Quem vai pagar por isso?

5.473 pessoas “desaparecidas” no Rio em 2010. Até abril-2011 já “desapareceram” 1.929.

Essa foi a pergunta feita por por Alexandre da Silva , após receber a notícia de que o corpo encontrado às margens do rio Brotas, em Belford Roxo (RJ), era de seu filho Juan Moraes, 11 anos, assassinado no dia 20 de junho, ao que tudo indica por policiais militares, e até então dado  como “desaparecido”. Disse ele: “Quero saber como isso vai ficar, quem vai pagar por isso?

Pergunta essa também feita pelo INVERTA em relação aos militantes “desaparecidos” durante o período de ditadura militar, em 1995, quando escancaramos em nossa capa os rostos e nomes de abnegados e idealistas morais, que foram às últimas consequência na luta contra a famigerada ditadura militar civil que grassou por décadas no Brasil. À resposta do sistema à nossa indagação foi o incêndio criminoso na sede do Jornal, que por pouco não custou a vida de seus trabalhadores.

Num beco no dia 20 de junho, na favela Danon, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense,  Juan, seu irmão Wesley, 14 anos, e Vanderson dos Santos de Assis, 19 anos, foram baleados. Wesley afirmou, desde o início, ter visto o irmão ser atingido, e que correu para buscar ajuda com os pais, mas quando voltou, não estava lá seu irmão. Um “circo” foi montado entre as autoridades, a PM e a mídia. Quando não deu mais para segurar, foi confirmado o corpo como sendo o de Juan. Sua família segue sendo “protegida” pela Polícia Civil, enquanto os policiais envolvidos são ouvidos; um deles,  o cabo Edilberto Barros do Nascimento vai sentar no banco dos réus dia 20 em audiência no 4º Tribunal do Júri em Nova Iguaçu. Ele e mais três policiais do 20º BPM (Mesquita) são acusados da execução do ex-presidiário Júlio César Andrade Roberto, 23 anos, em 7 de julho de 2008, na localidade de Sebinho, Vila Norma, Mesquita.

Número de pessoas desaparecidas aumenta no RJ

 

1.929 desapareceram até abril em 2011. A estatística foi divulgada 7 de julho pelo Instituto de Segurança Pública (ISP) do governo do estado. Em 2010, o número de desaparecidos somou 5.473, superior ao registrado em 2009, de 5.425, ao de 2008 (5.095), e ao de 2007 (4.633).

O coordenador do Movimento Rio de Paz, Antônio Carlos Costa, declarou à Agência Brasil, os dados demonstram a necessidade de ampliar as investigações policiais: “A grande questão é que não há uma pesquisa mais aprofundada sobre isso. O que nós sabemos de concreto é que, entre 2007 e abril de 2011, 22.533 pessoas desapareceram. E não se sabe, dessas, quantas morreram. Há provas de casos de pessoas desaparecidas e que foram mortas. Relatos de várias regiões do Rio dão conta de execuções seguidas de ocultação de cadáver”, disse à Abr, apontando o caso Juan, até então desaparecido: “O Juan esteve na lista dos desaparecidos e depois como “vítima de bala perdida”. A história dele é bastante emblemática. Aponta para o fato de que há pessoas desaparecidas e que não vão reaparecer nunca mais, porque foram mortas”.

Um estudo essas desaparecidas publicado pelo ISP na internet mostra que 31% dos casos são de menores de idade, sendo 27% estudantes. As pessoas de cor preta ou parda respondem por 60% do total.

 

Perfil de Desaparecidos no Estado do Rio de Janeiro em 2010

 

A Pesquisa de Desaparecidos, realizada pelo Instituto de Segurança Pública, analisou, em 2009, os casos de desaparecimento ocorridos no ano de 2007 no estado do Rio de Janeiro. O estudo foi pioneiro ao abordar a temática no Brasil e teve como objetivo entender melhor a dinâmica desse tipo de evento.
Além de abordar o perfil das vítimas de desaparecimento, os principais motivos que levaram ao fato e os locais onde se deram os eventos, a análise chegou ao dado importante de que 71,3% das pessoas tidas como desaparecidas retornam ao lar ou são encontradas.

