Adeus a Billy Blanco: A esperança não está perdida!

O INVERTA entrevistou Billy em sua edição Nº 65 – de 10 a 15/12/1995, quando se comemorava os 35 anos de bossa-nova.

Faleceu no dia 8 de julho, aos 87 anos, o compositor paraense Billy Blanco. Em outubro de 2011, ele sofreu um acidente vascular cerebral e ficou internado no Rio de Janeiro.  O INVERTA entrevistou Billy em sua edição Nº 65 –  de 10 a 15/12/1995, quando se comemorava os 35 anos de bossa-nova.

Um dos compositores que desde a década de 50, já fazia o que mais tarde seria conhecido no mundo inteiro como Bossa-nova, segundo Vinícius de Moraes Billy é aquele que mais falou sobre o Rio de Janeiro, suas belezas, seus costumes e ocorrências, em letra e música. Blanco tem mais de 300 músicas, muitas delas feitas com os parceiros Baden Powell, Tom Jobim, Nilo Queiroz, Maria Dulcinéia, Sebastião Tapajós e outros de igual valor e sensibilidade. Autor de sucessos como: Piston de Gafieira, Teresa da Praia, Viva Meu Samba, Estatutos da. Gafieira,  “Samba Triste”, “A Paulistana”,  “Esperança Perdida”, “Sinfonia do Rio de Janeiro” e “Monções”, o sambista Billy Blanco conversou com o INVERTA em sua casa, sobre como o movimento bossa-nova procurava eleger a beleza da música “sem ter que arrancar o coração do peito da mãe para provar o amor, declarou bem-humorado.

IN - Você é considerado um dos precursores do movimento Bossa-Nova. Como vocês se reuniam, como era o processo de criação?

BB - Deixa eu te dar uma explicação sobre o assunto Bossa-Nova: o samba veio da mistura da polka com o lundu, mas teve o maculelê, teve a ronda, teve a valsa, o tango, que era brasileiro e depois foi para lá; enfim, são tempos de música, ocasiões em que se dá nome às coisas; depois veio Ary Barroso, começou a orquestrar o samba, os temas naquele tempo, as músicas de amor, eram na base da capa espada, com mortos e feridos; era tudo drama como em: O Ébrio, de Vicente Celestino, grande compositor e cantor; mas cantava o coração rasgado no peito - a amada pedia o coração da mãe dele para provar o amor - coisas dessa natureza. Chegou ao ponto em que a Bossa- Nova, com toda doçura, começou a eleger a beleza da música através da trilogia: o amor, o sorriso e a flor.

IN - Mas antes disso, você, como Baden Powel e outros compositores, já fazia algo semelhante. O que explica a explosão em 60?

BB - Acontece que muito antes de eclodir o movimento Bossa-Nova, em 60 e 61, na década de 50, Johnny Alf, Baden Powell, o próprio João Gilberto, eu e Tito Maia já jogávamos a música de um jeito diferente; era um princípio de Bossa-Nova. Com Baden Powell, eu fiz logo de cara: “O samba triste, a gente faz assim...”; com Tom Jobim, fizemos A Sinfonia do Rio de Janeiro, Teresa da Praia, Esperança Perdida, tudo Bossa-Nova pura, só não tinha o nome; era samba de Baden Powell com Billy Blanco. Aí resolveram fazer aquele movimento, veio o americano aqui e tudo, e se acabou dando o nome de Bossa-Nova, como tem minissaia, calça jeans, tudo é roupa, tudo é música, e a Bossa-Nova então explodiu no mundo inteiro, certo?

IN - Vocês acreditavam que o movimento ia ser sucesso até hoje?

BB - Acreditávamos porque é uma coisa simples e bonita, sem dramalhão. Eu defendo até hoje, porque apareceram esses ritmos, você escuta um conjunto desses, escuta todos os outros; paciência!, eu não dou para chegar a este ponto de cinismo, poderia fazer 10 dessas por dia. Esses meninos fazem uma música que praticamente é sempre a mesma coisa: é o “você que ficou comigo, que não ficou, vai ficar, porque eu tô dentro de você, você devia estar aqui, para ficar dentro de mim”... Não dá, acabou a essência, a poesia, acabou o sentido de melhora no tema literário e musical da música brasileira.


IN - Isso rende uma fortuna para as gravadoras, que dão mais valor e não estão nem aí para a qualidade da música.

BB - Claro, isto está rendendo, as fábricas estão felizes da vida, e tem que estar, não estão aí para fazer a alegria de Billy Blanco, nem de Tom Jobim nenhum, querem mais é vender... Para cada 2 milhões de discos que eles vendem, um compositor da Portela e um Billy Blanco vendem 2 mil.

