Entrevista com o cineasta Silvio Tendler

Silvio Tendler nasceu em 1950, no Rio de Janeiro, e já produziu cerca de 40 filmes, entre curtas, médias e longas-metragens. Os documentários O mundo mágico dos Trabalhões (1 milhão e 800 mil espectadores), Jango (1 milhão e 100 mil) e JK (800 mil) detêm as maiores bilheterias desse gênero no Brasil.

Silvio Tendler nasceu em 1950, no Rio de Janeiro, e já produziu cerca de 40 filmes, entre curtas, médias e longas-metragens. Os documentários O mundo mágico dos Trabalhões (1 milhão e 800 mil espectadores), Jango (1 milhão e 100 mil)  e JK (800 mil) detêm as maiores bilheterias desse gênero no Brasil.

Em 2005 recebeu o Prêmio Salvador Allende no Festival de Trieste, Itália, pelo conjunto da obra. Participou da entrevista de homenagem do CEPPES ao centenário de Oscar Niemeyer em 2007, neste mesmo ano, recebeu a Medalha Imprescindível concedida pelo Jornal INVERTA, no ano seguinte, foi homenageado no X Festival de Cinema Brasileiro em Paris, com uma retrospectiva de seus filmes.

Tendler também  foi condecorado com a Medalha Tiradentes, da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, por relevantes serviços prestados à causa pública do Estado.

INV - Como se deu sua opção para trabalhar com o cinema?

ST - A minha opção é política. Em 1964, eu era um garoto de Copacabana, classe média, quando veio o golpe de Estado e me pega no contrapé.

Sou de uma família liberal de esquerda, meus pais nunca foram militantes de nada, mas sempre votaram à esquerda e eu morava em um ambiente nitidamente udenista, de direita.

Diante do golpe militar, a gente tinha que ficar meio calado nas ruas, não dar bandeira, mas a gente lia, estudava, se informava. Então, comecei a acompanhar melhor o golpe de 64.

Primeiro foram presos e caçados os sindicalistas, os estudantes, foram caçados os parlamentares de esquerda, os militares que apoiavam o governo João Goulart, todo mundo que tinha uma militância de esquerda foi sendo perseguido.

Foi fechada a União Nacional dos Estudantes (UNE), foram fechados os sindicatos, militares expulsos das Forças Armadas, e percebi que o único espaço que havia sobrado para as pessoas agirem politicamente, com uma relativa liberdade, era o espaço da imprensa, das artes e da cultura.

Então, a partir de 1964, o que é importante no Brasil em termos de militância? Era o Teatro de Opinião, o Cinema Novo, as músicas de vanguarda, as músicas que emigram da bossa nova para a música de protesto, e os filmes. E eu começo a entrar nessa maré, começo a frequentar esse movimento artístico cultural.

Frequento muito o Teatro Opinião, leio muito a revista Civilização Brasileira do Ênio da Silveira, ouço as músicas daquela geração que estava começando: Chico Buarque, Edu Lobo, Caetano Veloso, Maria Bethânia.

Começo a acompanhar esse movimento e o pessoal do Cinema Novo e a querer fazer coisas semelhantes as deles.

Tem o festival de cinema do Jornal do Brasil, que era um festival de cinema amador, em que pessoas um pouco mais velhas que eu podiam encaminhar seus filmes, e eu disse: é nessa que eu vou, também quero fazer isso! E entro para o movimento cineclubista.

A minha grande escola de cinema foi o cineclubismo, que era onde a gente se encontrava para ver filmes, discutir filmes e autores, e também fazer política.

Então, me torno cineclubista, de cineclubista venho a ser o presidente da Federação de Cineclubes do Rio de Janeiro em 1968 – que é um ano muito louco na história – e no mesmo ano sou pego nessa função de militante político.

E a partir daí segui em frente. Primeiro fiz um filme – minha primeira tentativa –  foi quando conheci o marinheiro João Cândido e consegui entrevistá-lo, meu primeiro filme era sobre ele e a Revolta da Chibata. Como era uma conjuntura de muita repressão, a pessoa que estava guardando os negativos ficou com medo e queimou.

