Nenhum passo daremos atrás!

Nesta edição, o Jornal INVERTA entrevistou o soldado Moysés Silva Lima, do Corpo de Bombeiro, lotado no II Grupamento Marítimo que falou do início desta luta histórica e das perspectivas do movimento reivindicativo.

Após mais uma vitória dos bombeiros: a anistia dos 439 bombeiros que tinham sido criminalizados após a ocupação do Quartel Central, em 3 de junho, os manifestantes realizaram ato na orla de Copacabana para comemorar e agradecer à população mais essa vitória do movimento iniciado em 17 de abril. Eram centenas de manifestantes. Nosso Movimento esteve presente em solidariedade e levou nosso órgão de luta, o Jornal INVERTA.

Entre os diversos oradores do ato esteve o PCML que fez uso da palavra através de Osmarina Portal, que lembrou o fato histórico das datas do 5 de Julho associando-a à bravura dos militares bombeiros com o Movimento em 22, 24 e 35. "O fato deste ato ser em 2 de julho e na praia de Copacabana também tem um valor histórico, pois foi neste bairro, onde foi iniciado um grande movimento dos militares na luta do povo brasileiro contra a opressão, passando pelos 18 do Forte de Copacabana, 05 de Julho de 1922, a tomada de São Paulo por Miguel Costa e Isidoro Lopes até a Histórica Coluna Luiz Carlos Prestes até chegar em 1935, data em que a Aliança Nacional Libertadora (ANL) lançou o histórico Manifesto ao Povo Brasileiro. E ela também conclamou aos manifestantes ali presente que hoje estão lutando por salários mas amanha serão chamados a lutar contra invasores que querem ser dono do mundo, a lutar para defender nossas riquezas: nossa água, nossa Amazônia, nosso solo e o povo brasileiro".

Nesta edição, o Jornal INVERTA entrevistou o soldado Moysés Silva Lima, do Corpo de Bombeiro, lotado no II Grupamento Marítimo que falou do início desta luta histórica e das perspectivas.


INV – Como foi iniciado este movimento que está vanguardeando a luta dos servidores no Rio de Janeiro, fazendo história na luta de classes?

MSL - Ocorreram algumas mobilizações em torno da PEC 300, esse movimento que se iniciou em 2007 com o coronel Barbonos e os 40 da Evaristo só veio tomar grandes proporções agora, com as mobilizações que nasceram no berço da tropa, e não foram incitadas por qualquer outra organização, sindicato ou partido, nasceram com a exploração da classe trabalhadora. O movimento se reuniu no final do verão dentro dos quartéis no agrupamento marítimo, guarda-vidas, Eles tinham uma grande insatisfação que além de receber o pior salário do Brasil como todos os policiais e bombeiros do Rio, havia a falta de equipamento, de proteção individual, pagamos o transporte, alimentação, protetor solar, óculos fardamento; já estávamos há muito tempo nesse regime de opressão e exploração dentro dos quartéis e pelo governo do estado, não foi só neste mandato mas em outros também.

Finalmente conseguimos nos organizar e decidimos ir à luta em 17 de abril: 130 homens foram para às ruas em Copacabana, lá passou um avião com a faixa: bombeiros pedem socorro, população carioca precisamos de vocês; antes tinha um outro avião para subir mas a faixa foi roubada e o avião foi impedido de decolar. No decorrer da semana 36 bombeiros que estavam no dia 17 foram identificados e transferidos, havia bombeiros infiltrados fotografando e filmando. Foi aberto inquérito administrativo e criminais contra as lideranças e todos bombeiros receberam um memorando informativo (operação verdade), coisa que não tinha ocorrido antes, uma forma de tentar coagir, querendo saber se o militar tinha participado da mobilização do dia 17. Não podíamos mentir, pois quem mente é punido, seríamos prejudicados de uma forma ou outra.

