Agronegócio gera fome, miséria e opressão

Nos últimos tempos o setor ruralista vem enaltecendo os benefícios que o agronegócio trouxe para o Brasil e recentemente lançaram um comercial na televisão aberta para demonstrar os benefícios do avanço da agroindústria e em que isso vem ajudando no desenvolvimento econômico brasileiro. Dentre os participantes está a deputada Kátia Abreu, que é uma das lideres da bancada ruralista da Câmara dos Deputados, cujas ações vêm atacando progressivamente os trabalhadores rurais e o meio agrícola para beneficio dos capitalistas da terra, vide sua militância no caso da aprovação do novo Código Florestal, que busca explorar ainda mais o meio ambiente e ajudar a burguesia rural.

Em recentes pesquisas mostra-se que não é bem assim, esses benefícios que o setor ruralista quer apresentar são para apenas uma pequena parte dos latifundiários e dos burgueses rurais. Em uma dissertação de mestrado pela UNESP de Presidente Prudente, o geógrafo Tiago Cubas demonstra que o avanço do agronegócio no campo leva à pobreza relativa, ou seja, ao aumento do custo de vida local e à incapacidade dos mais pobres sobreviverem com esse custo. Além, é claro, de uma intensificação das perseguições aos trabalhadores rurais que lutam para ter seu pedaço de terra para sobreviver.

O agronegócio se instalou no mundo principalmente a partir da década de 1970, mas sua alavancada ocorreu mesmo nos anos 90, com o avanço do neoliberalismo. O agronegócio trouxe consigo a agroindústria e a chamada “Revolução Verde”, que compreende a utilização de novos equipamentos mecânicos na produção e o uso da biotecnologia na elaboração de sementes transgênicas e insumos. Seu avanço para países chamados subdesenvolvimentos ocorre por uma imposição do FMI e do Banco Mundial em suas medidas para avançar o neoliberalismo pelo globo. Isso está incluso nas políticas do chamado Consenso de Washington, que elabora como os países devem desenvolver a agroindústria baseada na produção em larga escala de determinadas commodities. Um exemplo é a grande produção só de soja ou cana-de-açúcar.

A pequena produção familiar, ou mesmo a produção alimentícia, são basicamente deixadas de lado pelo agronegócio, sendo a primeira suprimida totalmente. Essa não organização da produção de alimentos proporciona a grande falta de comida em várias regiões do mundo, além do fato de o pequeno produtor camponês não ter maneiras de sobreviver em meio a tantos latifúndios, já que suas terras são tomadas pelos jagunços contratados ou precisam sair do local porque não há condições de competir no mercado contra o capital.

O avanço do capitalismo no campo foi uma maneira de modernizar o antigo latifúndio, a opressão e a miséria. Estes são frutos da concentração de terras, que continua e se intensifica. Os camponeses que ainda sobreviviam em suas terras foram obrigados a sair de vez com a chegada do agronegócio CUBAS, Tiago. São Paulo Agrário: a representação da disputa territorial entre camponeses e ruralistas de 1988 a 2009. Dissertação de mestrado. Presidente Prudente: Unesp, 2012.

Cubas apresenta o exemplo da cidade de Ribeirão Preto - símbolo do agronegócio no estado de São Paulo. A chegada dessa nova organização no campo fez com que os camponeses fossem obrigados a sair da terra e ir para a cidade, o que gerou um aumento das favelas (em números são 26 favelas em menos de 20 anos).

Como afirmamos anteriormente, há o aumento da pobreza relativa nas regiões que a agroindústria é espalhada. Na região centro-oeste paulista está o chamado “Cinturão da Fome”, isso porque há uma intensificação na produção da cana-de-açúcar e também da laranja. Essa produção é basicamente voltada para a exportação e aqueles que trabalham nas lavouras não chegam nem perto de sentir o gosto do suco de laranja, apenas o gosto fel de seus salários miseráveis. Nas cidades o custo de vida cresce com o investimento do agronegócio na região para beneficio próprio, no entanto, os salários dos trabalhadores rurais continuam sendo baixos e, com o modo de vida que possuem nas cidades, não conseguem sobreviver decentemente.

A cana-de-açúcar é um produto bem valorizado no estado de São Paulo, principalmente com os incentivos que os ruralistas vêm recebendo do governo para seu aumento. Há um boom de usinas de álcool por todo o estado e consigo trazem toda uma maneira de explorar os trabalhadores das piores formas, inclusive levando os cortadores da cana à morte por exaustão. Sobre essa produção da cana, Cubas mostra como houve o seu estrondoso avanço “em São Paulo, a produção total da cana-de-açúcar em 1990 era de 137.835.000 toneladas com 1.811.980 hectares, já em 2008 tivemos 386.061.274 toneladas com 4.914.670 hectares.”

O capitalismo no campo leva consigo um de seus principais fundamentos, que é a concentração dos meios de produção nas mãos de alguns burgueses. Como no meio rural o meio de produção é a terra, visam manter o latifúndio nas mãos de poucos. Com essas medidas de expulsão dos camponeses de suas terras – processo que ocorre há décadas – um contingente de trabalhadores sem-terra se organizam para enfrentar seus algozes. Dentro do campo também ocorre a luta de classes. Mas o capital também se organiza e os números de ameaças de mortes contra os trabalhadores rurais subiram de 125 registros, em 2010, para 347, apesar de o número de mortes ter tido uma leve queda de 34, em 2010, para 29, até esse momento considerando os dados do relatório da CPT. Os dados sobre o aumento dos conflitos no campo revelam como o cenário da luta de classes está dado, com intensificação das perseguições aos trabalhadores e a reação dos mesmos contra a exploração. Os números são de um aumento de 1.186 conflitos em 2010 para 1.386 contabilizados até agora.

O discurso do ecocapitalismo traz uma ideia de que o problema não é o agronegócio, mas que esse deve ser sustentável. Essa é uma ideia absurda e incompatível com a realidade, algo apenas para mascarar o verdadeiro problema que é o da fome, miséria e opressão, produto da organização do capitalismo no campo. Cubas em uma entrevista fala algo muito importante a ser ressaltado: “É impossível o diálogo entre qualquer tipo de conceito que remeta a equilíbrio no interior do sistema capitalista agrário do agronegócio. Assim como a falácia do aquecimento global e os créditos de carbono, a sustentabilidade é outro projeto de marketing que envolve grandes corporações capitalistas ligadas também ao agronegócio no intuito de mascarar o que, de fato, é a sua essência: a concentração, a segregação e desigualdade.”2

As palavras do geógrafo resumem claramente o que é o agronegócio e a quem ele beneficia de fato. Definitivamente não são os trabalhadores os beneficiados! A produção agrícola no Brasil e em vários países no mundo é baseada na exploração e perseguição aos camponeses, que nesse momento histórico já passaram a ser operários do campo. Seu dever é avançar na luta contra o capital na busca pela transformação da sociedade para a emancipação de todos os trabalhadores do campo e da cidade.

 

Diego Becker