Então esse filme ficou só na minha memória. Foi a partir desse momento que resolvi virar cineasta. Acabei abandonando o curso de Direito e a barra aqui estava muito pesada, respondi a um processo por um sequestro de avião, do qual não participei, não sabia nada, mas se fosse pego ia entrar na porrada e morrer como herói; e não ia denunciar ninguém, não por coragem, mas por desconhecimento mesmo.

Quando consegui sair dessa, pois via meus amigos morrendo por aqui, como canta Soy loco por ti América: “de susto, de bala ou vício”.

Quer dizer, ou as pessoas estavam na luta armada, morrendo, ou as pessoas estavam sendo assassinadas ou estavam se dedicando às drogas e eu não queria viver disso!

Salvador Allende ganha as eleições no Chile e eu disse: vou pra lá! E fui. Comecei a fazer cinema, virei cinegrafista, participei da Cinefilmes, participei da Editora Nacional Quimantú. Então, tive uma grande atuação ali, isso em 1970, 71. No começo de 72 afirmei: quero continuar estudando cinema, vou para a França.

Na França, também não me matriculei em nenhum grande curso de cinema – o grande curso de cinema na época era o  Instituto de Altos Estudos Cinematográficos (IDHEC) ou a Escola Técnica de Fotografia e Cinema de  Lumière (Vaugirard), que era mais para técnicos – não entrei em nenhuma das duas, que aceitavam muito poucos alunos.

Fui trabalhar no cinema com cineastas de esquerda: trabalhei com Chris Marker, com Joris Ivens, conheci e estudei com o Jean Rouch, e fui na prática me tornando cineasta.

Como eu precisava de um diploma universitário e precisava estar matriculado em uma escola, para poder ter minha permissão de residência, me matriculei no curso de Historia e então me achei, vi que minha paixão era realmente por História e comecei a fazer História e Cinema ao mesmo tempo.

Depois veio o golpe no Chile, e eu fiz um filme chamado Espiral, trabalhei no Coletivo e fui aprendendo cinema. Voltei ao Brasil em 1976, e o que tinha acontecido de mais importante em termos políticos foi o enterro de JK, e decidi fazer um filme sobre Juscelino.

INV - Você pode falar um pouco sobre sua dissertação de mestrado, na qual você estudou sobre o Joris Iven?

ST - Os meus dois gurus são o Joris Ivens e o Chris Marker, de maneiras diferentes. O Joris Ivens era um cara muito doce, muito paternalista, muito afetuoso, me autorizou a ver todos os filmes dele, me ensinava cinema e tinha uma paixão muito grande pelo Terceiro Mundo, e me ajudou muito.

E o Chris Marker era um cara mais duro, uma alma muito mais dura, mas também tão generoso quanto o Ivens. Então, com esses dois grandes gurus do cinema eu tive minha aula particular, fiz a minha escola com eles e me tornei cineasta graças a eles.


INV - Você tem um artigo chamado “Cinema, história e paixão”, onde fala sobre esses três elementos: cinema, história e memória. Pode desenvolver melhor essa relação?

ST - Sim. São minhas três grandes paixões! Acho que eu adoro cinema, adoro história e sou movido à memória. Mas sou movido à memória não como um refúgio no passado, mas como um refúgio para o futuro.

Acho que a história serve para me balizar para o futuro, assim como a memória. Não fico me alimentando de saudades, me alimento de vontades de mudar e transformar a vida.

O meu cinema é uma tentativa de participar das lutas políticas por transformaçções. Isso é o cinema! O conhecimento da história me impulsiona ao futuro e a memória também. Essas são minhas grandes paixões na vida.

INV - Hoje há uma questão que tem chamado muito a atenção de quem acompanha o audiovisual e as novas mídias, é como ela altera o comportamento. O exemplo que eu registro aqui é o caso recente de uma dona de casa em Santos, em que criaram um perfil falso na Internet e ela foi linchada brutalmente. Então, você pode nos iluminar um pouco sobre isso, você que tem uma experiência grande em trabalhar com a imagem, trabalhar com história e cinema, como você vê essa questão?