No dia seguinte da punição os militares se organizaram para fazer um ato de protesto contra a punição, na mesma tarde a tropa foi coagida, sendo avisada que o ministério público, promotora, o Bope, o choque teriam um ônibus para levar todo mundo preso porque estavam indo contra um código penal militar, os militares organizados não recuaram e fizeram o ato; no dia 20 de abril fomos até o Palácio Laranjeiras, de lá fomos até a Alerj o governo prometeu que no dia 28 teríamos nossas reivindicações discutidas entre uma comissão dos bombeiros, entre o coronel comandante geral antigo Pedro marcos Cruz Machado e dois deputados. Mas no dia 21 os bombeiros decidiram se aquartelar, foram até seus quartéis e tentaram fazer o aquartelamento estando de folga ou não você tem o direito de permanecer no quartel se alimentando todos os dias. O quartel é a segunda casa do militar, mas foram impedidos de aquartelar então se reuniram em dois polos: um se aquartelou do lado de fora em Cabo Frio, aqui no Rio o pessoal dormiu na calçada e também o segundo agrupamento da Barra; no dia seguinte, o pessoal fez a mesma coisa em Copacabana e fizeram um ato, mostrando que não era um ato apenas dos guarda-vidas, mas sim dos bombeiros militares em geral, saindo de Copacabana, se deslocando do 3º Gemar indo até o 17º, que é um quartel de fogo. Então começou a unificar, no início poderia ser só do guarda-vida mas se transformou em uma causa de todo bombeiro militar, a partir daí tiveram no Leblon. Fizemos uma marcha em um dia em que choveu muito no Rio de Janeiro 25/04, cantamos o hino de fogo debaixo de chuva demos uma demonstração de determinação e unidade. Soubemos que o governador estava no teatro Municipal, fomos até lá para tentar negociação, foram diverso atos que culminaram com paralisação, depois de varias tentativas de diálogo com o governo ele não abriu sempre tentando desarticular o movimento, marcando reuniões e não indo . Então os salva-vidas fizeram um outro ato, ficaram à paisana, mas não trabalhando de serviço, após essa paralisação ocorreram algumas prisões. Os parlamentares tentaram uma negociação com o governo, só que não resultou em nada. No dia 3 de junho, cerca de 8 mil militares se deslocaram da Alerj até o Quartel Central e o ocuparam, isso é algo que é de direito pois o Quartel é a nossa segunda casa. A porta estava fechada, foi pedido para o comandante que nunca tinha visto uma reivindicação para que abrisse a porta, mais uma vez as portas continuaram fechadas, tivemos que ocupá -lo, desencadeando todo um confronto direto com a polícia sob comando do governo do estado que invadiu o quartel às 6 da manhã, com o Batalhão de Operação Especial, com bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo, spray de pimenta, com tiro de fuzil 762 na linha horizontal a 1 metro e 40 e não paro o alto: tinha direção certa, acertou ambulâncias, com uma total repressão criminalizando mais uma vez os movimentos sociais porque não foi só uma revolta militar, até porque a carta magna do pais não é um código militar, não é porque eu sou militar que deixe de ser um cidadão, como já disse o general Osório: a farda não abafa o peito de um soldado cidadão; cada um que estava ali estava lutando por seu direito, aquela ocupação representava não só uma visibilidade para o corpo de bombeiro mas um grito além, um grito pela liberdade dos movimentos sociais um grito por dignidade, por honra, cidadania, um grito pelos direitos que cada cidadão tem; todos nós cumprimos nossos deveres pagamos impostos , após esse ato os bombeiros ficaram acampados na Alerj, houve uma comoção social como há muito tempo não se via, e houve uma passeata com 100 mil pessoas, alguns enxergam isso como uma causa solidária a uma luta justa digna, mas se pararmos para analisar isso é muito mais além do que uma luta por salário, uma luta pelo direito de ter direito, essa luta vai de encontro à exploração da classe trabalhadora e culminamos com outros eventos, como a ida à Brasília, a luta pela anistia, após a libertação dos 439 bombeiros presos ainda não estavam totalmente livres.

Agora a luta começou da estaca zero. Agora é por dignidade salarial, por melhores condições de trabalho, pelo fim de gratificação, pelo piso de salário de R$ 2.000,00 líquidos, vales-transportes. O governo tem novamente a chance de poder atender a essas reivindicações da classe trabalhadora, pois é como diz nosso hino: nenhum passo daremos atrás, pois o que estamos reivindicando além de ser justo não é impossível para o governo, pois ele arrecada 1,3 bilhões é o estado que mais arrecada impostos e usa quase a metade de sua renda líquida para pagar os servidores públicos, então nenhum passo daremos atrás.


INV - Quantos bombeiros existem no estado?

MSL – Entre ativos existem 18 mil, mas existem os inativos: reformados e pensionistas, que não são atingidos pela política de gratificações, pois quando o militar se aposenta, entra na reforma ou na reserva, ou até mesmo se acidenta ele deixa de receber uma gratificação, por exemplo, se ele recebe R$ 1.400,00 de salário R$ 1.000 de salário e R$ 400 de gratificação se você se acidentar, como foi meu caso, que sofri um acidente de moto deixei de receber 400 reais por mês, então minha família vai pagar um preço por conta de uma política discriminatória, de uma exploração do trabalhador em aproveitamento do capital.

INV – Qual foi o tratamento dado aos 439 bombeiros presos?

