O “apagão” d’água em São Paulo

O que já foi um dia impensável, a política neoliberal do governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP) tornou realidade: o apagão d’água. Depois de protagonizar, no início deste século (2001), o “Apagão Elétrico”, o mesmo PSBD paulista está agora desencadeando o colapso do sistema de abastecimento de água na região metropolitana de São Paulo.

As eleições seguintes ao blackout elétrico derrubou o governo do PSDB. Agora acompanhamos as manobras de Geraldo Alckmin para burlar o blackout d’água.

Assim como outros serviços públicos básicos e fundamentais, como o transporte, a energia, a saúde e a educação, o abastecimento de água é tratado como uma coisa qualquer. A sua importância está relacionada com o seu “valor” na bolsa de valores.

Se a cotação estiver em baixa, é momento de se desfazer desta coisa, de transferi-lo para as multinacionais, privatizando-o a preço de banana. Se em alta nas bolsas, o receituário neoliberal diz que deve-se retardar a manutenção e retroceder os investimentos, deteriorando sistematicamente o serviço até seu sucateamento. Com tal “choque de gestão”, o “valor” do serviço público volta à realidade do “mercado”, leia-se, interesses das multinacionais.

O Sistema Cantareira, responsável pelo abastecimento de 9 milhões de pessoas na Região Metropolitana de São Paulo, está em seu nível mais baixo de produção. Nesta sexta, dia 21 de março, o nível do reservatório atingiu 14,5%, o mais baixo em seus 40 anos de existência.

Com tal nível, segundo especialistas “o sistema só não pode entrar em colapso, pois já está em colapso irreversível”.

Se em janeiro e fevereiro choveu pouco mais de um terço do previsto, neste mês de março o volume de precipitações está dentro da média histórica, com chuvas de mais de dois terços do esperado para o mês – e estamos no dia 21.

Com as águas de março fechando o verão, isto é, com o início do período seco, um comitê anticrise formado pela Agência Nacional de Águas (ANA) e pelo Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) está estimando que o esgotamento do volume útil do sistema acontecerá em julho, no início da Copa do Mundo. E a abertura da Copa será precisamente em São Paulo.

A crise não está no desabastecimento do sistema elétrico como quer o governador Geraldo Alckmin, o PSDB e a grande mídia que lhes dão guarida, mas no (des)abastecimento de água de São Paulo.

Apesar do óbvio, o governador e a grande mídia (rede Globo a frente) insistem em dizer que não há nem haverá racionamento de água, mas apenas “rodízios” ou fornecimento “intermitentes” e localizados.

Enganar a população sobre a gravidade da crise no abastecimento não significa neutralizar o colapso do Sistema Cantareira. Tampouco de nada adiantará encher o reservatório com palavras falsas.

Segundo o ex-ministro de Saúde e candidato ao governo do Estado de São Paulo, Alexandre Padilha, Geraldo Alckmin está “partidarizando o debate sobre a falta de água em São Paulo pela postura discriminatória que teve com a cidade de Guarulhos, que é governada pelo PT”, ao começar nesta cidade o dito “rodízio”, leia-se, racionamento.

Além disso, a cidade de Osasco, também administrada pelo PT, está sofrendo racionamento, ou como diz o presidente da Sabesp, recebendo o fornecimento de água de modo “intermitente”. Na outra ponta, bairros de alto padrão (elite paulista), como Jardins, Brooklin e Itaim, foram transferidos para o Sistema Guarapiranga.

Enquanto que no orçamento de 2014, encaminhado à Assembleia Legislativa no ano passado, o governador Geraldo Alckmin empenhou R$ 15,4 bilhões de gastos com serviços da dívida para meia dúzia de banqueiros, o valor destinado ao saneamento básico para dezenas de milhões de pessoas se limitou a R$ 4,3 bilhões, isto é, três vezes inferior. Por isso, a sorte do Sistema Cantareira está selada.

A sorte do Sistema Cantareira está selada. Numa tentativa desesperada para que o sistema não seque antes das eleições, o que seria um desastre para sua reeleição, o governador lançou uma perigosa obra, que pode inutilizar completamente o Sistema.

Trata-se de sugar cerca da metade dos 400 bilhões de litros do chamado “volume morto”, água que fica abaixo das atuais bombas de sucção.

Como se consume atualmente 1,75 bilhões de litros diários, com o volume atual mais o tiro de misericórdia do governador se conseguiria bombear mais 114 dias, ou menos de 4 meses.

Como o comitê anticrise estima que o esgotamento do sistema acontecerá no início de julho, a morte do sistema será empurrada para depois das eleições de outubro, salvando a reeleição do governador Geraldo Alckmin.


José Tafarel