Ataques a Paris e a “guerra ao terror” de Hollande

 

Na noite de 13 de novembro, houve uma série de ataques em diversos pontos de Paris: ocorreram explosões próximas ao Stade de France, onde as seleções da França e da Alemanha disputavam um amistoso, e tiroteios em outras regiões da cidade − entre as quais, a casa de show Bataclan. Prontamente, em rede nacional, o presidente François Hollande declarou estado de emergência e anunciou que seriam reforçados os controles nas fronteiras. Na manhã do dia seguinte, Hollande e sua equipe de segurança já haviam chegado à conclusão de que o Estado Islâmico era o autor dos ataques, algo corroborado minutos depois por uma declaração do próprio grupo wahhabista, o que levou o governo francês a lançar sua própria versão da “guerra ao terror”.

Até então, a participação do país na guerra da Síria se limitava a alguns voos de reconhecimento e ataques esporádicos contra o Estado Islâmico. No domingo, dia 15, 12 caças franceses bombardeariam Raqqa, causando a morte de 130 pessoas, enquanto o porta-aviões Charles de Gaulle seguia para o Mediterrâneo Oriental com mais 36 caças. É necessário pontuar que a atuação francesa tem seguido a orientação estadunidense de “mudança de regime”, ou seja, ao lado do combate ao Estado Islâmico defende-se o fim do governo Assad. Tratam-se, assim, de incursões que violam a soberania síria, pelo fato de não terem sido diretamente solicitadas pela administração legítima de Damasco, e reafirmam o tradicional desrespeito das grandes potências à autodeterminação dos povos. É curioso analisar a hipocrisia do imperialismo à luz das palavras de Hollande logo em seguida aos ataques cometidos em Paris: “é um ato de guerra que foi preparado, organizado e planejado no exterior, com cumplicidade de dentro da França”.

São notáveis, aliás, as semelhanças com os atentados ao WTC e ao Pentágono. Entre as histórias mal contadas está a do passaporte encontrado próximo ao corpo de um dos homens-bomba do Stade de France. De acordo com o jornal Le Monde, a própria ministra de Justiça, Christiane Taubira, atestou a falsidade do documento e, no Twitter, o diretor de emergência da ONG Human Rights Watch, Peter Bouckaert, escreveu que passaportes falsos são “amplamente vendidos na Turquia”. Nos atentados de 2001 aos Estados Unidos, a despeito da colisão dos aviões e do desmoronamento das torres, foi encontrado um passaporte intacto a poucas quadras do WTC, que pertenceria a um dos sequestradores, “Satam Al Suqami”. A coincidência em minutos entre a rápida conclusão tirada pelo Estado francês na manhã seguinte sobre a autoria dos ataques e a admissão de responsabilidade por parte do Estado Islâmico também suscita algumas dúvidas, ainda mais diante das declarações dadas no dia 16 pelo presidente russo Vladimir Putin, de que cerca de 40 países, incluindo membros do G-20, financiam o ISIS.

Num discurso realizado na sala do Congresso do Palácio de Versalhes, Hollande pediu uma atualização da Constituição − a retirada da cidadania francesa de pessoas com dupla cidadania condenadas por terrorismo − e defendeu novas formas de controle das fronteiras na Europa. Além disso, apresentou um projeto de lei de prorrogação por três meses do estado de emergência, iniciado no dia 14 com duração inicial de 12 dias, e anunciou a ampliação das forças de segurança, com a abertura de cinco mil novos postos de trabalho na polícia e na guarda civil. Não haverá cortes no orçamento da Defesa e o país já anunciou que não conseguirá cumprir com as regras de estabilidade orçamental (redução do deficit público) exigidas pela União Europeia.

As medidas tomadas pelo governo “socialista” francês só reforçam a tendência geral de uma UE mais xenofóbica internamente e mais próxima dos Estados Unidos no cenário internacional. Nos últimos anos, num contexto de crise do euro, estes dois processos têm caminhado unidos: por um lado, o crescimento da extrema direita até sua projeção política com uma vitória expressiva nas últimas eleições para o Parlamento europeu e, por outro, um alinhamento crescente com as diretrizes da OTAN, inclusive a ponto de impor sanções contra a Rússia, devido a sua pronta reação diante do golpe de Estado neonazista-neoliberal perpetrado na Ucrânia. No caso especificamente francês, o controle de fronteiras anunciado está em plena consonância com o discurso anti-islâmico há muito sustentado pela Frente Nacional de Marine Le Pen, e os bombardeios aéreos de Hollande contra a Síria remetem à intervenção militar desencadeada por seu antecessor, o conservador Nicolas Sarkozy, contra a Líbia de Gaddafi.

Como já se observou a partir da experiência estadunidense, os únicos propósitos de uma “guerra ao terror” são alimentar o complexo industrial-militar dos países que a lançam e intensificar violações aos direitos humanos em nome da “segurança nacional”. Diante deste recrudescimento da agressividade francesa cabe retomar os ensinamentos de Adolfo Sánchez Vázquez: “desde que a violência se instala na sociedade, a serviço de determinadas classes sociais, toda violência suscita sempre uma atividade oposta, e uma violência responde a outra”.

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