Chuvas fortes, tragédia para a população

Os chamados “desastres naturais” em decorrência das chuvas não são novidade para a população, principalmente a parcela mais pobre, que diante das dificuldades de moradia constroem como e onde podem, ocupando muitas vezes áreas de risco como as encostas.

No dia 3 de janeiro deste ano, o estado do Rio de Janeiro foi cenário de mais uma “tragédia natural” (como as autoridades insistem em classificar para se eximirem de sua responsabilidade), as fortes chuvas causaram cheias de rios, enchentes e deslizamentos em vários municípios. Até o fechamento desta edição foram confirmadas três mortes.

Angra dos Reis, Mangaratiba, Duque de Caxias, onde no distrito de Xerém houve duas mortes, Petrópolis e Teresópolis foram as cidades mais atingidas pelas chuvas e totalizaram 39.085 pessoas afetadas, de acordo com o balanço divulgado pela Defesa Civil do estado na noite do dia 3.
Outras cidades atingidas foram Belford Roxo, com 550 desalojados e 8 desabrigados; Nova Iguaçu, onde o rio Botas transbordou; Seropédica (região sul), na qual a chuva causou enxurrada no Rio dos Bois e danificou 17 casas, desalojando 35 pessoas; e Paracambi, com 30 desalojados.

Xerém, o distrito mais afetado


“A água desceu às 2h40 da madrugada. Nem sirene, nem nada. Naquele momento não havia defesa civil, nem bombeiros. Os moradores começaram a gritar, a entrar em pânico, conforme as casas e carros começaram a ser arrastados. Dá para ver a força da água nessas clareiras que se formaram”, segundo Ataíde, morador de Xerém há quarenta anos, em declaração ao Inverta.


A equipe do Jornal Inverta esteve em Xerém, distrito de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, e era possível ver e sentir os estragos. Dois dias após as enchentes, o cheiro ruim estava por todo lado, algumas pessoas usavam máscaras. Uma ponte foi levada pelas águas, as ruas estavam cobertas de lama e de entulho: guarda-roupas, camas, geladeiras, colchões, tudo destruído pelas chuvas e que virou lixo.


“A minha [casa] é do outro lado, não aconteceu nada com ela. Mas essa aqui, que está destruída era a casa da minha irmã. Aqui, onde está esse monte de água descendo era uma rua cheia de casas que foram carregadas”, afirmou Ataíde apontando para um rio que se formou.


João Carlos Grilo Carletti, gerente de obras do Instituto Estadual do Ambiente (INEA) falou sobre a ação do órgão. “O INEA é o Instituto Estadual do Ambiente, então nossa preocupação maior é com o rio, já que não é a competência de nosso órgão atender diretamente a população. Trabalharemos com a população ribeirinha, teremos que remover uma série de casas que foram construídas em locais indevidos. Também trabalhar o novo curso do rio, que agora tomou outra proporção, outra dimensão. O rio hoje não é o mesmo rio de antes. Teremos que dimensionar a calha desse rio, desassoreá-lo, pois ele está cheio de entulho, areia, restos das casas e das mobílias que foram carregadas”.


Na cidade de Duque de Caxias transbordaram os rios Saracuruna, Inhomirim e Capivari; 200 casas foram totalmente destruídas pelo temporal e 300 ficaram danificadas. Em Xerém, o local mais castigado, foram registrados 478 desabrigados e duas mortes. Em todo o município mais de mil pessoas ficaram desalojadas, de acordo com a Defesa Civil do estado.


O município de Duque de Caxias tem um Produto Interno Bruto de R$ 25,7 bilhões, favorecido pelo Polo Gás-Químico, que tem entre as principais empresas a Refinaria Reduc, da Petrobras. Mas apesar disso, a cidade tem um dos piores índices de pobreza do estado, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).


O sistema de coleta e tratamento de esgoto duque-caxiense também é considerado um dos dez piores entre as 81 maiores cidades do Brasil, de acordo com o Instituto Trata Brasil.


Omissão, ineficiência e interesse eleitoreiro


No pé da Serra, onde a tragédia de 2011 vitimou centenas de pessoas, a percepção é de que pouco foi feito para que fatos como aquele não se repetissem.


Rachel, moradora de Xerém há 36 anos, criticou a inércia do Estado. “Para remediar a ação foi rápida. O problema foi a falta de ações preventivas, que não existem. Por exemplo, na região serrana eles falaram que iam retirar as pessoas morando em condições perigosas, mas não fizeram nada disso”.
Recém-concluída, a Comissão Parlamentar de Inquérito das Enchentes (CPI) apontou que a omissão, ineficiência e o interesse eleitoreiro, juntos, agravaram a catástrofe provocada pelas chuvas de janeiro de 2011.


A CPI foi criada pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro para apurar as causas da tragédia que deixou mais de 900 pessoas mortas, 165 desaparecidas (até hoje) e mais de 7 mil desabrigados e desalojados na Região Serrana do estado.


A ocupação irregular do solo foi apontada como causa da tragédia, além da ausência de um sistema adequado da Defesa Civil, integrado entre os três níveis de governo. Também houve corrupção após o ocorrido, o que impediu a recuperação da região, que ainda hoje sofre com a falta de infraestrutura.
Neste ano, muitos empresários já devem estar de olho gordo, pois, de acordo com o secretário do Ambiente, Carlos Minc, o governo federal vai disponibilizar R$ 170 milhões para um plano de ações com medidas emergenciais e obras de infraestrutura nos municípios fluminenses atingidos pelo último temporal. Vale destacar que para o estado do Rio de Janeiro já tinha sido destinada a quantia de R$ 4,3 bilhões pelo Governo Federal para obras de contenções de risco e reestruturação das áreas atingidas.


Sabe-se que muito dinheiro é destinado para as obras necessárias, mas, no sistema capitalista, onde o lucro é o objetivo, muitos empresários veem a desgraça humana como uma grande oportunidade de negócio. Um exemplo é o do prefeito de Nova Friburgo, Dermeval Barboza Moreira Neto, cassado em 2012 por desviar verbas destinadas a obras de prevenção e recuperação.


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