Preconceito contra os pobres em São Paulo

Manifestações fascistas em São Paulo tomaram força após as eleições presidenciais, em que o debate político muitas vezes foi esvaziado, trazendo à tona ofensas ao povo nordestino. Organizações de esquerda e de direitos humanos se pronunciaram a respeito e o Jornal INVERTA, entrevistou o vereador Francisco Chagas, do PT, que apresentou no dia 4/11/2010 uma representação junto ao Ministério Público Federal, onde constam as ofensas proferidas por 94 pessoas.

Para além de simples manifestações de opinião: o preconceito contra os pobres em São Paulo

 

Durante as últimas eleições presidenciais pudemos acompanhar de perto como o debate político se esvaziou e a forma como ele foi colocado para a população no geral: uma briga entre os do “bem” e os do “mal”. Dilma Rousseff era a guerrilheira do mal, José Serra o perseguido político do bem. Tratou-se também de abordar o pleito como uma luta entre o sudeste e o resto do país, principalmente pelo candidato do PSDB, ex-governador de São Paulo. Buscou-se formas de influenciar sobre a população para conseguir a manutenção de um status quo favorável aos seus interesses ou influenciar na direção desejada sobre a opinião pública.

O resultado final, com a vitória da candidata do PT, mostrou que esta estratégia não teve sucesso nas urnas, porém, continuou repercutindo na mídia através de manifestações fascistas que se seguiram. A estudante de direito, Mayara Petruso, postou na internet a seguinte frase: “Nordestino não é gente, faça um favor a SP, mate um nordestino afogado!”. Organizações de esquerda e de direitos humanos se pronunciaram ao respeito e o INVERTA, procurando não dar visibilidade a este tipo pensamento, mas buscando entender o que, quem e por que ele se manifesta na nossa sociedade, entrevistou o vereador Francisco Chagas, do PT, que apresentou no dia 4/11 uma representação junto ao MP Federal-SP, onde constam 94 nomes com a identificação de seus endereços eletrônicos e perfis na rede mundial de computadores e as respectivas ofensas proferidas por elas. Estas pessoas devem ser investigadas e punidas.

INVERTA – O que o levou a apresentar está representação ao Ministério Público?

Francisco Chagas -
Primeiramente é importante lembrarmos que mais de 50% da população do estado de São Paulo é nordestina ou descendente de nordestinos. Tudo isso surgiu dentro se um cenário político, ou seja, a eleição desse ano teve uma conotação de grande embate e esse embate ocorreu quando o candidato, ex-governador do estado de São Paulo, José Serra, tentou criar uma espécie de cisão entre São Paulo e o nordeste e passou a ideia de que a eleição de Dilma ocorrera dado o fato de os nordestinos, menos avisados, menos informados, menos preparados, a terem elegido; o que não é verdade. Primeiro porque aqui também metade da população é nordestina e lá no nordeste, pese a esmagadora maioria dos votos para Dilma, Serra também obteve votos. Outra coisa é que mesmo se retirássemos os votos do nordeste, Dilma ganharia no restante do país, com mais de um milhão de votos. Então esse dado está incorreto. Mas muitas pessoas foram levadas à ideia de que a responsabilidade pela eleição de Dilma seria do nordeste e começou uma onde de xenofobia muito estimulada por esse tipo de visão. E as abordagens eram as mais terríveis, desde propor a morte sumária, que cada um pudesse executar um nordestinos, incitando a violência dos cidadãos, até a de sugerir a reaparição de Hitler, ou seja, que fossem criadas câmaras de gás no nordeste para a execução do nordestinos. Isso, no mínimo, é incitação ao homicídio,à violência e a criar uma guerra civil no Brasil. Então nós encaminhamos ao Ministério Publico a relação de todos que conseguimos pegar na internet, não só a Mayara, porque no Brasil existe uma mania de “fulanizar” as responsabilidades. Relacionamos 94 pessoas para serem investigadas no Ministério Publico Federal e a nossa solicitação de investigação foi acatada pelo mesmo e está em andamento a investigação em sigilo de justiça.

INV - Você acredita que estas manifestações são apenas contra os nordestinos por serem nordestinos?

