Comemoração do 25º aniversário da Fundação do Novo Cinema Latino-americano

A Fundação do Novo Cinema Latino-americano (FNCL) completa 25 anos! A principal comemoração se dará no marco da 32° edição do Festival Internacional do Cinema Novo de Havana, espaço que desde sua origem está comprometido com a vanguarda do cinema continental.

“Esse inicial encontro inicial de pessoas de nossos povos nas telas, de ideias e projetos comuns, de vocação unânime contra o atraso e a dependência, revolveu em nós os cimentos da gesta de nossos heróis: a pátria única da América Meridional.”  Edmundo Aray em comemoração do 40° aniversário do Festival de Cinedocumentário Latino-americano de Mérida, 2008.

A Fundação do Novo Cinema Latino-americano (FNCL) completa 25 anos! A principal comemoração se dará no marco da 32° edição do Festival Internacional do Cinema Novo de Havana, espaço que desde sua origem está comprometido com a vanguarda do cinema continental.


Na década de sessenta, momento histórico no qual a luta de classes se desenvolvia de maneira frontal em todo o continente, começaram a surgir isoladamente novas propostas cinematográficas que contra-arrestavam imposições culturais do cinema europeu e estadunidense. Nascia um cinema novo identificado com as lutas e necessidades populares que logrou expressar a voz de um povo faminto por transformação. Os dois movimentos latino-americanos iniciais mais importantes foram: o cinema cubano, com a revolução; e o cinema novo brasileiro, surgido após o cine cubano, em 1962 63. 


Respondendo à necessidade de um espaço que fortalecera esse cinema nascente, foi convocado para Valparaíso, Chile, o 1° Encontro de Cineastas Latino-americanos. Nas palavras do boliviano Jorge Sanjinés, um dos precursores desse encontro: “Foi surpreendente como nos encontramos, cineastas latino-americanos em Viña del Mar (Chile) em 67, e em 68 em Mérida (Venezuela) e descobrimos que isoladamente estávamos pensando a mesma coisa. Que isoladamente, o que cada um queria fazer na sua pátria - Gláuber Rocha no Brasil, Pino Solanas na Argentina, Miguel Littín no Chile, ou Santiago Alvarez em Cuba - era a mesma coisa: trabalhar pela consolidação da independência frente ao império estadunidense, como em Cuba; ou em outros lugares, na procura da independência frente a [...] essas forças hegemônicas de opressão e domínio.”


Os que compuseram esse grupo de vanguarda, nesse mesmo encontro sentaram a base para uma Escola de Cinema (hoje EICTV) e fundaram o embrião da FNCL, o centro de Cinema Latino-americano. Foi em 1985, no Festival Internacional do Cinema Novo de Havana, em sua sétima edição, que é assinada a Ata Constitutiva da Fundação Novo Cinema Latino-americano, presidida por Gabriel Garcia Márquez, um dos personagens mais ilustres da narrativa latino-americana do século XX. 


Desde sua fundação, essa plataforma de luta permitiu o aprofundamento de uma identidade latino-americana no cinema, a formação de jovens cineastas em um marco de emancipação e a criação de obras que expressam fielmente a história do nosso continente, tanto em forma como em conteúdo. Contribuição importante a esse processo foi a fundação em 1986 da Escola Internacional de Cinema e Televisão (EICTV) de San Antonio de los Baños (Cuba), originalmente concebida como uma escola de Três Mundos para acolher estudantes da América Latina, África e Ásia. A escola se auto define como “uma escola de vida”. Sua comunidade é integrada por estudantes, profissionais, professores e trabalhadores, que compartem processos docentes e de aprendizagem atípicos, assim como um espaço comum de convivência” e é reconhecida mundialmente hoje como uma dais mais importantes do seu gênero.


Essa construção contínua e luta pela conquista de novos espaços não só de criação, como de difusão, é o que permite a FNCL estar hoje na direção executiva do programa de fomento à produção e teledifusão para o documentário ibero-americano: DOCTV. Partindo da experiência interna desenvolvida pela Secretaria do Audiovisual do Ministério da Culturabrasileiro em 2003, hoje propõe a realização de um Concurso Público Nacional em quatorze países, financia a realização dos ganhadores nacionais e é responsável pela exibição dos mesmos em um circuito de difusão pública integrado à Rede DocTV, presente em todos os países participantes: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Equador, México, Panamá, Peru, Porto Rico, Uruguai e Venezuela.


Obras cinematográficas de importância política como As Bandeiras do Amanhecer, de Jorge Sanjinéz e Beatriz Palacios (Bolívia), que relata os acontecimentos na Bolívia durante as eleições de 1978, 1979 e 1980 como as greves gerais operário-camponesas que forçaram o governo militar à renúncia; A empresa perdoa um momento de loucura, de Mauricio Walerstein (Venezuela), que expressa a luta de classes através do conflito de um operário em crise nervosa com a empresa na qual trabalha há 20 anos; A Batalha do Chile de Patricio Guzmán (Chile), trilogia que registra os fatos antes (I), durante (II) e depois (III) do golpe de estado contra Salvador Allende; assim como várias iniciativas de promoção, formação, produção, e difusão cultural ajudaram a definir nossa identidade, manter nossa história viva e contá-la nós mesmos.


Por isso saudamos e nos inspiramos nesses 25 anos de trajetória e luta que comemora hoje a Fundação do Novo Cinema Latino-americano. É uma honra celebrar essa conquista com Cuba e o povo da Nossa América!

Julia P.