Em 2011, o ISP atualizou o perfil traçado para a vítimas de desaparecimento utilizando dados de 2010, e verificou que as principais características se mantêm. A comparação dos dados referentes aos registros de desaparecimento no estado do Rio de Janeiro nos anos de 2007 e 2010 revela que ocorreu aumento significativo de registros de desaparecimentos. Em 2007, foram registrados 4.641 desaparecimentos; já em 2010 essa cifra aumentou para 5.473 ocorrências, perfazendo uma diferença de 832 registros no período analisado.

Desagregando esses dados por faixa de idade, podemos inferir que persiste a concentração de casos de desaparecimento entre os jovens de 12 e 17 anos de idade. Notamos ainda que no número das ocorrências nas quais não se pôde obter qualquer tipo de informação acerca da idade da vítima ocorreu uma sensível diminuição. Em 2007, esse tipo de registro apareceu em 16,2% dos casos, já em 2010 esse percentual diminuiu para 10,6% dos casos analisados.
Quanto à variável sexo, tanto em valores absolutos quanto em percentuais, os dados revelam semelhanças em relação aos anos pesquisados. Em 2007, 61,6% do total dos registros eram compostos por homens, e 38,4%, por mulheres. Em 2010, esses percentuais não mostram diferenças significativas, sendo 59% de homens e 38% de mulheres.

Em relação à ocupação profissional das vítimas, também observamos semelhanças em relação aos anos analisados. Em 2007, o levantamento mostrou que 28,1% dos desaparecidos eram estudantes, e em 2010 esse percentual diminuiu para 27,4%, continuando significativo. Os dados de 2010 trouxeram novas categorias que não aparecem nos dados trabalhados em 2007. A categoria “trabalhador assalariado” (níveis médio e técnico), ainda que seja responsável por um percentual de 20,3% do conjunto dos registros de 2010, não pôde ser comparada com 2007, pois essa ocupação profissional não constava da primeira análise.

Como foi depreendido dos dados de 2007, com relação à escolaridade das vítimas, a maioria dos desaparecidos tem o ensino fundamental incompleto (40,5% em 2010 e 43,2% em 2007), é solteira (64,2% em 2010 e 71,4% em 2007) e da cor parda (42,2% em 2010 e 43,7% em 2007).

Sobre a distribuição espacial dos registros, não houve mudanças substanciais em relação aos dois anos estudados. A capital segue sendo a região com maior concentração de casos de desaparecimento, 40,3% (2007) e 42,9% (2010). Logo a seguir, encontramos a Baixada Fluminense, com 25,9% (2007) e 26,1% (2010). O interior do estado continua ocupando a terceira posição no ranking dos desaparecimentos, com 24,6% (2007) e 20,8% (2010). Já a região da Grande Niterói se mantém respondendo pelos menores índices desse tipo de registro no estado, 9,2% (2007) e 10,2% (2010).

No tocante aos meses do ano em que existe maior concentração de desaparecimentos, percebemos uma regularidade na distribuição desses registros, encontrada em ambos os anos. Contudo, observamos uma mudança em relação ao mês de maior frequência. Em 2007, esse mês era março, no qual foram registrados 461 casos do total anual. Já em 2010, o mês mais relevante foi dezembro, que respondeu por 527 casos ocorridos no ano. Já em relação aos dias da semana com maior concentração de desaparecimentos, verificamos aproximações entre ambos os anos analisados: a sexta-feira segue sendo o dia da semana com maior frequência de eventos desse tipo (750 em 2007 e 996 em 2010). Nota-se um aumento substancial entre os dois anos, mantendo a concentração nesse mesmo dia.

 

Gilka Sabino
Fonte: ISP e Agência BR