Quem faz o movimento?: Valdeci Vieira Simões

Nesta edição, o INVERTA entrevista o camarada Valdeci Vieira Simões, um dos militantes do Partido Comunista Marxista-Leninista (BR), no Rio de Janeiro, que tem dado grande contribuição para o movimento em prol de nossas posições politicas se tornem uma realidade nesses 20 anos de luta. Valdeci nos falou porque no início de sua militância decidiu acompanhar as posições em torno da OPPL.

IN – Qual a sua origem?
VVS – Sou filho de Cristiano Simões, lavrador e cozinheiro e Cremilda Gomes, Vieira Simões, doméstica. Minha mãe era de Campos e meu pai, do Espírito Santo. Nasci em Mesquita quando era parte de Nova Iguaçu-RJ, em 1959. Éramos 4 irmãos; nossa vida foi difícil porque nesta época era a ditadura militar, tínhamos que ficar mudando devido a situação politica e econômica, quando não conseguia emprego em um lugar, mudava-se para outro. Eu só estudei até a sétima série porque tive que trabalhar cedo para ajudar nossa família, ou trabalhava ou estudava, e fui obrigado a optar pelo trabalho, senão morreríamos de fome.

IN – Em que você trabalhava nesta época?
VVS – Em criança (10 anos) trabalhei em uma oficina mecânica, morava em Magé-RJ. Era a única opção que existia de trabalho, depois fui trabalhar num armazém que na época chamava-se Secos e Molhados. A intenção não era o salário, mas diminuir a quantidade de bocas na minha casa, isto é, para sobrar mais comida para os outros. Esta situação continuou até os meus 18 anos, quando então comecei a trabalhar na Piraquê,  lá a minha carteira foi assinada.

IN – Quando começa seu engajamento político?
VVS – Em 1982,  estava trabalhando na empresa de refrigerantes em Mesquita, lá conheci uma pessoa que participava do PT (Ala Vermelha), ele era muito inteligente, começamos a conversar politicamente, ele falava das causas operárias, de como os trabalhadores eram explorados. Então ele me levou a participar da Associação de Moradores de Banco de Areia; nesse período, esse camarada se candidatou a vereador e eu o apoiei. Embora tenha sido muito bem votado, foi o segundo mais votado, não entrou na câmara. O processo era complicado devido à ditadura. Nesse momento fiquei no vazio, pois o candidato  que sofreu a derrota, desistiu da luta e é aí que aparece o companheiro Jandir do MTS (Movimento dos Trabalhadores Sindical) que começa me levar livros revolucionários - até então eu não tinha lido nada - e me apresenta a outros companheiros. Então comecei a ver que existiam outros movimentos como MAB,  o Centro de Formação  de Moquetá, a OPPL, entre outros.
É nesse momento que conheço o Aluisio Beviláqua, dirigente da OPPL (Organização Popular é para Lutar) e então minha vida muda, dei uma guinada muito grande, embora tivesse que tomar a grande decisão, pois ainda estava sobre a influência do meu primeiro contato, que foi o militante do PT e não tinha uma proposta revolucionária, o que ele almejava era o processo eleitoral. As correntes atacavam muito o companheiro Aluisio, nesta época a OPPL estava começando.

IN – E como você se decide pela nossa agremiação política?
VVS – O Camarada Aluisio, então, encaminha uma pessoa para conversar comigo que, por coincidência, era meu vizinho, e este aprofunda as discussões e me faz estudar, mesmo assim continuo tendo resistência, pois as queimações eram tão grandes que me faziam ter resistência. Chamavam-no de terrorista, que fazia tumultuo, que era radical. Tudo isso foi embora no dia em que fui na casa dele. Então vi o lado bom, amigo, do camarada. A partir desse momento as nuvens se esvaem e começo a ter plena confiança nas posições políticas e nele próprio.

IN – Como se deu a ocupação de terra em Nova Era?
VVS – Nesse bairro, onde eu e minha esposa morávamos, pagávamos aluguel, que era caro, e eu ganhava pouco, como todos os trabalhadores; foi quando observei que na região tinha uma imensa área de terra da prefeitura abandonada, então eu e os moradores organizamos a ocupação deste terreno. A  Associação de Moradores de Nova Era, de onde eu era vice-presidente, não participou, tampouco apoiou o movimento, pois a mesma defendia os projetos governamentais como tíquete de leite, cursos, etc.
Sem o apoio da Associação, mas com o apoio da OPPL, saímos vitoriosos deste processo. Hoje todos os moradores daquela região estão legalizados em suas moradias.

IN – Então você tomou a decisão e segue firme nela até hoje.
VVS –  A posição estava correta; na época discutíamos que partido queríamos, o PT queria ir para mídia, a OPPL queria ir para o povo, conscientizar, com formação de comitês e o que queríamos era construir um partido que levasse o povo ao poder e construir o socialismo, nossa palavra de ordem era organizar o povo e tomar o país, é nesse sentido que fomos construindo essa trajetória, cada um na sua tarefa, uns mais a frente e outros na retaguarda, mas com a mesma importância. É como diz a ciência marxista: para ter o todo, tem que ter as partes. E assim foi surgindo primeiro a Resistência Operária, a OPPL; o Movimento Cinco de Julho, a Refundação; o MNLCN e o PCML, todos cumprindo um papel histórico. E não poderia deixar de citar o jornal INVERTA e as intervenções fora do país.

IN –  Qual o significado de  Cuba para você?
VVS – O primeiro livro que li foi um livro chamado “A Ilha de Fidel”, o livro me despertou para vida de outro país,  o operário é levado a não se preocupar com nossos irmãos. Passei a me interessar pelo Equador, Nicarágua, El  Salvador, o Líbano. Os bombardeios e o bloqueio econômico que até hoje continuam e intervém em nossa vida também. E, assim como Cuba foi capaz de fazer sua revolução e sustentá-la, nós também somos capaz de fazer a nossa. Cuba é uma referência.

IN – Deixe uma mensagem para nosso Povo e sua Juventude.
VVS - Não se descuidem, fiquem atentos porque existe muita gente que está insatisfeita; não se contentem com migalhas, nosso país é muito rico e nós trabalhadores merecemos muito mais. E, cuidado, pois quando a burguesia dá os dedos, é porque está com medo de perder os anéis. Não acreditem nos jornais burgueses, nem na televisão, pois eles estão sempre deturpando tudo, é triste ser condenado por alguém que nos condena aqui e erra logo ali, como diz Roberto Ribeiro, em um samba de sua composição. O jornal pra verdade é o INVERTA, que completa agora, em setembro, 20 anos, e quero convidar a todos, desde agora, a comparecer na comemoração desta importante data.

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