I - Vamos falar um pouco de suas músicas, como surgiu Piston de gafieira!

BB - É um piston tocado na gafieira que quebrou um galho, num pau que comeu e o pistonista tirou a surdina e eu, freqüentando as gafieiras, primeiro como músico profissional, depois como participante, eu vou muito lá, imaginei uma situação de gafieira e com base inclusive numa frase "quem está de fora não en-tra". Isso surgiu quando, às seis e meia da tarde, eu ia entrando na loja de um amigo, Antônio Sadi, que estava baixan-do a grade e disse que eu esperasse um pouquinho, que eu esperasse um mo-mento até abrir uma portinha para que eu entrasse; antes porém brincou dizendo:" quem está de fora não entra" e eu res-pondi," quem está dentro não sai". Ele disse:" isso dá samba", e eu fui para o balcão e comecei o samba. Fui escre-vendo para casa e, quando cheguei, o samba estava pronto.

«Acontece que muito antes de eclodir o movimento Bos-sa-Nova, em 60 e 61, na década de 50, Johnny Alf, Baden Powell, o próprio João Gilberto, eu e Tito Maia já jogávamos a músi-ca de um jeito diferente; era um principio de bossa-nova»

 

I - Acontece sempre assim, Biily ?

BB - Aproveitamos uma idéia e de-senvolvemos; inspiração nâo existe, exis-te um bom momento musical, um bom momento literário, um instante em que você é feliz ao dizer alguma coisa. Por exemplo, quando se vai falar com um namorado ou namorada e nesse dia você está com a cachorra, você fala bonito, e tem dia que só sai babaquice, não diz nada. A gente tem facilidade em fazer isso, graças a Deus. O cara me telefona e diz:" Billy, preciso dejingle para a balas Souvenir; e eu preciso no máximo até depois da manhã". Se desenvolve a idéia e se agarra ali. Se você tem hora marca-da para entregar um jingle, uma música de novela, uma música para filme ou

teatro, você ainda vai esperar a inspira-ção chegar? Coisa nenhuma. Você tem a idéia, tem o argumento, o script; então, você senta e profissionalmente faz letra e música; essa é que é a história, não é outra, não.

IN - A tal falada inspiração então não está com nada?

BB - Não tem esse papo, tem que ser um bom observador do cotidiano, ter destreza, rapidez e competência também, porque não é poeta quem sabe rimar; você vai rimar ovo frito com cabrito? Quem rima não é poeta, quem rima é outro troço.

I - Quer dizer que, no caso da gafieira, a briga foi apenas ficção?

BB - A ordem continua a mesma. Não tem briga em gafieira, eu chego lá com a minha dama, minha mulher; dou uma dançada com ela que, diga-se de passa-gem, dança muito bem; daqui a pouco vem um crioulo de dois metros e diz:" me dá licença" e dá um um show, na maior beleza; depois ele chega e me apresenta a mulher dele, que dança pra burro, todo mundo nivelado pelo mesmo assunto que é a dança. Está lá o estatuto e tem que respeitar. É uma fantasia a briga em gafieira. Todo mundo pensa: "negócio de bandido, coisa de crioulo"; onde há mais ordem é justamente com os nossos, vocês não fazem idéia.

IN - Como você vê a situação do país?

BB - Eu sempre digo uma coisa que é,”haja o que houver, não parem de cantar”;  é o que nos resta, olha a situação das coisas. Eu hoje não acho mais nada; tinha um amigo que achou, acharam ele e hoje ninguém acha mais ele. Desde 64, não acho mais nada e ponto final.

I - Você sempre foi letrista?

BB - Eu sempre fui letrista e compo­ sitor de mim mesmo. Depois quando conheci o Tom fiz algumas coisas com ele, como A Sinfonia do Rio de Janei­ ro, doze músicas e um tema; depois fizemos Teresa da Praia, Acho que sim, umas 1 6 músicas. Fiz música com o Baden, umas duas ou três, fiz música com outros autores; com Nilo Queiroz, que é uma das mais bonitas que já fiz, a Encontro com a Saudade, que é as­ sim: 'Você chegou assim como sol da manhã, iluminando, só veio dar bom dia e foi ficando, agora não tem jeito de partir, meu bem, como vai ser, se um dia este amor chegar ao fim, eu que me acostumei tanto a você e ter você já faz parte de mim, acho bom eu até combinar encontro com a saudade de você, saudade faz parte também do amor... '

 

I - E o trabalho atual com seu novo parceiro, o violinista Sebastião Tapajós?

BB - E um violinista clássico que estou arrancando da música erudita para a popular, ele é muito bom. Eu faço uma letra, boto no fax para a casa dele, daí a meia hora ele me liga e diz: "vem para cá, que a primeira parte está pronta, e a gente vai burilando". E trabalho profis- sional.

