Tragédia de Santa Maria-RS: Ganância pelo lucro e morte

Esse incêndio e as mortes ocorridas em consequência não podem ser consideradas fatalidades, mas um crime bárbaro e as autoridades, independentemente do escalão, e servir de exemplo para todo o país, terão que se responsabilizar por sua negligência nessa tragédia. Outro ponto a ser considerado é a ganância dos proprietários de estabelecimentos em geral e dessas boates em especial, no momento, que só pensam no lucro a ser obtido com o confinamento máximo de “fregueses”

O comandante geral do Corpo de Bombeiros do Rio Grande do Sul, coronel Guido Pedroso de Melo, disse que a porta principal da boate Kiss, em Santa Maria, estava trancada na hora do incêndio. No relato dado à imprensa, o estudante de medicina Murilo Tiecher, relatou que no momento em que o incêndio começou os seguranças do estabelecimento tentaram  impedir a saída das pessoas.


Somente depois de três minutos eles perceberam que havia um incêndio e passaram a ajudar a retirar as pessoas do local. “Grande parte dos mortos estavam amontoados perto da saída. A maioria morreu por asfixia. Lamentavelmente, as pessoas ficaram confinadas, porque a saída estava trancada”, declarou o coronel.


“No começo, só deixavam sair quem pagasse a comanda”, disse Murilo Lima à rádio Gaúcha. “No começo, os seguranças estavam barrando, pois não sabiam o que estava havendo”, completa o jovem, que escapou da tragédia.


A informação foi confirmada pelo estudante de engenharia Mateus Abadi, 21. Ele afirmou à reportagem que os seguranças não sabiam o que acontecia. “Assustados, seguraram um pouco as pessoas. Até que perceberam a urgência e abriram as portas.”


Segundo ele, “não tinha como se mexer lá dentro, a casa estava lotada”.


A tragédia se acrescenta a uma lista de desastres em casas noturnas que parecem seguir o mesmo roteiro macabro: Um incêndio transforma uma celebração num clube lotado numa armadilha aterrorizante, onde dezenas de jovens morrem no caos enfumaçado de um ambiente lotado e mal iluminado, pisoteados ou sufocados enquanto procuram uma saída. Por volta das 2h da manhã, segundo testemunhas  à imprensa um membro da banda teria aceso um sinalizador de emergência ou fogos de artifício e o agitava ao ritmo da música.


Esse incêndio e as mortes ocorridas em consequência não podem ser consideradas fatalidades, mas um crime bárbaro e as autoridades, independentemente do escalão, e servir de exemplo para todo o  país, terão que se responsabilizar por sua negligência nessa tragédia. Outro ponto a ser considerado é a ganância dos proprietários de estabelecimentos em geral e dessas boates em especial, no momento, que só pensam no lucro a ser obtido com o confinamento máximo de “fregueses” que consomem em sua propriedade, além da atração musical, etc, bebidas e outras drogas não ilícitas, mas desprezam – sob o olhar cúmplice das “autoridades”, as normas mais elementares de segurança para o funcionamento desses locais, como preconizam as normas técnicas dos Bombeiros no que se refere às saídas de emergências, em que os acessos devem permitir o escoamento fácil de todos os ocupantes da edificação; permanecer desobstruídos em todos os pavimentos; ser sinalizadas e iluminadas (iluminação de emergência de balizamento) com indicação clara do sentido da saída.

Além de que os acessos devem permanecer livres de quaisquer obstáculos, tais como móveis, divisórias móveis, locais para exposição de mercadorias e outros, de forma permanente, mesmo quando o prédio esteja supostamente fora de uso.  Há, também, relatos que alguns extintores estavam defeituosos. Desde agosto  o alvará de funcionamento da discoteca Kiss de Santa Maria (RS), estava vencido, informaram hoje as autoridades.

O alvará é renovado após fiscalização dos órgãos de segurança municipal comprovarem que um estabelecimento possui condições idôneas para funcionamento, como  medidas de prevenção e combate de incêndios. Quatro pessoas estão detidas até o momento para prestarem depoimentos, dentre elas, dois proprietários da Kiss e o vocalista da banda Gurizada fandangueira, que teria utilizado, como de costume em seus shows, fogos de artifícios, o que teria iniciado o incêndio.

237 mortos; 101 pessoas continuam internados

 

O número de mortos no incêndio na Boate Kiss, Santa Maria (RS), subiu para 237. Internado no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Bruno Portella Fricks, 22 anos, teve a morte confirmada por volta das 22h do dia 2 de fevereiro.


Bruno foi a terceira vítima do incêndio a morrer em hospitais do Rio Grande do Sul. O restante das vítimas morreu na hora do incêndio. De acordo com a Secretaria de Saúde do Rio Grande do Sul, 101 pacientes permanecem internados em cinco cidades gaúchas. A maior parte está em Porto Alegre, que concentra 50 pacientes, dos quais 30 em ventilação mecânica.


Há ainda 46 pacientes internados em Santa Maria (seis em ventilação mecânica), três em Canoas (dois em ventilação mecânica), um em Caxias do Sul e um em Ijuí, que estão sem ventilação.


Os pacientes em estado mais crítico são, em geral, os que estão intoxicados gravemente com a fumaça do incêndio ou sofreram queimaduras intensas. Para este último caso, o Ministério da Saúde pediu ajuda a profissionais de hospitais de referência no Rio de Janeiro e do Paraná, além do Hospital Albert Einstein, de São Paulo.




Gilka Sabino
Fonte: Agência Brasil