A Grécia e o aprofundamento da crise capitalista

Até o momento, a crise precipitada em 2008 com epicentro na bolha do mercado imobiliário dos EUA configurou-se como a pior crise financeira da história do capitalismo e, pelo menos, a segunda pior em termos da assim chamada “economia real”. Não modificou, ainda, os fundamentos do atual padrão de acumulação de capital, no qual capital fictício e capital monetário portador de juros jogam um papel fundamental. Como toda crise capitalista, entretanto, a desgraça não é pouca e vem em ondas... Em especial neste caso, no qual a crise em questão está relacionada a um padrão de acumulação de capital extremamente financeirizado e internacionalizado ou, entenda-se, interligado. Como vem alertando o Inverta desde 2009, uma nova onda de crise pode estar prestes a estourar na Europa, configurando o que os economistas têm chamado de “crise em W”, abrindo um novo período de aprofundamento e generalização da crise estrutural e, com ele, inúmeras possibilidades de caminhos diferentes, bifurcações e encruzilhadas, cujas implicações sequer o mais fantástico dos baralhos de tarô poderia prever.

A Grécia encontra-se, particularmente, entre o fogo e a frigideira: para financiar sua dívida através de mais dívida – ainda que com prazos e juros diferenciados, mas mantendo sua posição ponzi em termos de financiamento – acordou com o FMI uma série de medidas recessivas que inclui privatizações e imensos cortes nos gastos públicos, aos quais a população grega tem se oposto fortemente e com a eloquência dos piquetes e das batalhas de rua. Não tendo conseguido fazer passar todo o pacote de reformas goela abaixo dos gregos – a privatização do setor de transportes, por exemplo gerou enormes manifestações –, o governo teve adiado o recebimento do sexto pacote de ajuda por parte da União Europeia, de modo que só tem verba para realizar o pagamento dos funcionários públicos e aposentados até o mês que vem, o que deverá acentuar a mobilização popular. A situação social grega é uma bomba-relógio, que a União Europeia está espertamente tentando isolar em um bunker antes que estoure e leve consigo todo o projeto europeu de poder.

Ao aceitar o primeiro pacote de “ajuda”, o país tornou-se refém do financiamento internacional, perdendo em grande medida seu poder de barganha, na medida em que atomizou suas fontes de financiamento. O eventual “calote grego” impunha a toda a União Europeia o problema da saída da Grécia da zona do Euro, um acordo hegemônico que só teve caminhos de entrada. Com a atomização, o impacto da quebra da Grécia certamente ainda será extremamente significativo para a região e para o mundo, como destacamos anteriormente. Mas torna-se menor, relativamente, especificamente para a Alemanha. Mostra disso são as recentes negociações com a Alemanha: enquanto Merckel e Papandreou davam-se as mãos e discursavam sobre o euro com seu “futuro comum”, o ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schauble, afirmava que os europeus “não têm a intenção de reforçar” o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FESF, na sigla em francês), apenas de ampliar seus dispositivos para possibilitar a ajuda. Merckel manteve ainda a rejeição pública à  coletivização da dívida através da emissão de Eurobônus.

Apesar de buscar contrapor-se de alguma maneira à hegemonia dos EUA, a zona do euro nasce como projeto europeu de poder “frente à globalização” determinada pelos EUA e no marco da ampliação da UE em função dos interesses estadunidenses na ampliação da OTAN, como deixam claros seus documentos internos. Nessa relação dialética, a maior dificuldade enfrentada pelo euro talvez tenha sido a impossibilidade de ser submetido a políticas econômicas consistentes, uma vez que a contrução pretensamente “supranacional” europeia fundamenta-se essencialmente nos interesses de frações do capital financeiro alemão, inglês e francês e corresponde, portanto, a três projetos diferentes de expansão nacional – ainda que, por enquanto, sem autonomia militar crível e efetiva frente aos EUA – visando à reprodução social do ciclo de reprodução ampliada destes capitais. O euro nasce em uma UE que é como Cérbero, e suas três cabeças dificultam muito a execução de um projeto de potência, na medida em que Inglaterra e França frequentemente contrapõe-se aos interesses da Alemanha, hegemônica do ponto de vista produtivo.

O impacto da crise mundial sobre a Europa e, em especial, sobre as regiões periféricas no concerto imperialista que compõe a União Europeia – em particular Islândia, Portugal, Espanha e, especialmente, a Grécia – levanta, portanto, questões estruturais da construção da própria UE. A crise pode generalizar-se na região territorialememente, entre os distintos setores da economia e pelas esferas ideológicas de reprodução social, tendo como meio de principal de transmissão o quebra-cabeças financeiro em grande medida especulativo, mas necessário no capitalismo também para o finananciamento produtivo. Nesse contexto, uma nova onda da crise poderia generalizar-se para além da Europa, inclusive para o Brasil, uma vez que a Europa é hoje uma das maiores compradoras de manufaturados chineses e o cresceimento da economia chinesa tem se projetado como maior sustentáculo da demanda agregada no mundo, inclusive sobre os bens primários exportados pelo Brasil.

Nesse contexto, muito tem-se comentado sobre a possível atuação dos ditos “BRICS” (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) em fundos de financiamento anti-crise, uma vez que suas reservas somadas ultrapassam os US$ 4 trilhões (US$ 3,2 trilhões apenas na China). Como sempre, também neste caso o “auxílio” anto-crise deverá redundar, segundo as propostas existentes até o momento, em maior centralização de capital: no caso do Brasil, que defendeu na Assembleia da ONU a ajuda de países emergentes a países europeus afetados pela crise – ainda que mediante um “acordo político comum” que vá além das medidas contracionistas que vem sendo propostas e implementadas –, o FMI tem incentivado a compra de ativos de empresas falidas em outros países, em especial Portugal, de modo que o Brasil se tornaria um promotor do aprofundamento do desmonte do proto Estado do “bem-estar” português, participando ativamente do programa de privatizações desse país – cuja receita se destinaria a diminuir paliativamente o endividamento estrutural de Portugal. O caso chinês, entretanto, é mais emblemático, por seu sigificado em termos geoeconômicos e geopolíticos: a China propõe ajudar a Europa através de um maciço investimento externo direto, comprando empresas falidas em mais de uma região da Europa – bem como filiais das mesmas na África, onde a China já ocupa um papel de muitíssima expressão no cenário mundial. Em troca, a China pede da União Europeia seu reconhecimento como “economia de mercado” e a anulação de todas as demandas contra o país na Organização Mundial do Comércio (prevista para 2016).
Os tempos que se abrem são tempos de crise e questionamento. O rumo final deste processo – reafirmação da hegemonia dos EUA, mudança na hegemonia mundial ou abertura de uma nova onda de processos revolucionários – só será definido, entretanto, pela luta dos povos em cada país e no mundo, na medida em que inclusive a ação – estabilizadora ou não – dos Estados nacionais reflete a luta de classes que os determina. Que sigam saindo às ruas os trabalhadores gregos e que saiam às ruas os trabalhadores em todas as partes do mundo. Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos.

 

Tina Gomez