MLS - Eles foram encaminhado para o batalhão de DTchoc aqui no centro do Rio, depois, por incrível que pareça, por mais que não tenha saído de nenhum ônibus, que tenha saído da UPP saíram 6 ônibus do batalhão de choque para corregedoria da PM em Niterói , para invadir uma favela no Rio com 48 horas de antecedência, para dar tempo do tráfico fugir com as drogas, armas, com tudo para invadir o quartel central onde os bombeiros estavam com suas famílias, seus filhos e esposas, mas foi eficiente para tirar 16 ônibus com, como ele disse, vândalos irresponsáveis. Ele não tirou nenhum bandido onde ele disse ter pacificado, esses homens que chegaram na corregedoria da polícia permaneceram desde a hora em que foram presos até o dia seguinte - quase 24 horas, sem comida, sem água, com um banheiro todo entupido e um único banheiro para mais de 400 homens. Ali havia senhores com mais de 70 anos, netos iam visitá-los naquele ambiente, sem cama para ninguém, dormindo dentro dos ônibus que os locomoveram a um verdadeiro campo de concentração, uma tortura psicológica.

Depois levaram-nos para Jurujuba, em Niterói; lá ficaram amontoados em um ginásio em colchonetes, muitos saíram de lá com pneumonia, qual o saldo disso tudo, o desrespeito aos direitos humanos assim como em outros lugares, e até mesmo no Rio de Janeiro, com o menino Juan morto, assim como a invasão que houve no morro do Engenho, quando morreram 8 pessoas e o governo disse que morreram traficantes, na verdade, eles mataram trabalhadores e a mídia negou esta informação. Depois ela vem e diz tinha trabalhador no meio desses oito. Os direitos humanos tem sido atacados, da mesma maneira a criminalização dos movimentos sociais não foi só uma afronta aos bombeiros, que não foram presos criminais, nem presos administrativos, foram presos políticos. Isso não é política de um estado democrático, do estado de direito de um país que se julga ser uma república independente, é uma política de uma ditadura de um país imperialista que vivemos. Eles foram libertados e anistiados em função do apoio total da população; vimos isto na passeata dos 100 mil onde a própria imprensa omitiu e abafou, não abrindo link ao vivo do local.

A libertação deles foi em função do apoio contra a violência que os companheiros sofreram manifestaram o apoio também na abaixo-assinado que correu. O cartório parou, a Saúde, a Polícia Civil, Professores e Estudante, toda a sociedade, e agradecemos o apoio da população.


INV - Esses três meses de movimentação de luta declarada ao "patrão", ao estado burgues, que lições trouxe para você?

MLS - Pelo menos para os servidores, para os professores que conseguiram encontro com o secretário de Educação e Planejamento, mesmo que tenha sido para falar, já trouxe algumas conquistas. Vamos supor que a sociedade seja um elefante, o Corpo de Bombeiros seja também um elefante, estava amarrado a um pequeno barbante fácil de ser arrebentado, a grande camada da população ainda não descobriu isso ou se descobriu esqueceu a historia de luta, não só do Brasil mas também de outros países para acabar com a desigualdade social que existe; nosso movimento tem dado uma pequena contribuição no sentido de descobrir esse fio.


INV – Quais são as perspectivas para sua categoria e para a luta em geral?

MLS - Acho que agora os governantes vão nos olhar com outros olhos, mas a tendência é uma revolução, é fazermos mudanças porque novas pessoas que já foram às ruas, pessoas que vivenciaram as lutas dos movimentos sociais ou mudanças na sociedade ou aprendizados, experiência acadêmica, isso mais cedo ou mais tarde vai desencadear uma mudança. Gostaria de ver em meu país e no mundo que as crianças não estivessem se acabando, usando crack, não ter moradores de rua, como a gente vê por aí, em alguns países não existe isso, a prostituição, o tráfico de drogas, o capital dominando, são diversas mazelas que eu não gostaria de ver, e que muitos não gostam de ver, nós presenciamos e não fazemos nada para mudar, mas temos muitas ferramentas, principalmente a comunicação, para fazer com que as coisas mudem. Vimos um pouquinho que é possível uma mudança social em nosso Brasil e só depende do sacrifício de cada um de nós.


INV – Deixe uma mensagem para nossos leitores.

MLS – A mensagem é que a anistia dos bombeiros, a luta pelos 13 que foram presos na Embaixada, na vinda de Obama, é uma luta pelo direito de ter direitos, é uma luta que vai muito mais longe do que a gente imagina, e essa luta outros já tiveram para que hoje nós pudéssemos nos expressar, estava demorando, esse marasmo com relação às lutas no Brasil, acho que a hora é agora de irmos às ruas, acho que temos três pilares: o estudo, o trabalho, manejar, limpar o fuzil com precisão e usar a comunicação também com precisão, seja através do rádio, da televisão, do jornal impresso, seja através da internet, que engloba várias mídias e tem um custo quase zero. E para finalizar reafirmo: nenhum passo daremos atrás na luta por dignidade e Justiça. Junto somos fortes!

 

Bombeiros somaram anistia com passeata em Copacabana


Sucursal Rio de Janeiro