 

I - Falando um pouco de futebol, você é flamenguista, são-paulino e portelense, que salada é esta, Billy?

BB - Todo flamenguista é corintiano, eu não. Eu sou são-paulino, não só pela simpatia do clube, como também pelas cores preto e vermelha. Torço pela Portela mas...

«A música João da Silva era uma crítica que fazíamos aos royalties que os brasileiros pagavam (...) a Edna Lott, filha do general Lott, colocou para tocar (...) dizendo:"esta é a música da revolução"; aí sobrou para mim Naquele tempo, se a gente bobeava, fazia uma temporada em Cannes, não na França, né, 'cane' aqui mesmo»

 

I-Mas o samba estava muito bom, ã que se deveu a derrota, na sua opinião?

BB - Para mim é a questão dos jurados, é aquela história, a gente nunca sabe. Já me chamaram para ser jurado e eu nunca quis. Não estou aqui para dizer, que um colega vai para o inferno e o outro vai para o céu e o outro vai para o purgatório. Se eu fosse lá, seria para dar um depoimento escrito de cada música que eu analisasse, dizendo o que achei, como os temas são diferentes; mas daria naturalmente 10 para todas. Não daria nota porque fulano de tal mandou dizer, não dá.

 

I - O que você tem feito atual­ mente, Billy?

BB - Meu trabalho tem sido shows pelos brasis a fora. Só não conheço bem Santa Catarina, Goiânia e Piauí. Recentemente fizemos, Sebastião Tapajós e eu, gravada pela Ana Lemgruber, para a novela História de Amor, chamada Desencanto, que é assim: Se queres euprossigo/amigo/ usa o pranto em hora bem mais triste, eu não mereço tanto, te quero como amigo, porque como já viste, o nosso amor não deu, se queres eu me entrego, só não sei até quanto te valerá a pena, tua vida está passan­ do, sou coisa tão pequena, que nem vale, eu garanto, um desencanto seu. Amigo, me perdoa se dói since­ ridade, é bem melhor que o medo de te ferir à toa, porque mais tarde ou cedo e como o tempo voa, voa, a gente se esqueceu.

 

I - Você tem músicos em sua família?

BB - O Billy Blanco Jr. é maestro, é músico e letrista melhor que o pai, o outro filho é jornalista; meu sobrinho, o Paulo Queiroz, é tenor; ele apresentou a Ópera" Viúva Alegre", no Munici-pal, na temporada passada. Ele, inclu- sive, está fazendo recitais para angari-ar fundos para seu curso no exterior, primeiro porque ele é bom demais, segundo porque está na hora da gente pensar um pouco em mandar gente de valor lá para fora.


IN - Antes da entrevista, você estava falando sobre aquela confusão por causa da música João da Silva, que terminou até em cana para você. Como foi mesmo?

BB - Era uma deputada chamada Edna Lott que pegou um disco meu que, de um lado, era Carlos Lyra com Subdesenvolvido e do outro era eu com João da Silva; era a história do Brasilino, uma figura que um deputado socialista, professor emérito, homem de grande cultura do Rio Grande do Sul, chamado Temperane Pereira lançou no Congresso : um brasileiro que desde que acordava pagava royalties, e quando ia dormir pagava royalties se ficasse com a luz acesa. Na realidade, o Brasilino para mim era a figurado brasileiro João da Silva, que era obrigado a se submeter; todos éramos sem vergonha naquela época, então lancei: João da Silva, cidadão sem compromisso, não manja disso que o francês chama 1’argent, pagando royalties, dinheiro disfarçado, foi tapeado desde as 5 da manhã, com Palmolive ao chuveiro da Combati, usa Colgatte, faz a barba com Gillete, põe Aquavelva, paga royalty da fome do pão que come ao leite em pó com Nescafé; movido a Esso vai em frente pro batente, de elevador Ottis e outros, sobe e desce, ele é nacionalista de um modo diferente, pois toma rum com Coca-Cola e tudo esquece, vai com a madame ver o bom Cinemascope, ela usa nylon e ele Cashemere inglesa, entorna whisky, ao invés de chopp, paga royalty dormindo, quando esquece a luz acesa. A música João da Silva era uma crítica que fazíamos aos royalties que os brasileiros pagavam. Depois, não tinha mais sentido, mas naquele tempo. Como a Nora Ney tinha gravado, então a Edna Lott, filha do general Lott, colocou para tocar na madrugada, dizendo:” esta é a música da revolução”; aí sobrou para mim. Naquele tempo, se a gente bobeava, fazia uma temporada em Cannes, não na França, né, ‘cane’ aqui mesmo.

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