ST - Na verdade, a grande mídia é voltada para construir esse tipo de evento. Na realidade, ela vai criando pânicos na população e vai criando bandidos.

E você tem hoje a mídia alternativa que pode ser usada de duas formas: de uma forma libertária, como fazem grande parte dos usuários que divulgam quando a grande mídia começa a esconder as coisas, e as pessoas começam a revelar pela internet, que são armas de informação, mas você tem também os canalhas que fazem esse tipo de coisa, quando promoveram o linchamento de uma mulher.

Muitas vezes isso é feito como uma molecagem, uma brincadeira como outras tantas ou como um ato perverso mesmo de vingança, com intenção de fazer mal.

E isso é um quadro que nós estamos acostumados a ver na grande mídia, ela também deforma mais do que informa. Se você quiser informação, e é uma coisa que o Milton Santos me disse, e  confesso a vocês que eu duvidei um pouco, mas que ele tinha razão, e era o seguinte: o povo não acredita na grande mídia, o povo quando quer saber procura a pequena mídia, e acredito que a internet está dentro dessa “pequena mídia”.

Mas a internet do bem e não a do mal. Esse perfil que se criou dessa mulher foi algo canalha, assassino, mas existe a forma libertária de utilizá-la também.

INV - Comente a relação dos seus filmes com o público:

ST - Olha, continuo tendo essa relação com o público. Só para vocês terem uma ideia, o que mudou foi o meio de circulação.

Quando eu fiz esses filmes, o Brasil tinha 5 mil cinemas, hoje o Brasil tem 2.800 mil e poucos; apenas 7% do território nacional são cobertos por cinema; 93% não têm salas de cinema.

Desses 7%, a imensa maioria está dentro de shoppings. Então, quem vai ver um filme político num shopping? Onde se vai comprar uma roupa de marca, comer num fast food? Mais do que o filme, hoje no cinema importa mais o refrigerante, a pipoca.

Mudou a característica do cinema em uma estratégia perversa, premeditada, eles transformaram o cinema de arte em entretenimento.

Os bons filmes a que nós assistimos, como Fellini, Rossellini, Bergman, o cinema italiano; ou você vê na televisão ou não vê, porque no cinema você não assiste mais.

Um país que tem 200 milhões de habitantes, que tem um público potencial 4 vezes maior que o da França, fica feliz da vida quando diz que batemos o recorde, quando fazemos 20 milhões de espectadores, ou seja, 10% da população.

Acontece que vocês sabem que a pessoa que vai ao cinema não vai uma vez só, vai mais, duas, três vezes, então, esses 10% da população brasileira que vai ao cinema, na realidade se reduz a 3, 4 ou 5%, porque o cinema está se esvaziando de povo.

Aonde que o povo vê cinema hoje? O povo não tem dinheiro para ir ao shopping porque ir ao shopping significa pegar ônibus, sair de perto de casa, pagar caro no ingresso.

Como o povo vê os filmes hoje? Ou é copia pirata mesmo, ou é televisão ou é YouTube. Então os organismos de Estado, pois a maior parte dos filmes brasileiros são feitos com recursos públicos, e esses recursos públicos deveriam contabilizar os espectadores.

Eles transformaram os espectadores em consumidores; você hoje não é um cidadão, é um código de barras. Se você compra um ingresso, tem um código de barras, o teu ingresso é contabilizado.

Mas se você foi na laje, assistiu um filme debaixo de chuva, pegando frio, mas que você queria assistir, não é contabilizado. Nós estamos vivendo essa realidade. Meus filmes dão muito público.

A tirar por vocês mesmos a quantidade de cópias piratas que têm dos filmes e que vocês exibem nas escolas, passam para os estudantes, assistem, co-assistem, compram ou não compram no camelô, veem no YouTube.