FC -
Isso não passa no fundo de um preconceito de classe social, porque querendo ou não, nessas manifestações genéricas contra o nordestino, percebe-se que são voltadas ao nordestino pobre, porque ninguém pediu para o grupo Odebrecht voltar para a Bahia, ninguém pediu para o grupo Votorantim voltar para Pernambuco, nenhum grande grupo econômico ou nenhuma grande personalidade nordestina que aqui vive foram citadas para serem exterminadas. A proposta, pela minha percepção,vai muito além dessa regionalidade, da questão racial, da questão étnica, é uma xenofobia com um caráter de classe muito grande. O fato é que precisa ser investigado e julgado dentro do rigor da lei. No caso, a Constituição prevê pena de 3 a 5 anos.

INV – Como a esquerda pode garantir que fatos como este possam ser denunciados sem dar projeção e voz aos grupos da direita?

FC -
O instrumento jurídico é indispensável, pois vivemos supostamente em um Estado de Direito, então tem uma legislação que nos obriga a determinadas responsabilidades e limita uma ação dessa natureza. Mas a lei e a justiça só se verifica com a mobilização popular, então o sentido da manifestação do ato é para que outras entidades da sociedade civil organizadas não deixem que isso fique no anonimato. Acho que tem de vir à tona porque precisamos ter clareza se elas são espontâneas ou se são organizadas. Há dois anos vimos o movimento Cansei, que eram manifestações que já pregavam a destituição do presidente, etc e  vimos que aqueles que o compunham não eram pessoas desorganizadas dentro da sociedade, pertenciam à elite paulistana, pois estava o presidente da FIESP, membros da direção do PSDB, da OAB; então, não é algo aleatório. Não somos ingênuos de achar que a sociedade é pacifica, se fosse, nós não precisaríamos fazer nada. A sociedade é conflituosa e exatamente por ser conflituosa é que um Estado de Direito tem que punir duramente, no rigor da lei, esse tipo de manifestação que promove o caos ou o extermínio de outras pessoas e outros grupos sociais, étnicos. As manifestações contra nordestinos foi só o começo, na semana seguinte nós vimos um grupo de jovens de classe média agredir violentamente pessoas que passavam nas ruas motivados pela homofobia. E bastou essas agressões que outras várias cenas de violência gratuita e explícita foram vistas. Mais um motivo para que isso não passe impune, seja do ponto de vista da justiça ou da manifestação popular e social, que não deve concordar com isso, pois tenho certeza de que o povo não quer isso.

INV - Gostaria de mandar algum recado aos leitores do jornal INVERTA?

FC -
Primeiro, quero agradecer a oportunidade. Algo importante de dizer é que temos que acentuar esse debate nos partidos políticos, nas ONGs, em sindicatos, nas instituições do poder público, nas Câmaras Municipais, etc. Nós não podemos fazer vistas grossas para o que está acontecendo, pois está surgindo uma mobilização de um pensamento conservador que não está ainda devidamente responsabilizado, pois não se apresentam em termos de organização institucional, mas é nítido esse pensamento conservador que se manifesta na homofobia, no racismo, na xenofobia, e que se manifesta no movimento Cansei,sem uma representação institucional. Então eu acho que nos precisamos discutir se essas manifestações são organizadas ou se estão na clandestinidade, se elas querem ou não se apresentar publicamente. Então eu sugiro aos jornais, aos partidos e entidades sociais e de classe que debatam para compreender o que significa essa ebulição do pensamento conservador no Brasil que ficou muito presente nessa campanha, que foi marcada por violência, ou seja, ela não discutiu os grandes problemas sociais, os grandes problemas econômicos, os grandes problemas políticos e focou em uma discussão sobre o aborto. Até parece que estávamos elegendo o papa ou alguma ordem religiosa e não o governo brasileiro. A sociedade brasileira não é pacifica, pelo contrario, é uma sociedade que viveu 500 anos de exploração, que passou por 400 anos de escravidão e cento e poucos anos de governos republicanos recortados por governos autoritários e ditaduras, então ela é uma sociedade conflituosa. Temos que pensar que se quisermos a paz, viver em uma ordem social justa, precisamos pensar e agir permanentemente sobre esses problemas.

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