21º Festival de Teatro de Curitiba e as contradições artísticas no capitalismo

Curitiba foi mais uma vez palco para o maior Festival de Teatro do Brasil, que teve início em 27 de março, com a peça espanhola ‘‘Los pájaros muertos”, que conta a trajetória de vida de Pablo Picasso, do diretor Marcos Morau e realização da companhia La veronal, e encerramento em 08 de abril, com a apresentação da tragédia grega ‘’Hécuba’’, na encenação do diretor Gabriel Villela.


Bem organizado, o Festival contou com orçamento de R$ 6 milhões, dos quais R$ 4,5 milhões são provenientes de recursos destinados pela Lei Rouanet. Durante sua edição, movimenta anualmente a economia da cidade, das grandes redes hoteleiras e de restaurantes.


A Lei Rouanet, que destina via patrocínios privados a maior parte dos custos do evento, foi criada em 23 de dezembro de 1991 e introduz as grandes empresas privadas nos eventos culturais através de seus patrocínios e isenção de impostos. Isto faz com que a cultura patrocinada por elas assuma o conteúdo que lhes interessa.


Essa lei surgiu com a extinção do Serviço Nacional de teatro. O SNT foi criado em 1937 durante o governo Vargas e era o órgão do Estado que administrava diretamente vários teatros, patrocinando a criação de diversos grupos experimentais e a montagem de novos textos brasileiros. Contudo, esse órgão foi extinto em 1990, abrindo passo para a Lei Rouanet, que veio no ano seguinte. Essa lei isenta o Estado do dever de investir diretamente na cultura, e este passa a investir indiretamente, pois o dinheiro arrecadado pela Lei Rouanet é dinheiro público que o governo deixa de arrecadar. A decisão do investimento passou a ser do setor privado, criando a possibilidade de imposição pela burguesia local e estrangeira de uma cultura com os conteúdos da classe dominante. Além disso, do gerenciamento da cultura pelo setor privado, conhece-se a grande roubalheira que é o desvio do dinheiro da cultura para fins pessoais.


Um dos grandes patrocinadores do Festival de Curitiba é o banco Itaú, que comprou o Unibanco e atualmente é Itaú Unibanco, um dos 10 maiores bancos do mundo no mercado. Contudo, o Itaú não se limita a somente patrocinar o Festival de Teatro de Curitiba, mas também o Carnaval de Salvador, a festa de Nossa Senhora dos Navegantes no Rio Grande do Sul, o Festival de Dança de Joinville, O Rock in Rio e a Copa do Mundo de 2014, ambos no Rio de Janeiro, entre outros.


Para a seleção das peças que se apresentam na mostra principal, o festival conta com uma comissão curadora que acompanha a produção teatral nacional durante o ano e indica espetáculos dentro do que é entendido como um resumo do momento do teatro brasileiro e suas tendências. “Dentro dessa seleção, há espetáculos de todos os estilos, linguagens e formas”, explica Leandro Knopfholz, criador e diretor geral do evento.


O Festival trouxe esse ano 29 espetáculos da mostra principal e o preço do ingresso para assistir qualquer peça estava em torno de R$50 cada.
Leandro Knopfholz diz: “Desde 1992, realizamos esse evento para celebrar o aniversário de Curitiba (29 de março). As pessoas mudaram nesses 20 anos, as formas de comunicação mudaram, a forma de fazer arte mudou, mas esse desejo de trazer a cultura para a rua e aproximar o cidadão curitibano do teatro permanece”. Diante desse depoimento, realmente muita coisa mudou, mas considerando o preço dos ingressos, exclui-se uma boa parcela dos cidadãos curitibanos que o festival de teatro tenta aproximar, principalmente aqueles que não têm condições de classe e capital cultural para consumir tal cultura.


Por mais patrocínios de "incentivo ao acesso à cultura’’ que tenhamos atualmente, é evidente a elitização na qual o teatro ainda se encontra. Seja através dos preços, localização, horários de apresentação e etc, o acesso a essa forma de cultura se restringe a apenas uma pequena parcela da população, que geralmente dispõe de dinheiro, tempo, condições de deslocamento, acesso fácil aos teatros, ou seja, condição de classe para usufruir dessa forma de arte. Contudo, essa condição não se limita a afetar somente o acesso como espectador, mas também como criador cênico e artístico da cultura.


Dentro de uma lógica capitalista de mercado, a arte como um todo também passou por um processo de mercantilização, até se tornar uma mercadoria que atende às imposições da classe dominante. E dessa forma é cada vez mais difícil sobreviver de teatro, quando falamos de um teatro não comercial. A cultura popular e seus artistas demonstram uma grande dificuldade e resistência para sobreviver em meio ao grande show business. Esses artistas, com uma condição de classe desfavorável, muitas vezes para dar continuidade ao seu trabalho artístico, cênico não comercial , são obrigados a se dedicar a trabalhos alternativos que não exercem nenhuma ligação com a sua profissão. Ou também, passam a exercer o teatro apenas como um hobby, abandonando assim, a profissão de atores. Essa realidade tem que mudar.


O Festival de Teatro de Curitiba e diversos outros festivais e megaeventos relacionados não somente a arte, mas sim, ao acesso da população aos diversos meios de comunicação atendem a essa lógica. A dificuldade ao acesso do teatro não se dá somente por uma condição econômica de classe, mas também por uma dinâmica de imposição da classe dominante em afastar a classe trabalhadora do domínio dos meios de comunicação. Pois o teatro, a televisão, o rádio, a música, os quadros, as esculturas deveriam representar um espelho da sociedade desigual capitalista, no qual se refletiria todas as contradições enfrentadas pela classe trabalhadora e a partir de aí, a conscientização do proletário como classe para si para a sua organização e tomada do poder.

Anita Lopes