Pergunte a essa menina, quantos filmes ela já viu no YouTube? [Nesse momento, Sílvio dirige-se à Beatriz Moraes, estudante de Geografia e admiradora de seus filmes].

Isso não é contabilizado e deveria ser. Ela não é criminosa, ela quer ver cinema brasileiro! E não pode ser criminalizada por querer ver um produto que não é oferecido a ela.

Você entra no YouTube e visualiza O veneno está na mesa 1 e vê que já estamos com mais de 300 mil espectadores; O veneno está na mesa 2, que foi lançado há 3 ou 4 meses, já tem mais de 52 mil espectadores, o Milton Santos tem mais de 300 mil espectadores, então, se for contabilizar, todos os meus filmes no YouTube têm muitos espectadores, mas não contabilizam, e vêm me dizer que esse tipo de cinema é um fracasso, fracasso é a política deles, esse cinema existe, esse cinema tem público e minha luta é essa, que o público alternativo de cinema seja reconhecido.

INV - Há uma recente decisão do Governo de dirigir mais verbas para a produção audiovisual, gostaria de comentar sobre isso?

ST - Eu ainda não estou bem informado a respeito, mas o que posso adiantar é que dinheiro para fazer cinema existe, assim como existe um grande equívoco político na maneira como esse dinheiro é aplicado, as pessoas estão acreditando muito mais na política de um cinema voltado para o entretenimento do que para a cultura.

Moral da história: os argentinos têm dois Oscar e nós nenhum. Na verdade, na Argentina, o cinema é tratado como um bem cultural e que além de tudo dá dinheiro, e que por isso eles têm o reconhecimento de premiações internacionais de grandes filmes.

Nós queremos fazer filmes para agradar o público, e ficamos fazendo aquelas comediazinhas de 30 anos atrás, acaba que ficamos sem público e sem cinema, esse é o drama.

INV - Você trabalhou também com ficção. Fale-nos um pouco sobre essa experiência:

ST - Meu trabalho de ficção é muito pequeno. Trabalhei nos Anos Rebeldes, à época na Globo, em 1992, em que fiz mais a parte documental; fiz o Castro Alves, que é um filme com atores; fiz o filme Retrato em Preto e Branco, sobre Hipólito da Costa, o primeiro jornalista brasileiro; fiz Osvaldo Cruz - o médico do Brasil, que também tem atores, mas com encenações sempre muito diferenciadas, sempre com uma estética, com um estilo muito mais documental.

Eu não sei fazer ficção. Minha marca é o documentário.

INV – Fale sobre uma de suas obras, considerada a mais importante, que é Utopia e Barbárie, de 2005. Como foi a realização e sua repercussão?

ST - Depende do ponto de vista. A realização foi maravilhosa porque foram 19 anos viajando pelo mundo, montando caquinho por caquinho.

Fui ao Vietnã entrevistar o General Giap, são pouquíssimos os jornalistas do mundo inteiro que conseguiram entrevistá-lo, e o amigo de vocês conseguiu, isso pra mim já é um trunfo, ele cumpre 94 anos completamente lúcido.

Fui a Israel e à Palestina, fui em busca da paz. Acho que é muito fácil você ser a favor da guerra, é fácil você tomar partido em um dos lados, chamar os palestinos de terroristas ou os israelenses de assassinos.

É muito mais difícil você dizer: “gente vamos parar com essa guerra que só interessa à indústria de armamentos, e vamos partir para a paz, vamos partir para uma convivência de povos irmãos”. Então fui fazer isso.

Fui para Israel, busquei pensadores israelenses que pensam assim, busquei palestinos que pensam assim, busquei um ator israelense que é filho de mãe judia e pai árabe, e que tinha um teatro em Jenin e, posteriormente, foi assassinado. Eu havia conseguido entrevistá-lo. Fui buscar a paz.

Assim, fui viajando pelo mundo, entrevistei Galeano, Susan Sontag. Onde havia algum pensador interessante filmei. Filmei a presidenta Dilma quando ela era ainda ministra, chefe da Casa Civil, não era ainda candidata à Presidência da República, posteriormente é que veio a ser.

