Morreu Ariel Sharon, o carniceiro sionista

No dia 11 de janeiro, o ex-primeiro-ministro israelense Ariel Sharon morreu no hospital Tel HaShomer de falência múltipla de órgãos, depois de oito anos internado em estado vegetativo, desde o derrame sofrido em janeiro de 2006, enquanto exercia o cargo.

Da mesma forma que outros assassinos protegidos pelas grandes potências, como o ditador chileno Augusto Pinochet ou o congolês Mobutu, Sharon ficou impune pelos cruéis massacres cometidos contra o povo árabe-palestino.

Nascido em 1928, Ariel Sharon começou sua vida político-militar aos 14 anos na Haganah, milícia sionista que se tornaria o futuro exército de Israel e responsável pela elaboração do chamado “Plano Dalet”.

Os dois objetivos deste plano eram: ocupar todas as instalações civis e militares abandonadas pelo mandato britânico, vigente na Palestina desde 1920, e, principalmente, a implantação de um Estado exclusivamente judeu em Israel, por meio da expulsão sistemática e total dos árabe-palestinos.

Mais tarde, em 1952, seria convocado por David Ben-Gurion, primeiro primeiro-ministro do novo “país”, para encabeçar a unidade 101 do exército, cuja função seria aplicar castigos contra os campos de refugiados e civis árabe-palestinos.

No dia 14 de outubro de 1953, este comando perpetrou o massacre contra a pequena vila de Qibya, que custou a vida de 69 pessoas, em sua maioria mulheres e crianças.

Sharon ordenaria que suas tropas lograssem “a total destruição da vila e danos máximos aos habitantes, de modo a forçá-los sair”,     segundo documentos da época.

Ainda que fosse um exímio executor de massacres, Sharon era considerado um soldado indisciplinado.

Em 1956, no comando de uma brigada de elite de paraquedistas israelenses durante a Guerra de Suez, ignorou ordens superiores e avançou ao Passo de Mitla, onde foi derrotado e obrigado a recuar pelos egípcios.

Seus prisioneiros de guerra eram geralmente mortos e Sharon costumava liderar massacres contra a população civil, entre eles o de 50 trabalhadores perto da cidade de Ras Sudar.

Seu êxito na “pacificação de Gaza” − leia-se a demolição de centenas de casas de refugiados árabe-palestinos em Jabaliya e a morte de mais de mil palestinos “suspeitos de envolvimento na resistência” − levou-o à carreira política: lançou-se ao parlamento em 1973 pelo conservador Likud.

Quatro anos depois, seria ministro da Agricultura, quando contribuiu na criação do atual sistema de colonato, confessadamente arquitetado para a partição da Cisjordânia e anexação do território árabe-palestino.

Em 1982, tornou-se ministro da “Defesa” durante a administração de Menachem Begin, sexto primeiro-ministro de Israel e ex-líder da organização paramilitar Irgun, responsável pelo atentado terrorista ao hotel King David em julho de 1946.

Em seu novo posto, Sharon ordenou a invasão ao Líbano que resultou na morte de 20 mil civis (o cineasta judeu George Sluizer afirmou tê-lo visto assassinando duas crianças árabe-palestinas com sua arma).

Sob o pretexto de combater a Organização de Libertação da Palestina (OLP), o exército avançou até a capital Beirute, com o claro objetivo de impor um regime títere controlado por Israel.

Todos os campos de refugiados da cidade seriam rodeados pelas forças armadas sionistas.

Em setembro, os acampamentos de Sabra e Shatila foram cercados pelas tropas sionistas e atacados por seus aliados maronitas, as Falanges Libanesas.

O massacre durou três dias e, como resultado, entre 800 e 3500 refugiados árabe-palestinos e libaneses, em sua maioria mulheres, crianças e idosos, foram violados, torturados e mutilados.

Embora as forças israelenses tenham sido acusadas de omissão, seu papel foi bem mais ativo.

