depois do início das operações russas teria lugar um acontecimento de grande importância simbólica − e pouca atenção midiática −, por representar o que tem sido a atuação destrutiva dos Estados Unidos na região: o bombardeio aéreo a um hospital da organização Médicos Sem Fronteiras em Kunduz, no Afeganistão, que vitimaria 22 pessoas. Curiosamente, as palavras que melhor definem o caráter de operações como esta foram ditas pelo próprio presidente Obama em fevereiro de 2013: “sempre que bombas forem utilizadas para atingir civis inocentes, estamos diante de um ato de terrorismo”.

Na reunião do Clube de Discussão Internacional Valdai, no final de outubro, o presidente Vladimir Putin reiterou o convite realizado na Assembleia Geral da ONU de uma ação conjunta contra o terrorismo e reforçou sua crítica contra a tentativa estadunidense de consolidação de um poder unilateral no mundo. Os ataques realizados pela Rússia contra o Estado Islâmico na Síria revelam-se cada vez mais efetivos e o chefe da Comissão do Parlamento iraquiano para a Segurança Nacional e Defesa, Hakem al-Zamli, anunciou recentemente que Bagdá autoriza uma intervenção militar de Moscou. Apesar de Obama continuar minimizando publicamente o poder russo, a correlação de forças na região dá cada vez mais razão às palavras de Putin, e o recuo do Estado Islâmico e da própria coalizão estadunidense evidenciam que estamos diante de mais uma derrota político-militar dos Estados Unidos.

Vinicius Cione