E tudo isso pra mim foi muito interessante, e as viagens muito divertidas. Aí entra o outro lado da coisa, teve muito sucesso, mas o fato da Dilma estar no filme, em 2010, levou a que a grande mídia boicotasse o filme, e assim o filme foi inteiramente boicotado.

Mas hoje, terminada as eleições, não impediram a eleição da Dilma, está aí eleita presidenta da República, e o filme continua também aí, circulando livremente, e os idiotas perceberam que haviam cometido uma gafe, porque o filme não era uma propaganda da Dilma, era um filme político, no qual a Dilma fazia parte por ter sido guerrilheira.

É um filme que me deu muito prazer em fazê-lo.

INV - Falemos agora um pouco sobre a situação de Nossa América. Há vitórias importantes, onde a esquerda tem sido vitoriosa em vários países, há importantes lutas sociais em curso. Como o seu olhar de documentarista vê esses acontecimentos?

ST - Vejo que, se você olha para o mundo hoje, verá que a América Latina é o continente onde está acontecendo alguma coisa.

A Europa está um marasmo só. Quando nós começamos, no início dos anos 2000, a viver as grandes crises por conta da globalização, a Europa vinha nos dar as lições, e compraram tudo por aqui, as telefonias foram privatizadas, os espanhóis compraram, os portugueses compraram, fizeram a festa, só que o receituário que eles fizeram com a gente eles não aplicaram pra eles, e não foram mais felizes.

Hoje o continente europeu está em uma tremenda crise, o continente americano, América do Norte, está em uma tremenda crise, e a Nossa América, com todos os problemas, com todos os percalços que ela tem, está lutando para se transformar, tem governos que estão sobrevivendo com grandes dificuldades, mas estão sobrevivendo, estão fazendo em escala e não estão perdendo nada.

Não entendem, por exemplo, a experiência cubana, como Cuba consegue sobreviver com tantas adversidades.

Os cubanos são mestres na política. Certa vez entrevistei e conversei com Fidel, eu e um grupo de estrangeiros, eu era do Comitê de Cineastas da América Latina, que ele recebia regularmente. Em uma dessas conversas ele disse: “eu sou político, não me olhem diferente”, e ele é um político, e sabe fazer política.

E a última grande tacada deles é que a Rússia, do Putin, acaba de anistiar Cuba de uma dívida de 90 bilhões.

Aí os norte-americanos ficam malucos! Quando acham que Cuba vai para a forca, Cuba saca um ás, tira a forca do pescoço, pega uma figura de rodeio americano e puxa em uma laçada.

Acho que a América Latina está sobrevivendo graças ao nosso talento e grandiosidade. A Nossa América. América de José Martí, América de Tiradentes, essa América que a gente gosta, América de Marighela.

INV - Aproveitando este tema, gostaríamos que comentasse sobre Os Cinco Heróis Cubanos. Fernando Morais escreveu o livro “Os últimos heróis da Guerra Fria”. Entre os quais, um deles está condenado a duas prisões perpétuas, todos punidos por lutarem contra o terrorismo naquela virada de 1994, quando as ameaças contra Cuba eram muito grandes. Você pode dedicar algumas palavras pela libertação dos Cinco?

ST - Claro! Sou solidário aos Cinco Heróis! Vejo que, a bem da verdade, são reféns da onipotência norte-americana. Os norte-americanos sabem que eles não fizeram mal nenhum a ninguém.

Estavam lá para se infiltrar e monitorar as organizações terroristas dos exilados cubanos que estavam tentando sabotar Cuba.

Os Cinco não estavam lá para fazer o mal, e um dia os Estados Unidos vão reconhecer isso. Um dia os EUA vão reconhecer a canalhice que fizeram com eles.

É triste que talvez alguns paguem com a própria vida, pois já estão presos há muitos anos... Para eles, minha total solidariedade!

