Eleições em Belo Horizonte

O horizonte para os próximos quatro anos está, definitivamente, muito feio para a capital mineira.

Concluídas as eleições municipais e na capital não é tão belo o horizonte dos próximos quatro anos. Márcio Lacerda, atual prefeito, foi reeleito no primeiro turno com 52,69% dos votos válidos, de acordo com os dados do Tribunal Supremo Eleitoral (TSE). Foi um duro golpe para as forças mais progressistas, cujas expectativas estavam altas demais para uma realidade que não deixa muito espaço para otimismo.


A coligação que levou Marcio Lacerda ao poder inclui 19 partidos - PSDB / PP / PPS / PSB / PRB / PT do B / PSL / PR / PSD / PTC / PRP / PTN / DEM / PMN / PTB / PV / PSDC / PSC / PDT - e o atual prefeito conseguiu que participassem de sua campanha os presidentes dos três principais times de futebol mineiros - Atlético, Cruzeiro e América - mobilizando uma maquinaria de alta envergadura, com o apoio de Anastasia, governador do estado, e do presidenciável Aécio Neves. Contra essa maquinaria se enfrentou o candidato do PT, Patrus Ananias, que mesmo sendo ex-ministro do governo Lula e ex-prefeito de BH, não passou nem para o segundo turno.


Com vistas às eleições de 2014, nos deteremos por um momento na nova configuração política de Minas Gerais. O partido que mais elegeu prefeitos foi o PSDB (142), confirmando a fama de conservador do estado que contribuiu com mais presidentes à União, inclusive a atual presidenta Dilma Rousseff.

Os tucanos, que saem dessa disputa com 13 prefeituras menos que em 2008, vêm seguidos pelo PMDB (117) e PT (114), o que nos indica que nos próximos quatro anos as políticas federais poderão ter um pouco mais de espaço no estado da Tradicional Família Mineira. O PSB, partido de Lacerda e ex-aliado petista na prefeitura da capital, foi a força eleitoral que mais cresceu nacionalmente com 120 prefeituras a mais que em 2008.


De volta à capital, a própria Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula vieram pessoalmente apoiar a campanha de Patrus, então como explicar essa rápida derrota tão inesperada para o Partido dos Trabalhadores? O eleitorado belo-horizontino é composto majoritariamente por pessoas entre 25 e 59 anos de idade – 23,26% entre 25 e 34 anos, 19,69% entre 35 e 44, e 25,07% entre 45 e 59 anos – sendo a maioria (aprox. 54%) de sexo feminino. Para além de um perfil superficial, é muito pouco o que as frias estatísticas do TSE podem nos dizer sobre quem reelegeu Marcio Lacerda para a prefeitura.


As estatísticas eleitorais que mais se destacam não nos falam sobre quem são ou quê querem os belo-horizontinos, mas sim o contrário: são as que refletem a quantidade de eleitores que não participaram dos comícios (Abstenção - 18,9%), ou que foram a um centro de votação mas decidiram que nenhum candidato era digno de seu voto (Brancos - 4,7% - e Nulos - 7,4%). Resolvemos plasmar os resultados das eleições considerando esses números, para abarcar assim o eleitorado completo ao analisar as cifras (não estão indicados os candidatos que não alcançaram 1%). Vemos que os quase 53% de votos válidos que elegeram Lacerda é a vontade expressa de, na verdade, 36% do eleitorado (676.215 votos). Apenas 100.000 pessoas a menos não quiseram dar seu voto a ninguém ou, pior, nem sair de casa para votar; se juntarmos a Abstenção e os votos Brancos e Nulos em um único bloco, como expressão de um suposto “rechaço eleitoral”, esse bloco expressaria a posição de 33,8% do eleitorado municipal.


Será que poderia ser uma ação organizada, no estilo do “Ensaio sobre a Lucidez” de José Saramago? Todos conhecemos bem aqueles grupos que fazem chamado a não participação. Por melhor intencionado que fosse um grupo que chama à abstenção ou ao voto nulo, no fim das contas, qual o resultado desse chamado? No caso de Belo Horizonte, a porcentagem de Abstenção, Votos Nulos e Brancos é de 33,8% do eleitorado, o que representaria uma capacidade de mobilização maior que o PT (28% do eleitorado). Os votos nulos, brancos e aqueles que se abstiveram conseguiram influir de que maneira nesse processo eleitoral? Claro está que, ao serem considerados votos “não válidos”, o que contribuíram foi com a vitória de Marcio Lacerda, e não com uma discussão mais profunda sobre a falsidade desse processo, ou a deslegitimização do atual prefeito neoliberal, nem da dança das cadeiras que fazem os partidos políticos para se manter no poder.


Nós em Belo Horizonte, teremos quatro anos com o PSB-PSDB. Muitos indicam que pior do que antes não ficará, apesar do PT já não participar da patota que agora ocupa a prefeitura; acreditam que o PSB de Lacerda já levava a cabo suas políticas neoliberais e antipopulares na gestão anterior sem que a ala petista colocasse muitos obstáculos. Mais do mesmo, portanto, significa mangueirada de água fria para morador de rua no inverno, pedra embaixo de viaduto, polícia e trator para as ocupações, meio passe estudantil só para jovens que têm como comprovar sua miséria, menos cultura, menos saúde, menos políticas federais, mais privatizações e muita roubalheira. A pergunta agora é: Como é que aqueles 19 partidos que entraram na prefeitura vão repartir entre eles a riqueza produzida pelos trabalhadores e trabalhadoras de Belo Horizonte? O horizonte para os próximos quatro anos está, definitivamente, muito feio para a capital mineira.



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