Além de atirar sinais luminosos para o céu de modo a auxiliar a matança falangista durante a noite, dispuseram de tratores para a retiradas dos corpos, razão pela qual o número de mortos permanece incerto.

A pressão internacional e indignação pública obrigou Israel a formar a Comissão Kahan. Esta considerou Sharon “omisso”, o que o levou a renunciar ao posto em 1983.

É importante registrar que Elie Hobeika, líder da milícia que conduziu o massacre, ofereceu-se voluntariamente para dar testemunho num tribunal belga em 2001 sobre o papel central desempenhado por Sharon e pelos israelenses, entretanto nunca seria ouvido: quatro meses antes, foi assassinado num carro-bomba, especialidade do Mossad.

Como ministro da Habitação em 1990, Sharon coordenou a maior expansão de assentamentos ilegais no território palestino desde 1967.

Durante os Acordos de Oslo de 1993, seu slogan para os colonos da Cisjordânia era “tomem cada colina”, cujo objetivo era estabelecer um “fato consumado” que facilitasse o lado israelense na negociação de terras.

No planejamento destes colonatos, Sharon logrou dividir o povo árabe-palestino em pequenos pedaços de terra, criando reais “bantustões”, facilmente controlados por bases militares, checkpoints e barreiras até hoje.

Em 2000, Sharon utilizaria o fracasso dos diálogos de Camp David entre Israel e a OLP − fracasso devido à continuidade do estabelecimento de assentamentos sionistas ilegais em território árabe-palestino mesmo durante as negociações − contra o primeiro-ministro Ehud Barak, alegando publicamente que era um usurpador disposto a trocar Jerusalém por um acordo de paz.

Neste ano ainda, provocaria a população árabe-palestina, ao visitar, acompanhado de mil oficiais israelenses, o santuário de Haram al-Sharif num dia sagrado islâmico.

No dia seguinte a sua visita, a população foi às ruas e a reação sempre fascista de Israel deixou sete mortos e mais de cem feridos.

A partir deste momento, começava a Segunda Intifada.
Em 2001, ancorado na reação nacionalista gerada pela resposta árabe, Sharon derrotou Barak nas eleições e encerrou todos os contatos com a Autoridade Palestina, a despeito da disposição declarada de Yasser Arafat de continuar dialogando. Em março de 2002, lançou a Operação Muralha de Defesa, durante a qual os sionistas reocuparam áreas árabe-palestinas que haviam sido negociadas em Oslo, resultando na destruição de centenas de casas e a morte de quase 500 pessoas.

Neste ano, começaria também a construção do Muro da Vergonha, que separaria Israel da Cisjordânia e anexaria uma boa parcela do território árabe-palestino para os sionistas.

Em 2005, realizou um de seus feitos mais notáveis: a retirada dos colonos israelenses da Faixa de Gaza.

Alardeada pelo mundo afora como uma comprovação das intenções pacíficas sionistas, esta atitude contribuiu para tornar o território uma prisão ao ar livre.

Gaza foi rapidamente cercada por militares, sofre um bloqueio desde 2006 e é bombardeada por Israel frequentemente.

A grande imprensa retratou Ariel Sharon como uma “liderança firme”, nunca um criminoso de guerra ou um violador dos direitos humanos, e o primeiro-ministro britânico David Cameron chegou a declarar que “Ariel Sharon é uma das figuras mais importantes na história de Israel e como primeiro-ministro tomou decisões valentes e controversas em busca da paz”.

Talvez a observação mais sensata tenha sido a do conservador chefe de Estado canadense Stephen Harper, que qualificou Sharon como “um dos arquitetos da Israel moderna”.

Dado o caráter crescentemente fascista deste suposto Estado que há mais de 65 anos ocupa a Palestina histórica, não há melhor representante para personificar sua sinistra trajetória de violações contra a humanidade.


Vinícius C.