INV - Há um trabalho seu mais recente, Militares Pela Democracia, de 2014, é o primeiro filme após o problema de saúde, esse período difícil que você viveu. Fale um pouco sobre isso e os novos projetos:

ST - Eu adoeci gravemente em 2011, depois de O veneno está na mesa fiquei tetraplégico, assunto o qual não vou me estender, porque está indo ao ar hoje, no Canal Brasil, um filme que meu amigo Noilton Nunes fez sobre mim, chamado A arte do renascimento, e que conta esta história minha durante este período, vale a pena vocês assistirem, está indo ao ar hoje às 22 h [a entrevista foi realizada em 13 de julho de 2014].

Depois que eu saí inteiro, quer dizer, após ter perdido totalmente os movimentos, estando tetraplégico, não me movia em uma cama, fui salvo pelo Dr. Paulo Niemeyer, quem me salvou e me operou a medula, e estou recuperando os movimentos; estou aqui hoje conversando com vocês, gesticulo com as mãos, fico em pé, graças a ele eu recuperei um pouco da minha liberdade.

Mas, falei:  enquanto eu tiver a cabeça boa, ninguém me segura, e desandei a fazer filmes. Então, fiz alguns episódios para a televisão sobre Os caçadores da alma; fiz recentemente Os advogados contra a ditadura, Os militares que disseram não; fiz O veneno está na mesa 2; estou terminando um filme para a CONTAG, Agricultura tamanho família, porque quem bota comida na nossa mesa é o pequeno camponês, não é o agronegócio; estou terminando O poema sujo, do Ferreira Gullar; e estou indo agora para  A alma imoral, do rabino Nilton Bonder; e não parei mais de trabalhar e espero continuar assim por um bom tempo.

INV (BM) - Numa referência ao livro do Milton Santos Por uma outra globalização, ele se expressa como você ao afirmar que hoje “somos códigos de barra”, vistos enquanto produtos...

ST - O Milton faz essa observação sim, talvez não tenha usado essa expressão, exatamente dessa forma, mas, primeiramente ele goza, como por exemplo, ao observarmos ontem (final da Copa do Mundo entre Alemanha e Argentina), o Brasil quase inteiro torceu pela Alemanha... e o Milton Santos diz que isso é um complexo nosso, de querer ser europeu, ele afirma isso no documentário.

E quanto a essa questão de sermos códigos de barra, é uma verdade, substituíram o eleitor pelo telespectador, assista a um debate eleitoral e verá se algum dos candidatos se dirige a você “cidadão”, todos eles se dirigem a você “telespectador”, então o espetáculo é mais importante que a política, e isso está acontecendo tanto no cinema quanto em tudo, quer dizer, nós fomos transformados, ao invés de cidadãos, em consumidores, e acho que está na hora de lutar contra isso.

INV - Aqui também temos uma parceria com a Escola Técnica Estadual Adolpho Bloch, que forma profissionais técnicos de audiovisual. O que você pode dizer para os jovens que têm interesse nessa área?

ST - Façam do cinema uma arma de luta, uma arma de reflexão, uma arma de pensamento, vejam muitos filmes, assistam grandes filmes, vejam os filmes de grandes autores do passado, que usavam o cinema como uma forma de fazer pensar, Passolini, Rossellini, Fellini, De Sica, Godard, Glauber, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman, peguem os bons cineastas norte-americanos, europeus, brasileiros, e façam desse coquetel cultural um ponto de partida para a vida de vocês. Tenho certeza que vocês serão muito mais felizes do que ficar fazendo essa bobagem que o Brasil está produzindo hoje.

INV - Quer deixar alguma mensagem?

ST - Fico muito feliz de conceder essa entrevista a vocês, acho que abordamos muitos pontos importantes, e a presença aqui de jovens geógrafos, historiadores, e, sobretudo, com desejo de fazer cinema, é um alento para quem vive disso há muitos anos, eu tenho aqui nessa sala a prova concreta de que isso se renova e que novos cineastas estão surgindo nesse momento, fico muito feliz.


CEPPES
Centro de Educação Popular e Pesquisas Econômicas e Sociais